DIÁLOGO COMO MODO DE SER

Escrito por omensageiro_master

Vivemos tempos de intransigência e de monólogos. Estamos na era das redes e dos ambientes virtuais, mas muitos estão desconectados ou sofrem depressão por solidão. Ficam amargos, doentes e raivosos. Vivemos na multidão, mas ninguém escuta a nossa voz. O diálogo empobreceu-se, e nosso coração ficou como que empedrado. Temos mais perguntas que respostas. E muitos se apresentam como vendedores de felicidades e desejos celestes. O atual processo civilizatório e cultural faz a vida ser liquefeita e fragilizada. Zygmunt Bauman dirá que até o amor está sendo dissolvido, liquefeito e mercantilizado. Assim escreveu: “E assim é em uma cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a ‘experiência amorosa’ à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa em uma terra inexplorada e não mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos”.
Se até o amor foi feito mercadoria, objeto descartável, o que será do ser humano? O que será de nosso planeta? O que será das religiões? Da esperança? Diante dessa grave questão, retomo o pensamento lúcido de Martin Buber (1878-1965), quando escrevia em 1923 que “toda vida real (verdadeira) é um encontro”: “Uma época de genuínos colóquios religiosos está se iniciando – não dos que assim se denominavam e eram fictícios, nos quais ninguém realmente olhava para seu parceiro e nem a ele se dirigia, mas uma época de diálogos genuínos, de certeza para certeza e também de uma pessoa receptiva para outra pessoa receptiva. Somente então aparecerá a comunidade autêntica, não aquela de um conteúdo de fé sempre autêntico, supostamente encontrado em todas as religiões, mas a comunidade da situação, da angústia e da expectativa”. O Deus pessoal entra em contato com a humanidade para fazer comunidade. Tais pessoas se revelam mutuamente. Cada parceiro cria relação e adquire uma identidade completa e única. Cada parceiro irá afetar o outro. Diálogo é uma conversa de amor entre pessoas que vivem esta relação fecunda e dinâmica. Diálogo é o amor autêntico carregado de significado. Ainda diz Buber: “Na conversação genuína, o voltar-se para o parceiro dá-se em uma verdade total, ou seja, é um voltar-se do ser. O verdadeiro voltar do seu ser para o outro ser inclui esta confirmação e esta aceitação. No que quer que seja que eu seja contrário ao outro, eu disse ‘sim’ à sua pessoa, aceitando-a como parceiro de uma conversação genuína”.
Para nós, cristãos, tornou-se uma chave essencial a Encíclica Ecclesiam Suam, publicada pelo papa Paulo VI (1897-1978) em 6 de agosto de 1964. Em sua carta programática, o bispo de Roma assume esta questão urgente: “Por que caminhos a Igreja deve hoje realizar seu mandato?” E ele a responde, a partir de três eixos pastorais:

1. Consciência;
2. Renovação;
3. Diálogo.

No coração da encíclica, o pontífice escreve: “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio”. Os dois intelectuais ajudam-nos a enfrentar a superficialidade dos tempos atuais e construir pontes em favor da fraternidade universal. Martin Buber, filósofo judeu, e o papa Paulo VI, eminente intelectual católico, tornaram-se bússolas para nortear a reflexão de nossas igrejas e grupos religiosos, abrindo horizontes amplos para superar o fechamento ou a intolerância existentes.

