Referências

Escrito por omensageiro_master

“Cultura não é ler muito, nem saber muito, é conhecer muito.”
(Fernando Pessoa, poeta e escritor português)

Há pessoas que são muito latino-americanas, ou africanas, asiáticas, europeias, indianas, orientais, ocidentais. Viajam pelo mundo sem sair de sua zona de conforto, julgando e criticando tudo aquilo que não está de acordo com seus gostos e desgostos.
É lamentável perceber que possuem uma visão única e limitada da vida. Veem mas não enxergam. Retornam de suas viagens exatamente como foram, ou melhor, voltam piores do que eram, porque comparam, criticam, desprezam, zombam de tudo aquilo que é novo, diferente. São almas rebeldes. Insistem em permanecer do mesmo tamanho, em ter os mesmos critérios, em usar os mesmos códigos. Seus filtros são tão apurados que não passa nada, a não ser o que já foi selecionado. No final da vida, muitos vão desfiar um rosário de viagens, de cidades visitadas, porém vão morrer mais pobres do que nasceram. Gastaram tempo e dinheiro, mas não fizeram bons investimentos.

Não compreendem as maravilhas das outras plagas, porque não estão preparadas para tanto. Ao longo dos anos, observei muitos turistas visitando lugares importantes para a História da humanidade e como marcas das civilizações que nos antecederam. Muitos nem sequer admiram esse grande tesouro cultural; vão logo fotografando, filmando, sem a mínima noção de como desfrutar corretamente as câmeras ou seus equipamentos. Muitas vezes, preferem ficar na satisfação de suas compras e por aí se viram porque já estão com o roteiro pronto. É comer, beber, fotografar, filmar, comprar lembranças e depois voltar para casa e comentar.

O hábito de viajar é um dos melhores investimentos da vida. Mas não se trata apenas de se mover de um lugar para o outro. É preciso abrir-se, sair de si mesmo(a), saber acolher a beleza em sua diversidade, a riqueza das culturas, reconhecer como é bela a vida e seu mistério que se expressa em tradições tão variadas.

Mesmo viajando no território de um mesmo país, como o nosso, podemos nos surpreender como somos mais do que pensamos ser, como temos uma beleza cultural que preenche nosso coração de emoções, nossa razão de conhecimentos e nossa alma de ação de graças. Mas, para isso, precisamos reconhecer que nossa cultura não esgota os conhecimentos, nossos sentimentos não indicam o valor das coisas. Tudo possui uma riqueza que exige de nós abertura, acolhida, desconstrução de nossas ideias e por vezes até de preconceitos que isolam, limitam e empobrecem.
Todas as culturas possuem sua beleza, sua originalidade e, ao mesmo tempo, sua fraqueza, sua debilidade. É essa originalidade que abre várias possibilidades de ampliar nosso horizonte, engrandecer nossa experiência, ampliar nosso foco de visão. No entanto, sua debilidade (ou especialidade) consiste particularmente em reduzir a um único foco único o universo da cultura humana e suas possíveis soluções e leituras.

No fundo, cada cultura esgota em si mesma um aspecto ‒ o original ‒, e, ao mesmo tempo, mostra-se carente de outro aspecto ‒ o universal, que se adquire no confronto e no contato com as demais culturas. E é aí que se pode entender a importância da língua. As palavras, as expressões, a modalidade sonora, as entoações, as construções gramaticais, os modos de dizer, as pontuações, o vocabulário, enfim, todo o complexo sistema de comunicação linguístico, por não falar nas outras expressões comunicativas não orais, expressam-se no universo daquela cultura. A língua é, pois, única em seu pensar, em seu falar, em seu expressar. Não basta “traduzir” uma palavra por outra. Não há uma tradução fiel e literal, mas sempre uma tradução cultural.

Nossas referências são apenas um aspecto de nossa vida, expressa em uma cultura com suas características. Além delas, podemos acolher as demais e ir juntando as “peças” e, aos poucos, ter um novo olhar sobre a realidade. Um simples ponto-final pode fazer a diferença em um texto, assim como uma cor, um traço, um som, um detalhe podem fazer entender muito mais do que se possa supor.

No centro de tudo isso, está uma busca por algo que é mais do que se vê, do que se ouve, do que se toca. O mistério da vida e do ser humano está sempre presente em suas obras e, ao mesmo tempo, indica algo além de si mesmo. Mas é preciso silenciar para “ouvir”, acalmar-se para estar atento(a), ter tempo para gastar sem ser superficial.

Pe. José Alem
 Edição de Julho/Agosto 2018

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