Liberdade como vocação e responsabilidade cristãs

Escrito por omensageiro_master

A liberdade exerce uma fascinação irresistível em cada pessoa humana. De todos os povos, culturas, idades e religiões. Imediatamente, pensamos no vasto campo das liberdades, no singular e no plural. Imaginamos e nos propomos imaginar e experimentar a liberdade em nossa vida, projetando nosso futuro. Livres de e livres para. Livres por dentro e por fora. Falamos de liberdade de pensamento, de expressão, de ir e vir, de consciência moral, de imprensa, de associação, de migração e emigração, de associação, de dissidência, de convergência, de luta ou resistência diante dos sistemas que pretendem agrilhoar e submeter povos e culturas. Sempre há alguém gritando por liberdade. Para muitos séculos de ditaduras, sempre há heróis da liberdade. Para muitos regimes de exceção, há sempre construtores de paz e justiça social. Para tempos de guerra, necessita-se de semeadores de tempos de liberdade.

Todos experimentam a liberdade situada em contextos concretos entrelaçada com outros seres no movimento do tempo. Liberdade não é um conceito abstrato ou uma estátua em Nova York. É algo concreto, pessoal, histórico e político. Ninguém é absolutamente livre ou absolutamente prisioneiro. Há sempre espaço para a rebeldia e para pensar diferente da média e dos outros. Não somos marionetes de um Deus Todo-Poderoso, mas filhos amados de um Pai que confia em nossa liberdade e sussurra palavras de conforto e de graça quando estamos desviados.
A liberdade vive alegre dentro de cada coração humano. É como que a raiz da autonomia do sujeito, sua palavra, seu corpo e seus desejos. Ser o que somos e responder à vocação para aquilo que fomos criados. Pensar com a própria consciência, decidir seus atos, assumir seus erros, julgar e ser julgado, repensar e mudar de atitudes, eis o vasto canteiro de obras da liberdade em cada sujeito. Isso pode ganhar o nome de livre-arbítrio, autonomia pessoal, subjetividade, responsabilidade ou decisão convicta. A liberdade é causa e efeito da razão e do coração que decidem por amor e lucidez. É a vontade pessoal definindo os passos concretos e optando por um caminho em detrimento de outro. Sem opção, é claro que não há liberdade. Mas tampouco há liberdade se diante de uma encruzilhada paramos e não optamos. Ficar em cima do muro indefinidamente é ato de escravos e alienados. Quem é livre decide. Quem é livre opta. Quem é livre sabe que há preços a pagar, bem como ganhos e perdas. Enfim, liberdade sempre rima com coerência e resposta afetiva e efetiva.

A liberdade fundamental vivida e assumida é aquilo que constitui o cerne e a beleza da pessoa humana. Em certo sentido, é também o coração da mensagem cristã. Como o apóstolo Paulo insiste em vários versos de sua Carta aos Gálatas: “Fomos chamados à liberdade” (Gl 2,4; 5,1.13). Essa liberdade se exprime e se verifica na aptidão em realizar escolhas concretas e efetivas no cenário histórico em que estamos inseridos e vivemos. A liberdade é a condição primeira de todo ato moral, e é o critério maior de julgamento de nossa vida. Seremos julgados por Deus por todos os atos livres que realizamos. Ações sem liberdade anulam a moralidade e são uma afronta à inteligência e à dignidade humanas. Deus crê em nossa liberdade. Ele espera muito de nossa decisão pessoal. Deus aposta em nós. Deus ama e, por isso, confia!

 

As cinco características da liberdade

 

A liberdade autêntica, em primeiro lugar, é um reconhecimento de nossa condição humana limitada, condicionada e temporal, pelo conjunto de limites individuais e coletivos que nos constituem como seres mortais (nascimento, sexualidade, consciência, inconsciência, memória, amnésia, erros, acertos, ignorâncias, classe e origem social, fé, ateísmo, lugar de moradia, movimentos de migração, vida social, educativa, política, e, claro, a morte). A liberdade de cada pessoa humana não é “uma liberdade humana” genérica, ou parte dela, ou desdobramento de algo genérico ou fragmentado, mas ela é única, particular e simultaneamente conexa com tudo e todos. É, de certa forma, uma liberdade hologramática (o todo está na parte e a parte está no todo). Eu sou a minha liberdade entre tantas outras e com as demais e, ao mesmo tempo, sem as demais. Eu sou também toda a não liberdade de que sou feito, por meus limites e sombras, e também a dos outros e das outras que comigo peregrinam neste momento histórico da humanidade. Muitas vezes, o ser humano é prisioneiro de si mesmo antes que escravo de outros. Há uma luta interior para alcançar o melhor de nossa liberdade e não nos submetermos aos grilhões que, às vezes, nós mesmos fundimos em aço dentro de nós.

