Marcos, o Evangelho do caminho, da esperança e da resistência!

dez 1, 2023Assinante, Dezembro 2023, Entendendo a Bíblia, Revistas0 Comentários

A memória litúrgica do evangelista Marcos nos remete a seu Evangelho como caminho da esperança e da resistência. O objetivo principal desse conteúdo é convocar a comunidade a retomar o caminho da esperança e resistir na fé.

Jesus, o Evangelho Vivo, encerrada Sua missão terrena, deixou o legado de anunciar e esperar a realização definitiva do Reino de Deus para os cristãos das décadas de 60 e 70 d.C. Eles não deviam deixar se abater pelo desânimo, ainda que Pedro e Paulo, por testemunharem Jesus, tenham sido mortos de forma trágica: o primeiro crucificado de cabeça para baixo, e o segundo degolado.

O Império Romano dominava a pátria de Jesus, a Palestina, e perseguia os cristãos, os quais eram martirizados testemunhando a fé em Jesus ressuscitado. Os judeus acreditavam que a solução para se livrar dos romanos seria uma rebelião armada. Muitos judeus convertidos ao cristianismo não sabiam se deviam ou não entrar nessa guerra. Eles também diziam que Cristo não podia ser o Messias, pois havia sido crucificado. Também consideravam que um crucificado era sempre um maldito de Deus. Nesse contexto, entre os cristãos da comunidade de Marcos, pairava a dúvida: será que Jesus era realmente o Messias e Filho de Deus? A maior parte dos apóstolos e dos cristãos da primeira hora havia morrido. Uma nova geração de líderes estava assumindo a coordenação. Isso provocava tensões, brigas e ciúmes no interior da comunidade (cf. Mc 9,34.37; 10,41).

Foto EntendendoABiblia 02 circulo olhoDez23

Como ser discípulo de Jesus em meio a essa situação tão complicada e difícil? Era isso o que todos se perguntavam. Foi nesse contexto que Marcos, ou João Marcos, filho de Maria (cf. At 12,12.25), um judeu convertido ao cristianismo, discípulo de Pedro (cf. 1Pd 5,13) e primo de Barnabé (cf. Cl 4,10), decidiu escrever um evangelho para devolver a esperança aos cristãos. Ele trazia uma certeza: a de que Jesus era o Messias e Filho de Deus. “Princípio (fazendo ligação com o livro de Gênesis) do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1) são as primeiras palavras de seu Evangelho. Essa certeza se fundamentava na palavra profética (cf. Mc 1,2-3),

confirmada, de forma eloquente no final do Evangelho, com a declaração de um centurião romano que, olhando atônito para Jesus crucificado, declara: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39b). A fala do centurião anônimo é um convite para recomeçar, apesar do aparente fracasso da cruz. O acréscimo (cf. Mc 16,15-20) era, da mesma forma, um chamado para refazer o caminho de Jesus, narrado no Evangelho, ainda que a cruz pudesse ser encontrada no fim da jornada.

No Evangelho, o caminho de Jesus começa na casa (cf. Mc 1,1−8,22), centro de Sua atividade missionária, lugar de intimidade com Ele. Fora da casa, estão os adversários: escribas, fariseus e herodianos, os quais controlam a convivência social e a sinagoga, lugar onde se manifesta Satanás, o adversário, e o príncipe de outra casa, a de Belzebu. Para entrar na casa de Jesus, é preciso romper com o sistema opressor da sinagoga e das leis judaicas. As mulheres são admitidas como discípulas na casa (cf. Mc 1,29). No centro da casa, está a mesa, a partilha do pão, como símbolo das novas relações sociais, econômicas e políticas (cf. Mc 6,34-44. 8,1-10).

Na segunda etapa de Seu caminho, Jesus chega ao centro do poder, Jerusalém (cf. Mc 8,22−16,20). A palavra caminho (e suas derivações) aparece várias vezes no texto: ‘caminho’ (cf. Mc 8,27); ‘caminhava através de’ (cf. Mc 9,30); ‘no caminho’ (cf. Mc 9,33-34); ‘junto dali, foi’ (cf. Mc 10,1); ‘ao retomar sua caminhada’ (cf. Mc 10,17); ‘estavam no caminho (cf. Mc 10,32); ‘à beira do caminho’ (cf. Mc 10,46); ‘segui-o pelo caminho’ (cf. 10,52). Jesus chega a Jerusalém (cf. Mc 11,1), entra no Templo, onde tem conflitos (cf. Mc 11,27; 12,12.18.28.35.38.41), e anuncia o próprio fim (cf. Mc 13,2).

A última etapa do caminho de Jesus é a crucifixão fora de Jerusalém. Por fim, Seus seguidores são chamados a retomar o caminho e abrir novos caminhos, anunciando o Evangelho e tendo a certeza de que o Senhor estaria sempre com eles no caminho.

O poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939) escreveu, em seu poema “Cantares”, um verso que ficou célebre: “[…] Caminhante, não há caminho,/ faz-se caminho ao andar…”1 Assim aconteceu com os discípulos e discípulas de Jesus, os quais aprenderam, até na hora derradeira de convivência com o Mestre, o caminho ensinado por Ele. Pelo caminho, muitas pessoas seguiam Jesus. Vários O procuravam somente para receber milagres. Outros tantos chegaram a perder o entusiasmo e pararam de buscá-Lo.

E nós? O ato de estar no caminho de Jesus exige que sempre paremos, olhemos, escutemos e sigamos em frente. A vida foi feita para ser trilhada. Ela é dinâmica. É veloz. A um sopro, tudo cessa. E, no efêmero sopro da vida, que bom seria se todos nós estivéssemos nos passos, no caminho de Jesus. A comunidade de Marcos resistiu na fé e na esperança diante dos sofrimentos e da opressão. Agora, cabe a nós essa sublime tarefa. Sigamos em frente!

Nota

1 Disponível em: http://sentidosocial.com.br/caminhante-de-antonio-machado-o-poeta-existencialista/. Acesso em: nov. 2023.

Autor

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *