O CATEQUISTA E SEU PAPEL NA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Escrito por omensageiro_master

Pois a evangelização é a razão de ser da Igreja, e esta proclamação da fé deve poder chegar, de fato, a seus ouvintes, deve ser entendida e significativa para cada geração […] Querer manter a mesma modalidade de pastoral evangelizadora do passado quando a realidade hoje pede outra, acaba se revelando uma solução cômoda, mas enganosa e ineficaz, gerando uma crise na transmissão da fé” (MIRANDA, Mario de França. Em vista da nova evangelização).

O que “não” é nova evangelização
Não é surpresa deparar-nos, algumas vezes, com a caracterização de “nova” a qualquer reforma ou proposta pastoral tanto diocesana quanto paroquial. Mas isto não quer dizer, em verdade, que todo “modelo” que se preze de “nova evangelização” venha a ser tão novo assim.
Entender essa característica de “nova evangelização” significa, do ponto de vista negativo, rejeitar qualquer resquício de cristandade, de fundamentalismo e do proselitismo camuflado. Do ponto de vista positivo, advogar-nos por uma Igreja encarnada na sociedade atual, em uma postura de diálogo e serviço. Uma Igreja em saída, com atitudes misericordiosas, fraternas e samaritanas. Renunciando a qualquer tentação de conformar um mundo dentro do mundo, uma subcultura cristã, própria dos devotados a “privilégios”. Portanto, falar em “nova evangelização” é referir-se decididamente a um “novo modelo de pastoral”.
Certamente, devemos superar modelos de pastoral e modos de evangelizar há tempo ultrapassados. Isto implica, primeiramente, superar uma pastoral de conservação. Modelo centralizado no padre e na paróquia. Pastoral que se sente imune à sociedade atual. É acentuada a prática devocional no culto aos santos, composta de procissões, novenas, milagres e promessas, própria do catolicismo medieval. Hoje parece haver uma necessidade de “ter padre em tudo” a quem obedecer cegamente. Nessa pastoral, o administrativo predomina sobre o pastoral; a sacramentalização sobre a evangelização; a quantidade ou o número dos adeptos sobre a qualidade; o pároco sobre o bispo; o padre sobre o leigo; a massa sobre a comunidade.
Essa pastoral, infelizmente, se apresenta carente de recursos na criação de itinerários para uma autêntica iniciação à vida cristã, fundamentados na força da Palavra e na vivência eucarística celebrada em comunidade. Dá a impressão de que os Sacramentos salvam pela própria força, por si só, sem atenção à preparação dos que os acolhem, concebidos como remédio ou vacina espiritual.
Não menos perigoso é abrir ouvidos a uma “pastoral secularista”, de cunho neopagão imanentista, que confunde salvação com prosperidade material, saúde física e realização afetiva. Um Deus como objeto de desejos pessoais, solo fértil para os mercadores de boa-fé, no seio do atual próspero e rentável mercado religioso [um dos mais lucrativos no mundo ocidental]. Há um deslocamento para o sujeito individual, um olhar terapêutico para “meu bem”, caldo de cultivo para as lideranças que fomentam “novos cristãos invisíveis” ou “sem Igreja”. Situação que o papa Francisco (1936-) identifica como os “inimigos sutis da santidade”.
Ele fala do “gnosticismo atual”; isto é, uma fé fechada no subjetivismo, apenas determinada por uma série de raciocínios intrincados e de conhecimentos só accessíveis a privilegiados; falará também do “neopelagianismo”, como estilo de vida de quem confia apenas nas próprias forças e em sua vontade, sem reconhecimento sincero, pesaroso e orante de nossos limites.

