Os sucessos do papa Francisco no mundo islâmico

nov 30, 2022Assinante, Dezembro 2022, Igreja em renovação, Revistas0 Comentários

É bem notório o encontro entre São Francisco de Assis (1182-1226) e o sultão do Egito, Al-Malik al-Kamil (1177-1238), ocorrido em 1209. O episódio foi narrado por cronistas e hagiógrafos da Idade Média, difundido tanto por autores cristãos quanto por muçulmanos no passado e no presente e imortalizado nos quadros de Giotto (1267-1337). Até Dante Alighieri (1265-1321), em sua Divina Comédia, faz referência a esse evento.

Com o passar dos séculos, tal acontecimento acabou se tornando a representação máxima do esforço de a Igreja Católica, a partir do impulso do Concílio Vaticano II (1962-1965), aproximar-se do Islã. O próprio papa Francisco (1936-) cita esse encontro com bastante reverência em sua Carta Encíclica Fratelli Tutti, de 2020, após ter celebrado, nos Emirados Árabes, em 2018, os oitocentos anos desse evento histórico.

Aliás, o atual pontífice vê nesse canal aberto com o mundo islâmico, que se ampliou em seu pontificado, como uma atualização do que ocorreu lá atrás, quando muçulmanos e cristãos se digladiavam para manter seus territórios e sua hegemonia no campo religioso.

Há várias versões dessa história, bem como há diversas controvérsias a ela ligadas. Uma delas, que os historiadores medievalistas fazem questão de esclarecer, é que São Francisco, na verdade, foi ao líder muçulmano não para dialogar, mas para convertê-lo.

Era sua terceira tentativa de penetrar o mundo islâmico para anunciar o Evangelho aos “infiéis”, como eram chamados na época. Porém, um naufrágio nas águas do Mar Adriático, após partir de Ancona, na Itália, impediu-o de realizar sua primeira expedição missionária com esse escopo. A segunda tentativa frustrada ocorreu às vésperas de sua viagem à Espanha, à época dominada pelos muçulmanos, por meio da qual pretendia também chegar ao Marrocos. Na ocasião, o Poverello adoeceu e não pôde atravessar o Mar Mediterrâneo.

Por fim, com a expedição da Quinta Cruzada (1217-1221), conseguiu chegar à cidade de Damietta, localizada a 200 quilômetros do Cairo, a capital do Egito.

São Francisco e o sultão do Egito Al-Malik al-Kamil, Paolo Gaidano

São Francisco e o sultão do Egito Al-Malik al-Kamil, Paolo Gaidano

Sem entrar no mérito de comentar o desafio do fogo nem outros episódios lendários em torno desse encontro entre os dois mundos − o cristão e o muçulmano −, importa para nós, analisando o governo do atual pontífice, focar na novidade desse gesto corajoso do pai do franciscanismo.
Em um mundo onde o conceito de “guerra santa” passa da categoria teológica à prática, o santo fez sua evangelização desarmado. Ou seja, é um sinal de contradição em um período profundamente marcado pelas Cruzadas, as quais legitimavam não só as conversões por meio da força, como também prepararam o terreno para o que se tornaria o Tribunal da Santa Inquisição, criado em 1233.

São Francisco, na verdade, embora não condenasse as Cruzadas (e muito provavelmente, seguindo a mentalidade da época, até as apoiava), recobrou, na prática, o conceito de anúncio como arte do encontro, seguindo os passos do Mestre. Sua coragem desconsertou o sultão, dizem as fontes franciscanas. Já as muçulmanas atestam, citando o episódio envolvendo “aquele monge”, que o sultão, em si, era um homem de paz, o que teria contribuído para que ambos se dessem bem naquela ocasião.

Por isso, o papa Francisco, que não por acaso adota como título pontifício o nome do Santo de Assis, sente-se impelido a explorar áreas do mundo muçulmano que nenhum papa, antes dele, conseguiu alcançar. Mais um Francisco vai desarmado, só que dessa vez de tudo – incluindo do discurso de que só há salvação no cristianismo.

Emirados Árabes, Iraque, Bahrein. Em todas essas viagens, o papa argentino deu passos históricos em direção ao Islã. Diante do aiatolá Ali Al Sistani (1930-) em Najaf, no Iraque, em 2021, ele se encontrou (e foi o primeiro papa a fazê-lo) com o representante máximo do islamismo xiita. Em Abu Dhabi, anos antes, assinou, com teólogos islâmicos, um documento de fraternidade universal que foca nos valores comuns às duas religiões monoteístas. No Bahrein, lançou um apelo pela salvaguarda dos direitos humanos.

Em um mundo que cada vez mais se perde a fé no sobrenatural e se aparta dos valores fundamentais, quem crê em Deus precisa se unir. É essa a visão do papa Francisco. Mais que uma estratégia geopolítica, é um trabalho de evangelização. Mais que um encontro amigável entre líderes das religiões monoteístas, é uma ação conjunta para salvar o mundo dessa crise de sentido na qual ele está imerso.
Onde há paz há Deus. E isso é inegociável.

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