Sonhos de uma noite de verão

Escrito por omensageiro_master

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado1

Em pleno verão eclesial neste Hemisfério Sul do planeta, cumpre sonhar uma Igreja rejuvenescida e bela. Uma Igreja convertida e alegre. Uma Igreja evangelizada que se faz corajosamente evangelizadora. Uma Igreja fiel a Jesus Cristo e a Sua mensagem de paz, amor e justiça. Esse é o desafio para os que vivem essa pertença. Por onde começar? Pela fé e pelos fiéis, para que possamos superar alguns invernos e aguardar, ansiosos, o belo florescer primaveril. Esse é o começo do sonho maior que a noite. Olhando e crendo que nossa Igreja é povo de Deus e não um exército ou uma organização multinacional, poderemos beber do segredo fundamental: somos uma comunhão participativa. A Igreja é, antes de tudo, um mistério de Deus no mundo. Uma comunhão de pessoas sustentada pela fé em Deus. Esse é o maior tesouro que nos foi entregue pelos bispos no Concílio Vaticano II (1962-1965). Saber que somos uma Igreja de adultos na fé e de aprendizes na esperança. Esse já é o bom começo de um sonho: superar o clericalismo e a verticalidade e valorizar a explosão ministerial. Foi exatamente essa a profecia do papa João XXIII (1881-1963), proferida em seu discurso de conclusão da primeira sessão do concílio, em 8 de dezembro de 1962, que ecoa até hoje, passados quase cinquenta anos: “Será, verdadeiramente, no Novo Pentecostes, que fará florescer na Igreja sua riqueza interior e sua extensão a todos os campos da atividade humana. Será um novo passo adiante para o reino de Cristo no mundo, um reafirmar de maneira cada vez mais alta e persuasiva, da boa-nova da redenção, do anúncio luminoso da soberania de Deus, da fraternidade humana, da caridade e da paz prometida na terra aos homens de boa vontade, que dão resposta à bondade do céu”.
Viver o novo Pentecostes compreendendo e assumindo a Igreja Povo de Deus, feita peregrina nesta terra entre alegrias e esperanças, mas também tristezas e opressões significará testemunhar novas atitudes vitais e ministeriais. Será preciso superar ou enfrentar uma visão de igreja reduzida à sociedade perfeita ou à burocracia para ver nela a Igreja sacramento, sinal e instrumento da salvação universal, como nos anuncia o Documento Conciliar Lumen Gentium. Uma Igreja viva que sabe que é a Lua, não o Sol. Uma Igreja ferramenta que seja dócil às mãos de Deus que age nela. Uma Igreja sinal de salvação para toda a humanidade, não um clube de especialistas ou gueto de iluminados.
Será preciso também passar de certa institucionalização pesada para a leveza do povo que caminha, do povo de Deus que anda pelo deserto e que sabe que está nessa estrada cada dia sabendo da longa jornada. O caminho faz-se ao caminhar e, ainda que tenhamos o mapa dado por Jesus Cristo, precisamos mirar as estrelas e crer nos companheiros de viagem para superar obstáculos dos tempos de hoje. Saber-se Igreja povo de Deus em comunhão com a Trindade Santa, no meio da humanidade salva por Jesus Cristo, faz crescer a responsabilidade e a humildade quando nos sabemos um pequenino resto de Israel. Será preciso, sobretudo, ultrapassar uma concepção de Igreja fortemente marcada por um reforço jurídico e uma perspectiva centrada em poderes eclesiásticos, ritos, normas e, às vezes, carreirismo, para uma Igreja leve e suave que mergulhe na vida do povo, que ouça as melodias de seu cotidiano, que se torne entendida e expert em humanidade, sobretudo em misericórdia divina. Uma Igreja que se bata como leão contra o pecado, mas que ame como uma pastora zelosa aquela única ovelha tresmalhada, machucada e perdida em meio dos lobos. Que use do cajado para proteger as ovelhas, não para silenciá-las. Que não seja o cajado do poder, mas o bastão da misericórdia. Uma Igreja com pastores que detestem e abominem o pecado, mas que amem o pecador, como bem sonhou Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787). Uma Igreja que entenda de povo e de Evangelho, muito mais que acene com cetros, botas ou símbolos de poder medievais. Uma Igreja de sandálias como pescadora de homens e mulheres, com um rosto moreno e palestino. Uma Igreja nazarena, que se alimenta da Palavra e dos sacramentos. Uma Igreja que assuma a causa dos crucificados como o fez o pastor batista Martin Luther King Jr. (1929-1968), quando proclamou o famoso discurso: “I have a dream”.
Assim começaríamos a reforma sempre necessária para o século XXI, passando de uma Igreja-religião para a “Igreja-comunhão no Pai, pelo Filho Encarnado, no Espírito Santo de amor”, como bem foi definida a Igreja por São Cipriano de Cartago (?-258) em seus escritos, e no testemunho de bispo martirizado, por sua amada Igreja cartaginense. Para essa tarefa, são convocados todos os cristãos, todos os ministros e todo o episcopado cristão católico. É um verdadeiro mutirão, e todos podem ajudar e participar ativamente. Assim passaremos de uma eclesiologia voltada para si mesma, para uma eclesiologia atenta à realidade colegial e à comunhão, como sempre insistiu dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), dom Aloisio Lorscheider (1924-2007) e padre Alberto Antoniazzi (1937-2005). Passaríamos de uma Igreja clerical, válida por si mesma, para uma Igreja de leigos inseridos no mundo tal, como este mundo concreto se apresenta hoje para as nossas comunidades de fé.