A segunda característica da liberdade autêntica se traduz por uma orientação estável e ponderada, que os cristãos chamam de discernimento sereno. Não podemos ser livres por meio de uma incoerente sucessão de escolhas aleatórias e repetitivas como seres infantis e birrentos. Liberdade não se reduz a uma negociação imposta ou sempre reproposta como se comprássemos a cada semana um novo bilhete da mega-sena e esperássemos que a decisão da liberdade fosse um número entre bilhões de possibilidades estatísticas que nos viesse por poderes mágicos ou maravilhosos sem nossa participação direta. Liberdade possui um jogo de movimentos e buscas, mas não é originariamente aleatório ou fruto do acaso. É preciso decidir. É necessário ponderar. Quem é livre é porque está disposto a pesar na balança seus atos e seus projetos. Realizar um ato livre não é certamente fazer qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar, como se eu estivesse só no mundo e tudo fosse possível. Isso é doidice e não uso da liberdade. Roleta-russa é jogo de morte e não espaço de liberdade. Experimentar drogas é submeter-se à escravidão e não emancipar-se e amadurecer. Lemos no compêndio da teologia alemã pós-conciliar: “Existe uma concepção falsa da transcendência de Deus, segundo a qual Ele forçaria e esmagaria a personalidade do homem. A salvação vem ao encontro do homem criado por Deus. Ela possibilita e faz com que se realize (embora não forçando) uma autêntica opção pessoal. Sua luz faz com que o homem dotado de raciocínio possa ver. Seu impulso faz com que o homem livre (sem perda nem prejuízo de sua liberdade) dê seu assentimento na fé. A fé é suprarracional, sim, mas não é irracional”.

A terceira característica é articular a minha liberdade à dos outros e das outras como foco da pessoa livre. O exercício concreto da liberdade faz-se no quadro das comunidades humanas em que estamos inseridos (família, cidade, nação, profissão, igreja, amigos, povos, civilização). Esse contexto é simultaneamente fonte de limites, mas também oferece as condições objetivas da liberdade. Devo decidir dentro desse tempo e lugar. Preciso ser livre com esses companheiros e companheiras que pensam como eu ou não. Sem um mínimo consensual de estruturas de organização e partilha, a liberdade humana dá lugar à tirania, às ditaduras, aos fascismos e salvadores da pátria, que realizam discursos de ódio e roubam nossa esperança e liberdades. Quem fala muito de liberdade sem compromissos e valores em geral são pessoas inescrupulosas e oportunistas. Oferecem ouro de tolo. Conhecemos na história recente o que foram os discursos falsos dos “libertadores” que destruíram povos e culturas, como Benito Mussolini (1883-1945), Adolf Hitler (1889-1945) e Joseph Stalin (1878-1953). E próximo de nós, brasileiros, o papel tirano da ditadura cívico-militar que paralisou o País de 1964 a 1988 em nome da segurança nacional que destroçou liberdades e autonomia dos cidadãos. Temos de ficar alertas para que esse Brasil não volte nunca mais. A fé cristã no século XXI é centralmente comunitária. A liberdade cristã está sempre interligada à vida de comunidade. Como diz o apóstolo Paulo: “Devemos agradar a Deus e não aos homens!” (cf. Gl 1,10). Ele pede que seus contemporâneos “andem”, ou seja, levem uma vida digna de Deus.