Comunidade de situação

Dialogamos por nos sentirmos situados e comprometidos com uma causa comum: a paz e a justiça social de nossos povos e o respeito ao planeta em que vivemos. Em 1453, Nicolau de Cusa (1401-1464) publicou o livro De Pace Fidei (A paz pela fé), verdadeiro manual para o encontro de religiões e culturas propondo o tema da concórdia universal. A obra deste cardeal alemão terminava com a utopia de um Concílio em Jerusalém para reconciliar todas as religiões. Na mesma direção aberta, ouvimos anos atrás esta fala do rabino Henry Israel Sobel aos alunos na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP): “Judeus não buscam construir um mundo mais judaico, mas um mundo mais humano”.
Unir, apoiar a humanidade, escutar outras vozes e respeitar as diferenças sem submissão nem superficialidades é tarefa gigantesca e delicada. O diálogo é caminho e método. O diálogo é um convite feito por Deus. É uma abertura em nossa vida para o diferente, para o outro e para aprender a ouvir o que nosso irmão nos fala e compartilha. O diálogo “foi aberto espontaneamente por iniciativa divina: Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1Jo 4,10). A nós tocaremos outra iniciativa, a de prolongarmos até os homens esse diálogo, sem esperar que nos chamem” (ES n. 42).

Comunidade de angústias

Para que um diálogo fecundo e autêntico exista, é preciso assumir as dores e angústias de toda a humanidade, particularmente dos que são submetidos aos dramas mais profundos do viver: o fatalismo, a finitude e a fragilidade. No tratado talmúdico Sanhedrin diz: “Salvar uma vida humana é como salvar o universo inteirinho, e destruir uma só vida é equivalente a destruir o próprio universo”. Sem esta vontade decidida de comunhão não iremos a lugar nenhum. Quem dialoga nunca pode mentir. Mentira engendra o mal e nos prendem ao vazio. Esconder o certo é porta para uma vida infeliz. Para fazer acontecer um colóquio autêntico precisamos esculpir em nós mesmos, quatro qualidades ou características essenciais: clareza, mansidão, confiança e prudência. Sem uma delas o diálogo naufraga nas águas turvas da intolerância e do medo. Diz o papa Paulo VI certamente inspirado pela leitura do Apóstolo Paulo (5-67) no “Hino ao Amor”: “O diálogo supõe e exige compreensibilidade, é transfusão de pensamento, é estímulo do exercício das faculdades superiores do homem. O diálogo não é orgulhoso, não é pungente, não é ofensivo. A autoridade vem-lhe da verdade que expõe, da caridade que difunde, do exemplo que propõe; não é comando, não é imposição. O diálogo é pacífico, evita os modos violentos, é paciente e generoso. Produz confidências e amizade, enlaça os espíritos em uma adesão mútua ao Bem, que exclui qualquer interesse egoísta. O diálogo atende às condições psicológicas e morais de quem ouve” (ES 47).

