Jubileu de Brilhante dos Franciscanos Conventuais – Parte 1

mar 30, 2024Abril 2024, Assinante, Especial Jubileu de Brilhante, Revistas0 Comentários

Província São Francisco de Assis do Brasil (1949-2024)

Recordar o passado é sempre algo prazeroso, contanto que os fatos narrados nos sirvam de inspiração para que vivamos o presente com sentimentos e obras de gratidão, de esperança e de compromisso. Porém, depende de cada um de nós praticarmos essas atitudes em nosso dia a dia, para que elas possam dar folhas, flores e frutos sempre de vida, e vida plena.

Assim, apresento aos leitores a história de nossa família franciscana (Província São Francisco de Assis), que, em 2024, está comemorando 75 anos em terras brasileiras (Fioretti Francescani Brasiliani). Originalmente, ela é proveniente da Itália, mais especificamente de Pádua, nação querida também de nosso querido Santo Antônio de Lisboa e Pádua (1195-1231).

A primeira entrevista é de frei Vitório Valentini, OFMConv. (1908–1996), a quem denominamos de “pioneiro”. Em 1949, ele e frei Marino Temporin (1921-2009) lançaram as raízes da nova família franciscana em terras brasileiras, mais exatamente no Bairro Parque das Nações, em Santo André (SP).

Mas, com frei Vitório, essa história tem também alguns antecedentes, antes mesmo de ele pensar em vir para o Brasil. A seguir, o frade narra com emoção e, ao mesmo tempo, com perspicácia (como é próprio dos italianos), suas experiências na nova terra.

“Frei Vitório, como o senhor se tornou missionário no Brasil?”

“A história é meio longa, mas vocês querem ouvir? Vamos lá e… tenham paciência!
Estávamos em maio, mês gostoso e quente em Pádua, no ano de 1948. Eu tinha uma vontade enorme de dar um passeio longe, bem longe. Tocou uma campainha – eram tantas campai-nhas −, mas estava convidando os frades para o almoço. Meu colega ao lado – que se chamava frei Lino Biasi – e era secretário provincial me fez uma pergunta à queima-roupa: ‘Frei Vitório! Você quer ir para o Brasil?’ Fiquei espantado e, mais espantado ainda, pedi: ‘Como?’ A resposta foi: ‘É que temos um pedido do arcebispo de São Paulo, Brasil. E o núncio apostólico de lá é dom Righi e, antes de ele ir ao Brasil, era secretário de dom Angelo Giuseppe Roncalli (futuro papa João XXIII, delegado apostólico em Istambul, na Turquia). E nosso ministro provincial do Oriente era frei Jorge Montico, muito amigo de dom Righi. Quando este foi transferido para o Brasil, com manobras do futuro bispo dom Paulo Rolim Loureiro, ele fez o pedido’. Minha resposta foi: ‘Sim! Vou! Mas, quando?’ A resposta foi imediata: ‘É para logo!’

Terminado o almoço, saí correndo para a biblioteca para ver um mapa e saber onde estava esse Brasil. Li alguma coisa: havia gente, indígenas, riquezas enormes, mas também muitos pobres! Olhei bem onde estava São Paulo, Rio de Janeiro… eu me informei que o presidente era o general Eurico Gaspar Dutra e o governador interventor de São Paulo, Ademar de Barros”.

“Frei Vitório”, disse eu. “Tome um copo de água, senão o senhor não vai chegar ao fim”. Tendo sorvido o precioso líquido, frei Vitório continuou:

“Passaram-se os dias, passou o mês e… nada de Brasil! Nesse ínterim, eu não morava mais no Convento de Santo Antônio. Tinha sido transferido para outro convento na cidade de Treviso, não muito longe de Pádua. Em fins de outubro, estava acompanhando uma peregrinação de Nossa Senhora Peregrina. Cheguei em casa e vi um telegrama: ‘Frei Vitório! Venha logo a Pádua e prepare-se para viajar. A meta é o Brasil!’
Suspirei fundo e deixei a Madonna Pellegrina, os colegas… e fui fazer uma breve visita à minha família. Lembro-me até hoje das palavras – últimas! – de minha mãe, Josefina Zanin: ‘Vá, meu filho, vá! Mas saiba que você estará sempre bem guardado no meu coração e nas minhas preces!’

Essas palavras eu guardei sempre no meu coração também. De fato, minha mãe, Josefina Zanin, veio a falecer no ano de 1952, e eu estava no Brasil havia três anos!”

Analisando a biografia de Santo Antônio, percebemos que, desde jovem, ele sempre teve um ardor missionário (semelhante a frei Vitório). O santo paduano desistiu de ser monge entre os Cônegos Regulares de Santo Agostinho para se tornar frade entre os franciscanos. Essa radical mudança foi inspirada no exemplo dos cinco frades que, provenientes da cidade de Assis, foram ao Marrocos, no norte da África, para pregarem o Evangelho, onde foram martirizados. Àquela altura, frei Antônio também decidiu ser missionário para pregar o Evangelho, inicialmente entre os muçulmanos. Porém, acometido por uma doença, teve de retornar das terras africanas, partindo como missionário em território europeu.

Em um de seus Sermões, ele escreveu sobre a pedra do sepulcro de Jesus, em que podemos enxergar a beleza e a fortaleza de um missionário!
“Quem vai até o sepulcro de Cristo se propõe a entrar em algum mosteiro ou ordem religiosa, mas, considerando a aspereza difícil, a dura disciplina, os longos jejuns, a comida parcimoniosa, a veste desprezível, ele pergunta: ‘Quem nos tirará essa pedra da entrada do sepulcro?’ Ó mentes frágeis! Aproximai-vos e olhai, não desconfieis! Vereis a pedra retirada por um anjo! O Anjo é a graça do Espírito santo que fortalece a fragilidade, tempera as asperezas, adoça qualquer amargura, com o bálsamo do seu amor. E nada é difícil para quem ama”1.

Nota

1 PÁDUA, Santo Antônio de. Sermões Dominicais e Festivos. Tradução de Frei Geraldo Monteiro. Padova: Ed. Messagero, 1979. p. 573. v. 1.

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