De uma Igreja que alguns cristãos vêm e sentem como muito disciplinar e jurídica, para uma Igreja da vida de santidade, essencialmente convite e nunca imposição. Uma Igreja que nos chama a sermos livres e fiéis em Jesus Cristo, tal como sonhou o padre e moralista Bernard Häring (1912-1998). Daríamos um salto enorme de uma Igreja estabelecida, para uma Igreja peregrina e andarilha, como bem disse o papa Bento XVI ao despedir-se de seu ministério petrino. Uma Igreja caminheira com horizonte aberto e compromisso certo. Construir uma Igreja sem fronteiras, sonhada pelo eminente teólogo brasileiro Francisco Carmil Catão. Para que possamos realizar esse grande trabalho, temos por companhia e modelo a Santa Virgem Maria, Mãe de Deus, e protótipo de cristã verdadeira, exemplo de fé e irmã de caminhada para todos os que vivem a esperança e querem seguir Jesus Cristo, o Filho do Altíssimo.

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Conversão da Igreja e missão dos cristãos – duas faces da mesma moeda

Feita a lição de casa e assumida a Igreja na plenitude de sua identidade como povo, resta agir em favor do Reino e fazer acontecer a novidade do Evangelho como semente no mundo. Em favor da vida do mundo e por sua salvação plena e feliz. Para a nobre tarefa ad extra (para fora), será preciso também assumir novas perspectivas e uma nova coragem e ânimo no Espírito de Deus, que faz novas todas as coisas. A lista das tarefas a cumprir no mundo é imensa e exige uma leitura atenta dos sinais dos tempos e um aggiornamento (atualização) pertinente dos cristãos. Não basta falar e menos ainda gritar. Será preciso ouvir e proclamar com serenidade e firmeza os valores e sonhos que temos e que acalentamos pela experiência pascal junto de Deus. Não sabemos mais que os outros, não queremos nos sobrepor, mas sabemos algo e queremos propor. Assim a tarefa missionária se faz com muito tato e muita firmeza para que possamos superar uma Igreja já consolidada no Ocidente (e particularmente na Europa e nas Américas), para ser uma Igreja missionária, universal, com novos traços africanos e asiáticos, empenhada em difundir a Palavra de Deus em novos idiomas e contextos culturais.
Assim a mensagem cristã se conecta com as aspirações das pessoas e povos. Uma Igreja viva no Haiti saberá sorrir e dançar com os haitianos; uma igreja aprendiz na Mongólia, que recebe em Ulan Bator Furaha Mponzi, religiosa das irmãs da Consolata, para conhecer e amar esse povo asiático e pregar o Cristo Salvador; uma igreja sensível no Sudão ou na Palestina saberá ouvir o clamor dos jovens e crianças perseguidas pela guerra e pelas armas; uma Igreja jovem que cante e ouça os jovens quando estes se unem nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), sonhando com um mundo novo e justo; uma Igreja esperançosa e sonhadora, que, mesmo diante da cruz, como foi o apartheid na África do Sul, soube clamar por liberdade e ficar ao lado do povo negro como o fez o bispo anglicano Desmond Tutu (1931-); uma Igreja peregrina que saberá caminhar com os imigrantes nas fronteiras do México, da Guatemala, das ilhas do Mediterrâneo, e ser gruta de acolhida; um igreja-mãe e companheira que soube ficar com os pobres e não trair os pequeninos, como fizeram por décadas os padres, leigos e religiosas na América Latina durante as ditaduras, ofertando seu sangue como semente de igrejas novas, na entrega de pessoas como Enrique Angelelli (1923-1976), Óscar Romero (1917-1980), Ignacio Ellacurría (1930-1989), Dorothy Stang (1931-2005) e milhares de outros mártires da fé e filhos do povo que luta, como Iari Grosseli, Vitalino Antonio Mori e Roseli Celeste Nunes da Silva, mortos em 1987, na Encruzilhada Natalino (RS), na luta pela terra e vida dos camponeses; uma Igreja livre e pequenina e que dialogue com os irmãos muçulmanos no Egito, na Líbia, na Tunísia ou onde houver sinais da primavera árabe, para que não permita que povos se tornem marionetes nas mãos dos impérios norte-americano, russo ou chinês. Uma Igreja que testemunhe os valores cristãos mais profundos e que mostre que acredita na fraternidade universal.[/vc_column_text][vc_message]

 A missão de Deus torna-se a nossa missão. A encarnação do Filho se torna a nossa encarnação. E a presença do Espírito de Amor se torna a nossa presença de amor no meio dos povos e culturas para ver neles as sementinhas de Deus que fala ao coração das pessoas.