Comunidade da expectativa

Ao nosso redor, há centenas de novos movimentos religiosos, novas igrejas, novos pastores, novos Evangelhos, muitas propostas de salvação. Algumas falas e outras em busca da verdade. Algumas mentirosas como a teologia da prosperidade e outras inspiradas na mensagem da misericórdia e do perdão. Geram muitas expectativas e utopias. E muitas vezes manipulação e distopias. Uma linguagem dialógica deve incluir novas atitudes diante da vida e do jeito de ser dos outros crentes e dos não crentes. Precisamos aprender a respeitar os que pensam e agem de forma diferente. Essa foi uma bela lição que o Santo Papa João XXIII (1881-1963) nos ensinou de forma ativa e alegre: “Em qualquer parte onde os autênticos valores da arte e do pensamento são suscetíveis de enriquecer a família humana, a Igreja está pronta a favorecer este trabalho da inteligência”. Somente venceremos a intolerância pelo respeito mútuo. Para chegar a essa reverência aos outros, será preciso defender a liberdade de consciência e, por consequência, a abertura à verdade dos outros. Respeitar não significa submissão ou silêncio, mas escuta e diálogo. Quem respeita ouve! E ouve a todos sem distinção, nem preconceitos. O papa Paulo VI fala de existência de círculos concêntricos: primeiro, o diálogo deve ser com todos os seres humanos, inclusive ateus; segundo, dialogar com os crentes em Deus; terceiro, com os irmãos do mundo cristão, e enfim, o quarto círculo será o do diálogo interno em nossa casa, que é a Igreja Católica de confissão romana. Do universal ao doméstico. Ninguém é estranho ao coração materno dos cristãos. Ninguém é seu inimigo e mesmo a Igreja do silêncio, falará por seu sofrimento (ES, n. 53-68).
Em nossas congregações ou comunidades religiosas, precisamos assumir cotidianamente o exercício da escuta e do respeito. A surdez em que nos metemos pode transformar se em fundamentalismo e ideologia. É óbvio que diálogo pressupõe a superação dos solilóquios e da descoberta do outro. E superação de tantas mentiras fantasiadas de verdade. Como dizia o Sutra Saddharma Smirti: “Mentir é como cortar a própria língua com um machado. As mentiras são o arauto do mal e acorrentam-nos a lugares nefastos”.
Novas sínteses são necessárias na abertura de posições pessoais sempre focadas na verdade: “Uma correta apreciação de outras tradições religiosas pressupõe normalmente um contato estreito com estas. Isto implica, ao lado de conhecimentos teóricos, uma experiência real do diálogo inter-religioso com os adeptos destas mesmas tradições. Entretanto, é também verdadeiro que uma avaliação teológica correta das tradições, ainda que em termos gerais, permaneça um pressuposto necessário para o diálogo inter-religioso. Estas tradições devem ser abordadas com grande respeito, em função dos valores espirituais e humanos que elas contêm. Elas requerem nossa consideração pois, através dos séculos, foram testemunhas dos esforços envidados para encontrar as respostas ‘aos enigmas escondidos da condição humana’ (Nostra Aetate, n. 1) e elas foram lugar de expressão da experiência religiosa e das mais profundas aspirações de milhões de seus membros: e, elas, ainda hoje, continuam a fazê lo e a ser”.
Assim dizia o filósofo Paul Ricoeur (1913-2005): “Em primeiro lugar, devemos renunciar a uma relação possessiva da verdade; não devemos dizer: ‘eu tenho a verdade’, mas sim ‘eu espero estar na verdade’. A pior maneira de encontrar o outro é de anular sua intenção de verdade, tanto quanto a minha. Todo diálogo desaparece quando não há confrontação, onde não existe mais convicção”. O verdadeiro diálogo não se camufla na areia movediça da neutralidade. O diálogo é argumento e honestidade sincera de parceiros diferentes. Não é fotocópia nem troca de gentilezas entre elites religiosas. O diálogo da fé é um diálogo do coração dinâmico e alegre. Sempre há novas clarezas por vir. Sempre mais a unir e a buscar em Deus. Diálogo é um novo jeito e um estilo para falar de Deus: “O diálogo é antes de tudo um estilo de ação, uma atitude e um espírito que inspira o comportamento. Uma missão que não fosse impregnada do espírito do diálogo seria contrária às exigências da natureza humana e aos ensinamentos do Evangelho”.
Uma história de uma mestra zen pode ilustrar tudo o que dissemos antes. Conta a abadessa Rôshi em seu livro: “Uma senhora, que vinha com frequência e grande alegria praticar os hinos budistas em nosso templo, um dia faltou. Na reunião seguinte perguntei pela causa de sua ausência e ela respondeu: ‘Ah! Sensei, estava toda feliz para sair quando chegou uma visita e me perguntou: “Está de saída?” Se eu dissesse que sim, ela iria embora, não iria? Teve todo o trabalho de vir, seria pena que voltasse. Então eu lhe disse: “Acabei de chegar. Você veio no momento certo. Entre, por favor, fique à vontade”. E por isso não pude vir ao templo’. Fiquei comovida, diz a mestra, e abaixei a cabeça reverencialmente. A consideração daquela senhora pelos outros me serviu de alerta e me fez abaixar respeitosamente a cabeça”. Diálogo é isso: colocar-se no lugar do outro, sair do centro, acolher, respeitar, valorizar, considerar e servir. Diálogo é amar com coragem e esforço. É um jeito de ser Igreja e criar laços perenes e plenos de amor verdadeiro.

Fernando Altemeyer Junior 

Theoblog/ Edição de Julho de 2014

 

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