O quarto elemento importante é reconhecer que a liberdade não é definitivamente adquirida como um ponto-final. Não há ponto-final. A liberdade está cotidianamente afetada e posta em questão por inúmeras pressões ou condicionamentos (poder, dinheiro, ideologia, racismos, xenofobia, intolerância, mesquinharia, misoginia, homofobia, trabalho escravo, ditaduras, regimes de exceção, parcialidade do judiciário, esquadrões da morte, latifúndio, aprisionamento ilegal, analfabetismo estrutural, manipulação das massas, entre outros exemplos). A liberdade é uma experiência a ser refeita constantemente. Cada amanhecer convida à liberdade. Somos chamados a ser livres a cada momento diante das pessoas, de nós mesmos e de Deus. É um processo contínuo que padece de altos e baixos. Vivemos momentos em que nos superamos e momentos de submissão e medo. É preciso consolidar de forma cultural, política e social as conquistas da liberdade pela memória, pela legislação vigente e pelo cultivo de atitudes coerentes, assumindo nossa condição de filhos de Deus. Como afirmava com clareza padre José Comblin (1923-2011): “A nova condição de liberdade exprime-se também pelo tema dos filhos. Filho opõe-se a escravo. Tirando ensinamento das duas mulheres de Abraão e dos dois filhos, um da escrava e outro da mulher livre, Paulo mostra a sucessão das duas condições e a transformação produzida por Cristo e em Cristo: ‘Não somos filhos da escrava, mas da mulher livre (Gl 4,31)’”.

O quinto e último aspecto é aceitar que a liberdade cristã engloba e penetra em todas as limitações às quais o ser humano está submetido. É liberdade de tudo que escraviza o humano no mais profundo de seu existir. A liberdade de Cristo é solidária a todas as cruzes, pois Ele experimentou a cruz da humanidade e fez brotar a experiência vital da ressurreição como fato vitorioso e proposto a cada pessoa. Na cruz, todos morremos. Mas, na ressurreição, todos participamos em Cristo de Sua vitória. Esse dom de Deus ofertado ao humano por obra de Seu Filho amado confirma a criação original. Fomos criados para a liberdade e somos restaurados na liberdade. Criados e recriados por Deus para a eternidade. O sentido profundo da liberdade é sua significação e expressão plena do amor e da vocação proposta por Deus. Somos escolhidos por sermos livres. Somos amados, pois podemos responder ao amor amando. Somos criados pelo amor, no amor e para o amor. Resumindo, liberdade é a imensa possibilidade de estarmos em relação e conexão com toda a criação, com os outros seres e irmãos e nos colocar no colo de Deus por decisão de alegria, na expectativa do perdão e na certeza da fé. A liberdade realiza-se e plenifica no amor. Como instigava a seus irmãos luteranos o pastor Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), antes de ser morto pela tirania nazista: “Não fazer e ousar qualquer coisa, mas o que é justo. Não planar sobre o possível, mas buscar com coragem o concreto. Não é nos pensamentos furtivos, mas na ação que reside a liberdade. É preciso romper o circulo das hesitações ansiosas para afrontar a tempestade dos acontecimentos. Se formos conduzidos somente pela lei de Deus e pela fé, a liberdade acolherá nosso espírito na alegria”.

Ser cristão é opor-se a todas as escravidões e aos grilhões que submetam corpos, mentes e utopias. É propor a liberdade e nunca o ópio. É defender os pobres e nunca o ídolo ou o dinheiro. É ter valores éticos antes que ser submetido pela ideologia dominante. Quem teme o futuro se transforma em um tirano e faz surgir a violência. Contra isso é que os cristãos afirmam sua fé no futuro, fundada na esperança e no amor que lança fora o medo. Eis o que afirmava Rubem Alves (1933-2014): “Do ponto de vista do homem que é livre para o futuro, a violência é uma realidade totalmente distinta. Violência para ele é tudo aquilo que lhe nega um futuro, tudo o que faz abortar seu projeto de criar um novo amanhã; é um poder que lhe mantem prisioneiro de estruturas sem futuro em um mundo sem futuro. A violência é o poder da ‘des-futurização’ que procura fechar o futuro à consciência humana. A violência é o poder que nega ao humano a possibilidade de exercitar para si sua liberdade, ao convertê-lo em uma função mais do projeto dos senhores. E assim se torna objeto e não é criador, se limite a reagir aos estímulos que lhe vêm de seus senhores”.

Este é o vasto campo da liberdade e das pessoas chamadas para vivê-la: fazer agora nosso futuro. Que Deus nos dê a graça para realizar com misericórdia e esperança.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior

Edição de Julho/Agosto 2018

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