[/vc_message][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]A Igreja mergulhada no mundo não irá mais propor verdades abstratas ou idealizadas, mas a adesão pessoal ao Deus de Jesus Cristo, que age como fermento interior na transformação progressiva de cada ser humano. Assim, cada diocese e cada paróquia irão trabalhar não para sua manutenção fechada e medíocre, como que olhando o próprio umbigo, mas irão priorizar a formação de vocações missionárias das testemunhas de Jesus Cristo, por uma vida doada ao Evangelho, e saírem para outras terras e outros ambientes, tal como hoje é feito pela Região Episcopal Brasilândia, que está enviando leigos em missão ao Piauí. Verdadeiras Igrejas-irmãs, como propôs tão belamente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) anos atrás. Igrejas missionárias e não indivíduos missionários. Assim romperíamos com uma atividade missionária individualista, para assumirmos o sentido eclesial da missão coordenada, articulada e sustentada por igrejas adultas em todas as partes do mundo. Obras missionárias feitas por igrejas missionárias vividas e encarnadas por missionários, enviados por igrejas e não só pelas congregações religiosas. Uma verdadeira explosão missionária que envolva religiosos, sacerdotes, bispos e milhões de leigos e leigas, particularmente ministros da catequese de nossas Igrejas domésticas e comunidades eclesiais de base. Tal obra missionária, feita por muitas mãos e corações, será confeccionada de forma ardente, pois como bem diz a poesia de Shakespeare: “Os amorosos e os loucos têm cérebros ardentes, fantasias visionárias que percebem o que a fria razão jamais poderá compreender. O louco, o amoroso e o poeta são todos feitos de imaginação”2. O caminho da Igreja é uma imensa aventura do amor e da fraternidade feita ação.

Sal da terra e luz do mundo

Ao contarmos nossos sonhos de uma Igreja fiel ao Evangelho, vamos tornando real e viva essa utopia e essa projeto. Essa Igreja sensível aos emergentes problemas de nosso mundo globalizado começará a carregar suas energias e a coerência de suas ações pastorais na liberdade humana, e isto a tornará forte e transparente. A verdade torna-nos livres e a liberdade cristã faz-nos verdadeiros. Verdade no amor e amor na verdade. E tudo isso pleno de beleza e de leveza. Assim, não há lugar para a incoerência, pois há uma aliança selada entre os cristãos e a humanidade que nos faz irmãos de estrada e peregrinos de esperanças. Somos capazes de ouvir a todos e de compreender mesmo aqueles que não creem na boa-nova. Aquilo que mais prezamos é a dignidade da pessoa humana, santuário de Deus. E, como sabemos que a história tem sentido e há a presença viva de Deus em cada gesto de amor, cremos nos milagres desta presença divina e na abertura do coração humano para ser capaz de ver Deus e de amá-Lo. Assim nos empenhamos nas artes, na cultura, na política, na economia, pois queremos ser sujeitos da história e capazes de substituir condições inumanas por condições mais humanas, em que a primazia seja do trabalho e não do capital, do ser humano e não do Estado, da vida e não da morte.
Os cristãos sonhadores são aqueles que acreditam na cooperação internacional em todos os níveis, de modo que valorizamos muito a articulação dos povos em fóruns internacionais; da sociedade civil na luta por um novo mundo possível, das organizações não governamentais em favor da paz e da ecologia. Tudo o que é semente e proposta de um mundo mais fraterno conta com a bênção e a presença da Igreja e dos cristãos, mesmo se não for um organismo criado por cristãos. Somos parceiros de tudo que fomenta a vida, a esperança e a justiça social. Assim, a missão e o testemunho cristão sairão do campo do amadorismo e da submissão para a vivência adulta e fiel de comunidades vivas que assumam a obra da evangelização como tarefa de todos e de cada um, vivendo a comunhão ministerial e fazendo acontecer uma profissão de fé plena e uma confissão de fé vivida. Fé e vida misturadas e atuantes. Fé e vida transformadas pelo amor de Deus. Sonho que se sonha só é pura ilusão, sonho que se sonha juntos já é sinal de solução, cantava dom Helder Pessoa Camara (1909-1999), nosso profeta e bispo nordestino. É dele este pensamento sonhador: “Há gestos que valem como um programa de vida: erguer um candeeiro, afastar as trevas, difundir a luz, mostrar o caminho”. A hora de realizar esses gestos e esses sonhos já chegou. Coragem! De esperança em esperança, sempre![/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_message]Referências bibliográficas

  1. SHAKESPEARE, William. Sonho de uma noite de verão: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. v. 2.
  2. Idem, ibidem.

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