Uma “nova evangelização” que exija conversão pastoral
Clamorosa é a advertência feita pelos bispos nesse quesito, pois hoje estamos necessitados de uma “autêntica conversão pastoral” que propicie a criação de outros modelos de pastoral direcionados à passagem de uma “pastoral de conservação” a uma “pastoral evangelizadora”.
O que devemos entender por uma pastoral evangelizadora realmente “nova”? É uma evangelização com forte acento na Palavra de Deus a serviço do Reino inaugurado por Jesus e não apenas realizar ações irrelevantes de uma superficial sacramentalização; de promessas de salvação de pessoas em sua integralidade e não apenas da “alma”; de todas as pessoas, no sentido de formar uma sociedade fraterna e solidaria. Evangelização centrada na Palavra e não na doutrina [ou no catecismo sem a devida adaptação]; dialogal e propositiva, não apoiada em proselitismos marqueteiros; interpessoal e fortemente comunitária e não massiva e midiática.
Aqui entra também − e de forma “significativa” − o desenvolvimento de uma consistente mentalidade eclesial comunitária. Pois uma comunidade é mais do que a mera soma de seus membros. Segundo o beato Paulo VI (1897-1978), uma comunidade evangelizadora começa por evangelizar-se a si mesma. Uma Igreja que seja desinstalada, fonte de vida e de esperança; Igreja toda missionária e transformadora. Como diz o Documento de Aparecida (2007), desinstalada de seu comodismo, estancamento e tibieza, à margem do sofrimento dos pobres, libertada do cansaço, da desilusão e da acomodação.
Enfim, uma ação fundada no encontro pessoal com Jesus Cristo, em uma enriquecedora experiência de discipulado, que começa com o encontro de Jesus. Discipulado que leve a formar comunidades de discípulos apaixonados. Pois, a Igreja é consequência da adesão a Jesus Cristo e a Seu Reino. Não há cristão sem Igreja. Portanto, evangelizar é inculturar o Evangelho, por meio de um processo gradativo e organizado no qual cada pessoa sedenta de Deus acolha agradecida o primeiro anúncio [Querigma], incorporando-o segundo a própria estrutura psicológica e cultural. Que transforme sua vida e suas relações mais humanas, de acordo com o projeto de Jesus.

A importância da Catequese em uma “nova evangelização”
Segundo o Diretório Nacional de Catequese (2006), “qualquer atividade pastoral que não conte, para a sua realização, com pessoas realmente formadas e preparadas, coloca em risco a sua qualidade”.
Por sua vez, o papa emérito Bento XVI (1927-), no discurso inaugural de Aparecida, ressaltou a importância da catequese como “grande meio” para uma nova evangelização. Nela, a Palavra deve ser um rico e nutriente alimento dos discípulos do Senhor. Essa iguaria deve ser preparada na comunidade que se congrega para fazer ressoar a Palavra em um atrativo itinerário que conduza à experiência pessoal e comunitária com Jesus, que celebra Sua presença na Eucaristia e na ação caridosa pela força do Espírito Santo que impulsiona o compromisso com a comunidade eclesial e com a construção do Reino, a partir dos pobres e vulneráveis (cf. Lc 4,14-21).
A primeira ação da catequese é fazer conhecer realmente a Jesus Cristo para segui-lo e viver com Ele; encontrar a vida n’Ele e comunicar essa vida aos outros: sociedade e o mundo. Por isso, o conhecimento de Jesus Cristo do qual falamos não é apenas “conhecimento” no sentido intelectual; trata-se de “fazer experiência de sua vida e interioridade”; experiência tão profunda e impactante que gere mudanças tocantes na vida, e por sua vez, gere vida comunitária. Isto é precisamente um “encontro vivo com Jesus Cristo”.
A catequese deve formar catequistas adequadamente sobre a pedagogia e a teologia dos processos da iniciação à vida cristã, como proposto pelos bispos em Aparecida, gerando assim uma evangelização eficaz para a vida da Igreja.
Em resumo, a catequese deve estar atenta a produzir processos gradativos de encontro pessoal com Jesus Cristo, como resultado principal do anúncio querigmático. Isso levará à conversão, como resposta inicial de acolhida à presença e à ação do Senhor que atrai e transforma pessoas. Também conduzirá a assumir o compromisso do discipulado em uma atitude madura que manifeste a firme e espontânea adesão ao seguimento. Processo que abrirá as portas a uma autêntica comunhão eclesial que convide a viver com Jesus entre irmãos e irmãs. Assim, como fruto amadurecido, formará cristãos convictos, cuja alegria seja a de levar, à luz de Cristo, o anúncio missionário e luminoso em todas as condições de vida pessoal, comunitária e social.
Enfim, para que essa nova evangelização aconteça, é importante considerá-la como uma audaciosa proposta de formação aos catequistas em um processo integral, qualificado e planejado. Essa formação não pode omitir os vários aspectos que, em copiosa literatura, oferece-se bem desenvolvida: centralidade da Palavra de Deus, bem como aprofundamento litúrgico, crescimento na fé mediante a beleza e a arte [Arte Sacra]. Também apresenta cuidado por uma linguagem teológica e catequética atualizada, exercício qualificado da caridade e diálogo fraterno e ecumênico.

Pe. Guillermo D. Micheletti
Edição Setembro/2018

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