Gestações de mulheres sexagenárias

Escrito por omensageiro_master

No fim do ano passado, um de meus leitores pediu a minha opinião em relação às gestações de mulheres sexagenárias. Para tanto, anexou um trecho de jornal que trazia a seguinte notícia: “Ao menos três mulheres com mais de sessenta anos deram à luz no País no último ano (sendo duas delas nos últimos meses), após serem submetidas a procedimentos de reprodução assistida. No Brasil, não há uma legislação que imponha um limite máximo de idade para uma mulher gerar um filho, nem consenso entre os médicos. O caso mais recente é de um casal de Santos (SP): Antônia tem 61 anos e José César Arte, 58. Eles são casados há 25 anos e, na quarta-feira (24/10), ela deu à luz um casal de gêmeos, Sofia e Roberto. Os bebês nasceram aos sete meses de gestação e estão na UTI neonatal, pois precisam de acompanhamento: Sofia nasceu com pouco mais de 980 gramas, e Roberto, com 1,1 quilo. Os dois respiram naturalmente, sem aparelhos”.
Pois bem, imagino que, como todo tema controverso, deve haver quem defenda o direito das mulheres serem mães tardiamente, assim como opositores dessa situação. Gostaria de saber, no entanto, quem defende o direito das crianças resultantes desse procedimento. Sim; por que essas crianças terão seus pais por quanto tempo? Esta é uma questão levada a sério quando se trata de uma adoção. A prioridade não é arrumar crianças para casais, e sim pais para quem não os têm. O foco são as crianças, não os adultos. Nesses casos, dá-se o contrário: o foco são os adultos.
Ao analisar os rumos que a nossa sociedade vem tomando, não me causa espanto tal procedimento, pois é apenas mais um meio de satisfazermos nossos caprichos. Mais uma vez, exercitamos nosso egocentrismo, pensando em nós mesmos, e deixando de pensar no outro. Afinal, tais crianças são troféus diferenciados. Pouco importa quem vai cuidar delas depois; se vão se tornar órfãos prematuramente; a diferença de pensamento e de atitude motivada pelo conflito de gerações… Isso pouco importa. O que importa mesmo é podermos ser pais e mães quando nos convêm. Antes não tínhamos tempo, pois estávamos preocupados em ganhar dinheiro; também não possuíamos preparo e amadurecimento para sermos pais, nem pensávamos em adotar uma criança abandonada. Queríamos um filho que fosse nosso, ainda que depois fosse criado por outras pessoas.
Existe uma inversão de valores hoje em dia. Enquanto antes o “nós” era priorizado, hoje o “eu” é mais importante. Imagino que deve haver uma razão para as mulheres deixarem de menstruar e se prepararem para o ocaso de suas vidas. Mas, não… Precisamos ser eternamente jovens, e a maternidade tardia proporciona-nos essa sensação de juventude. Até porque, atualmente, responsabilizamos nossos filhos por suas atitudes; não nos sentimos mais responsáveis por suas más escolhas. “Educar” é um verbo que deixou de ser conjugado. Agora, só se conjuga o verbo “parir”. E cada filho fica lançado ao mundo e à própria sorte, como se isso fosse algo natural e não fruto da omissão e da despreocupação dos pais.
Convido todos os leitores para fazerem uma reflexão sobre o tema, trocando ideias com pessoas esclarecidas, analisando os prós e os contras desses procedimentos antinaturais. Também quero lançar este questionamento: até que ponto temos o direito de brincar de Deus?

 

Maria Regina C. Vicentin

Psicóloga e escritora

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