Liturgia ‒ lugar do encontro com Deus

Escrito por omensageiro_master

Um dos temas mais fecundos em teologia litúrgica é o encontro. Quem mais aprofundou essa temática foi o filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965). Seu pequeno livro Eu e Tu, escrito em 1923, finalmente ganhou uma tradução portuguesa com várias edições e reimpressões, tamanha é a importância da sua concepção dialógica para a vida humana. Não é o caso de debulhar seu pensamento aqui, mas de nos apoiarmos em sua concepção sobre a natureza do encontro para entender como este se realiza na liturgia e como a natureza do rito exige as condições de sobriedade para que aconteça o encontro com Deus. Para Buber, o “Eu” e o “Tu” fazem parte do princípio da vida e constituem a relação pura ou a pura relação na qual nenhum dos dois é objeto, mas protagonista do encontro. Precisamos sim dos objetos, mas uma vida que só se relaciona com eles não conhece o que é o encontro e, por isso, não é humana.

Quando fala do Tu, o autor refere-se ao interlocutor humano do encontro, mas deixa transparecer que há algo de transcendente no fenômeno do encontro. Vemos aí a porta para falar do encontro com Deus, o Tu transcendente que veio a nós na encarnação da Pessoa do Filho, para revelar o Pai amoroso que nos quer como filhos amados pela força de um Amor doado, o Espírito Santo.

 

Assim como o destino da vida humana é o encontro, no dizer de Buber, da mesma forma também o cristão, porque crê na presença de Deus, constantemente atualizada pelo rito litúrgico, reconhece que o destino do homem é o encontro com Deus. Foi por isso que Cristo mandou os discípulos pelo mundo afora, para anunciarem o Evangelho ou a Boa-Notícia do amor e batizarem (cf. Mc 16,15). Não nos esqueçamos de que o Batismo não é um sacramento isolado, mas faz parte dos sacramentos que iniciação cristã. Iniciação na fé implica a eucaristia como o sacramento cuja participação é pressuposta durante a vida inteira. Portanto, quando mandou batizar, Cristo estava reforçando o que o que mandara na Última Ceia: fazei isto em memória de mim (cf. Lc 22,19b; 1 Cor 11,25d). A Igreja entendeu que isso deveria acontecer todos os domingos como páscoa semanal, e, no início, um cristão não saltava nenhum domingo, mesmo que custasse o martírio. Com essa base vamos apontar algumas dificuldades na liturgia.
Há vários problemas que aparecem no âmbito da liturgia, mas os principais têm a ver com a crítica à simplicidade do rito reformado pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), motivando a busca de inspiração no tradicionalismo
pré-vaticano e, por outro lado, a prática que, desconhecendo a natureza ritual da liturgia, produz muitos “ruídos” ou interferências indevidas durante a celebração, como os discursos cansativos feitos por quem preside ou comenta o rito, sem esquecer ainda que a troca da linguagem ritual pela teatral ou midiática do tipo show talvez seja o maior pecado dos dias de hoje.

Tenho a dizer, com todas as letras, que as duas posturas estão equivocadas, porque desconhecem que a liturgia está a serviço do encontro com Deus e, se não for isso, não serve para nada, a não ser para engrandecer o ego de quem gosta dos paramentos suntuosos medievais herdados das cortes imperiais ou de quem se julga muito moderno e se sente senhor do rito, conduzindo-o como seu “cavalo de glória”. Pobre cavalo, cujo cabresto está nas mãos do cavaleiro, que para quando quer e segue no próprio ritmo, não do animal. O rito litúrgico não é um cavalo, mas o caminho traçado pelo Senhor, usando toda a simbologia cultural, para encontrar-se conosco.
Nesse sentido, queria lembrar o conceito de destino para Buber, não como fatalismo, mas como caminho percorrido. Por isso, quem negar-se ao encontro com Deus não será obrigado a fazê-lo, mas se desviará de algo que é dado de forma natural, e nunca será feliz. Se é o momento primário do encontro com Deus, a liturgia relaciona-se com nossa felicidade atual. O ato de batizar e ir à missa não tem nenhuma causa ou motivo pontual, simplesmente é um ato livre de quem se sente amado por Deus ou está procurando sentir Seu amor. Diria o filósofo que ir à missa não possui causalidade, mas é puramente um ato de liberdade.

Para concluir, aproveitamos uma frase de Buber, para a qual buscaremos o sentido litúrgico: “Àquele que se esquece de toda causalidade e toma uma decisão do fundo do coração, àquele que se despoja dos bens e da vestimenta para se apresentar despido diante da Face, a este homem livre, o destino aparece como réplica da sua liberdade […] como se fosse a própria graça”. Por isso quem faz da liturgia uma questão de vestes e quem faz do rito um “cavalo de glória”, um jeito de aparecer, estão fora dos trilhos e não têm a humildade necessária para se apresentar diante da face de Deus. Atrapalham o encontro com Ele e fazem da liturgia eco das ideologias. Então, diante disso, qual é o caminho a seguir? Aquele que apontou o Concílio Vaticano II: o da nobre simplicidade (SC n. 34). É desnecessário dizer que a nobre simplicidade ou a nobre beleza não têm nada de suntuoso, mas também não suportam nenhum desleixo; são passaportes para a elegância necessária ao encontro com Deus.

Por fim, gostaria de apresentar como uma aplicação do Concílio na prática das homilias diárias e na postura do papa Francisco nas missas celebradas na capela de Santa Marta. Curiosamente, o livro que retrata essas homilias é intitulado: A verdade é um encontro. No prefácio de Frederico Lombardi, vale ressaltar duas observações. A primeira é o despojamento de quem realmente se apresenta diante da face de Deus. Assim se refere o teólogo sobre a postura do pontífice nas missas de Santa Marta: “O seu ânimo sacerdotal e pastoral se manifesta na relação cotidiana com os fiéis numa celebração eucarística comunitária intensa, recolhida e sóbria, em certo sentido, austera, para não dizer despojada”. A segunda são as motivações interiores que levam a tal despojamento: “A escuta pessoal da Palavra de Deus não permite sequer por um minuto a erudição e o esteticismo, porque é imediatamente entrelaçada com a experiência da vida concreta e visa ordená-la segundo a vontade de Deus, no espírito do Evangelho”. Depois, Lombardi escreve que, nessa forma de celebrar, aparecem os traços que caracterizam o pontificado do papa Francisco.

Portanto, o pontífice não encena, mas faz na liturgia o que vive na vida e o que prega como orientação para a Igreja.

Pe. Valeriano dos Santos

Edição de Setembro/2015

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.