Para a conversão social, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe, anualmente, a Campanha da Fraternidade (CF). Neste ano, o tema é: Fraternidade e a Ecologia integral, e o lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31).
O objetivo geral da CF é levar-nos a refletir sobre a crise socioambiental, em um processo de conversão integral, ouvindo o grito dos pobres e da terra e buscando alternativas para superar essa grave crise social. Somos convocados a voltar à origem da criação e assumir nossa função de guardiões do planeta, nossa casa comum. Por que a escolha dessa temática? Há algo de errado na natureza ou no ser humano? Deus não fez tudo e viu que tudo era bom?
Tomemos como ponto de partida os textos bíblicos de Eclesiástico, que afirma: “O fruto mostra o cultivo da árvore […]” (Eclo 27,6), e do Evangelho segundo São Lucas, que diz: “Não há árvore boa que dê fruto mau, nem árvore má que dê fruto bom. Não se colhem figos de espinheiros, nem se vindimam uvas de sarças. Do coração do ser humano bom tira o que é bom, mas do mau tira o que é mau” (Lc 6,43-45).
Da análise dessas passagens bíblicas, resulta que o ser humano tem poder sobre tudo o que está sobre a terra. Árvore boa, frutos bons! Ser humano bom, cuidado! Ser humano mau, destruição da natureza! E ainda há a questão de seu poder. Para que ele serve? Para dominar ou reger a criação. Sem dúvida, agir como um bom maestro rege sua orquestra.
O papa Francisco (1936-), em sua Carta Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social [‘Todos somos irmãos’], de 2020, chama nossa atenção para a urgência de repensar a questão do domínio do ser humano, o qual não só pode provocar uma grande extinção em massa de diversas formas de vida, como também de destruir o próprio planeta, a casa comum da humanidade e de todas as formas de vida. O cerne da crise ecológica está no ser humano. Para o pontífice, precisamos cuidar da vida, pois tudo está interligado em uma irmandade, assim como pensavam o medieval São Francisco de Assis (1182-1226) e os povos originários, os quais possuíam uma visão mística e humanista da relação dos seres humanos com a natureza.
Hoje, somos mais de oito bilhões de pessoas querendo ter e consumir. O padrão de consumo está universal. Não há limites para esse desejo! Por isso, o tema da Ecologia Integral é tão pertinente. Ou mudamos o rumo de nossa história ecológica, ou afundaremos em um lamaçal sem saída. As análises e as previsões técnicas para o planeta apontam caminhos não muito positivos para as próximas gerações. Segundo esses estudos, não há esperança, pois o aquecimento global e as mudanças climáticas são mais graves do que as previsões feitas anos atrás. Cidades podem ser literalmente varridas do mapa geográfico por causa do assustador e incontrolável degelo, resultado do avanço dos mares. A degradação do planeta segue veloz. Catástrofes e pandemias, como a tragédia climática ocorrida no Rio Grande do Sul, em 2024, e a pandemia da Covid-19, que teve início em 2020 e devastou o Brasil e o mundo, assustam, destroem e matam muitas pessoas. Há uma constante diminuição de áreas úmidas e férteis, com consequente desertificação. Da mesma forma, os desmatamentos continuam e, principalmente, o consumo de combustíveis fósseis. A economia insiste em um crescimento permanente para o consumo, a partir do modelo de desenvolvimento capitalista.

“E Deus viu que tudo era bom”, autor desconhecido
Caso não sejam modificados os rumos da humanidade para uma Ecologia Integral, o futuro do ser humano poderá ser o da extinção, resultado de um suicídio coletivo que degrada as condições propícias para a vida em todas as suas formas. O Planeta Terra, dom de Deus, tem mostrado sinais evidentes de esgotamento. Há um grito da terra por cuidados que poucos ouvem!
Nossa missão é cuidar da terra, da natureza, dos animais, de todo ser criado por Deus. Esse zelo é o princípio fundamental para iniciarmos o processo de mudança, abandonando a ambição pelo lucro desenfreado e o consumo sem limites. Cuidar é divino, é sagrado, é ordem do Criador. É preciso impor regras ao ser humano! Crimes contra a natureza são violações contra nós mesmos. Faz-se necessária uma mudança de mentalidade e de atitudes. Faltam políticas públicas que favoreçam os empobrecidos e que não façam de nossa casa comum e seus bens um negócio de compra e venda. Essa quebra do projeto divino, que consiste na relação de intercâmbio entre o ser humano e a natureza, é um atentado contra a criação de Deus.
Somos chamados a despertar em nós atitudes de Ecologia Integral, na qual o meio ambiente, a cultura e cotidiano das pessoas estejam integrados. O que isso significa? Que nas cidades sejam desenvolvidos planejamentos urbanos que absorvam a água. Que saibamos cuidar da fauna, da flora e do ecossistema. Que lutemos contra a pobreza que impede o acesso de milhões de seres humanos aos alimentos. Que plantemos mais árvores e criemos mais áreas verdes para evitar o calor extremo e o aquecimento global. Que superemos o desejo de consumismo desenfreado. Que tomemos consciência do desperdício de água. Que apoiemos a agricultura familiar. Que possamos dizer não aos projetos políticos que destroem o planeta com mineração, agrotóxicos, desmatamentos, entre outros. Conheceremos o fruto da árvore pela ação de seu cuidador. É tempo de cuidar das pessoas, do planeta e de nossa vida espiritual!

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