AQUELA IMENSA MESA

Escrito por omensageiro_master

 

Não nos cansamos de refletir sobre o tema da família. Bem precioso, lugar de afeto, berço da humanidade e espaço de humanização. Primeira educadora dos filhos e minúscula célula da Igreja. Gostamos de recordar tantas cenas que já tivemos ocasião de viver em família. Sei, meus amigos, que atualmente as coisas não são cor-de-rosa no universo da família. Turbulências e turbulências. Deixemos um pouco de lado essas nuvens meio carregadas e sem ingênuos saudosismos vamos ler esse relato de alguém que tem uma história a contar. Depoimento inventado. Si non è vero, è bene trovato.

“Casa, não apartamento. Uma casa grande, sem luxo. Havia uma sala de jantar espaçosa com uma imensa e pesada mesa de madeira escura. Meu Deus, quantas coisas se passaram em torno daquela mesa. Quantas recordações. Alegrias, partidas e voltas, lágrimas de luto e incontroláveis acessos de riso. Principalmente aos domingos.

De manhã cedo era o café da manhã. Antes de dormir a mãe já colocava o necessário: xícaras com pires, pratinhos, talheres, açucareiro inoxidável. Havia um prata que se usava no natal e na páscoa. Potes transparentes com biscoitos e pão torrado em casa. Lembro-me dos biscoitos de nata e das cucas de banana. Chegávamos dos quartos quase que anestesiados com o perfume de café torrado na hora que a tudo impregnava.
Havia ocasiões em que a mesa era guarnecida com bela toalha creme, com bordados de cor azul claro quase desmaiado, um candelabro no meio, aparelho de café diferente. Sempre a bela mesa, mesa de todos os dias. Não peça de museu. Ritual semelhante na hora do almoço e da janta. Tudo mais solene nos finais de semana.

A mesa, no entanto se prestava para muitas outras atividades. Ali as crianças faziam os deveres da escola. Os mocinhos e mocinhas já se preparavam para provas no curso científico. O pai fazia contas e uma vez ou outra escrevia uma carta. Antes de colocar no envelope ele lia para a mãe. Quase sempre as cartas começavam ou terminavam assim: “Espero que estas mal traçadas linhas te encontrem com saúde junto do teus..”. A mãe, por sua vez, acendia uma ferro a carvão para passar calças, vestidos, camisa e também sanguíneos e toalhas da Capelinha querida de Nossa Senhora das Vitórias.

Hoje a mesa está desativada. Parece que continua no depósito do Tio Zé Pedro que vende antiguidades. Está no fundo da loja com caixas de papelão por sobre seu tampo e cheia de poeira.

Que pena! Ah, se ela pudesse gritar…

 

 

Frei Almir  Ribeiro Guimarães,  OFM

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