Nos primeiros séculos da Igreja, seus pastores se empenharam em preparar os rituais litúrgicos que pudessem servir para as celebrações dos Sacramentos, particularmente da Iniciação Cristã (que abrangia o ritual do batismo), como porta de entrada na comunidade, com a bênção do Espírito Santo e, como ápice do pertencimento à família espiritual de Jesus Cristo, a participação na Ceia Eucarística.
Os rituais eram legislados de forma espontânea e, aos poucos, foram sendo fixados para maior precisão em suas partes, textos e símbolos, mas também para evitar que heresias adentrassem as celebrações litúrgicas. Seus primeiros exemplares, conhecidos como libelli (que podemos entender como livretos ou folhetos), foram-se tornando comuns e mais presentes nos patriarcados, especialmente na Igreja de Roma.
Os livros litúrgicos que organizaram a liturgia cristã em vários patriarcados e famílias litúrgicas tiveram como referência um importante documento do final século II, atribuído a Santo Hipólito de Roma (170-236), conhecido como Tradição Apostólica. Nesse texto, encontramos vários rituais para a vida eclesial, incluindo um modelo genuíno de Anáfora, que servirá de base para as Igrejas do Ocidente, particularmente aquela de Roma.
Os primeiros textos litúrgicos da cristandade
Em nossos dias, quando temos em mão os rituais litúrgicos, tão complexos e sofisticados, ficamos impressionados com a ordem e o conteúdo de seus ritos. Todo repertório litúrgico está bem delineado, sejam os textos, sejam as rubricas, sejam os espaços sagrados, sejam os gestos, sejam os ministérios, sejam os movimentos presentes em cada partícula do ritual. No entanto, quando retornamos aos primórdios desses textos, descobrimos sua grandeza em suas origens, como conteúdos essenciais que serviam como referência para as celebrações dos Sacramentos e dos Sacramentais.
Esses exemplares de rituais estão localizados nas comunidades cristãs com maior poder de organização, desenvolvendo-se nos pequenos núcleos nos quais o cristianismo plantava suas raízes e formava comunidades mais consistentes. Essa situação precisa ser compreendida com base em contextos nos quais pergaminhos, ou papiros, eram raridade e exigiam escribas para transcreverem suas tradições orais (orações, homilias e preces rituais).
Deir Balyzeh, um ritual primitivíssimo
Os primeiros escritos presentes na gênese de um ordo, compreendido como ritual para uma ação litúrgica, foram encontrados a partir do século IV, quando as comunidades cristãs tinham a possibilidades de se organizar e conservar seu material litúrgico, sejam vasos sagrados, sejam alfaias, sejam papiros. Um dos mais antigos, encontrado e conservado até os dias atuais, apresenta a liturgia que se celebrava no século IV, na região do Egito, próximo ao Mar Mediterrâneo. É conhecido como Papiro Deir Balyzeh. Os textos antigos, bem sabemos são manuscritos em papiro, de origem vegetal, ou pergaminhos, de origem animal, nos quais eram registrados documentos importantes. São preciosíssimos, sobretudo por sua raridade e dificuldade de conservação.
O Papiro Deir Balyzeh traz fragmentos de textos cristãos. Neles, encontramos três orações, uma profissão de fé sucinta e fragmentos de uma Anáfora. A busca cuidadosa de rituais e textos primitivíssimos é fundamental para reconhecer as formas mais genuínas de celebrações dos primeiros cristãos, nas diversas regiões nas quais o cristianismo compôs comunidades concretas, sobretudo nos lugares mais ermos do mundo antigo, nas décadas e nos séculos posteriores às pregações dos apóstolos.
Os fragmentos, contendo três papiros escritos em uma língua local, são muito importantes para a reconstituição dos rituais antigos. O Mosteiro Deir Balyzeh, localizado em um vilarejo (Al Balyzeh), hoje preserva apenas ruínas; mas, entre os séculos VI e VIII, esse lugar foi muito importante, abrigando aproximadamente mil monges.
Destacamos que o cristianismo, sobretudo a partir do século III, teve grande desenvolvimento no norte da África, contando com muitíssimas comunidades, importantes escolas teológicas e numerosos mosteiros. No Egito, esses mosteiros constituíram um relevante cenário na vida social e religiosa de toda a sociedade.
Libelli, pequenos folhetos litúrgicos
Aos poucos, a vida litúrgica da Igreja foi-se edificando, sempre partindo das formas de praticar os ritos para integrar novos membros à comunidade cristã (tratando-se do Batismo), mas também para celebrar o pertencimento efetivo, participando da vida eucarística dos mesmos cristãos. Também outros rituais foram sendo agregados, enriquecendo consideravelmente as celebrações das comunidades.
Muitos desses textos, lamentavelmente, se perderam, mas uma parte deles foi preservada, ainda que em fragmentos, tornando-se importantes para a resgate das formas celebrativas dos primeiros tempos do cristianismo. Nas recorrentes tentativas de volta às fontes, esses textos foram retomados, servindo de referência para a renovação dos rituais modernos.
Nesse cenário, estão os famosos libelli, que tiveram uma importância muito significativa na liturgia de Roma, tornando-se a base para a progressiva formatação dos futuros sacramentários. Por esses “folhetos litúrgicos”, podemos compreender a espiritualidade, a doutrina, os símbolos, os ministros e a participação dos leigos na vida sacramental – Sacramentos e Sacramentais – daqueles lugares e em seus respectivos períodos.
Alguns estudiosos da ciência litúrgica consideram que esse momento, a partir do século IV, culminando no século VI, representa uma fase de grande criatividade eucológica e organização interna das celebrações. Algumas predominaram e sobreviveram nas comunidades, enquanto outras foram substituídas por famílias litúrgicas mais importantes.
Esses textos têm a principal característica de possibilitar a criação ou a tradução de preces nas línguas autóctones. Como testemunho dessa virtude, pode-se citar a preocupação de Orígenes, o Cristão (185-253), que considerava natural que cada povo celebrasse em sua língua materna. No mesmo intuito, o papa Dâmaso I (305-384), no século IV, insistia que o latim fosse a língua litúrgica, pois era o idioma popular nas extensões de domínio do Império Romano.
Ressaltamos que dois monges do Mosteiro de Camâldole, na Itália, solicitaram ao papa Leão X (1475-1521) que as línguas populares fossem adotadas nos rituais para que o povo pudesse participar e aprofundar o mistério celebrado. Essa história peculiar é interessante e tem um espírito renovador muito importante. Dois monges, Paolo Giustiniani (1476-1528) e Vincenzo (Pietro) Querini (1479-1514), escreveram o documento Libellus ad Leonem X, em 1513, com o objetivo de fazer que o povo tivesse, pela participação dos rituais cristãos, maior formação espiritual e doutrinal. Eles denunciavam uma forte corrupção na vida da Igreja, sobretudo no clero, e acreditavam que a renovação espiritual e pastoral, pelo uso do vernáculo nos rituais e nas pregações, poderia renovar a vida eclesial.
Retrocedendo nos séculos, vamos encontrar os pequenos folhetos, ou livretos, para a celebração da missa. Esses rituais constituem um importante testemunho dos elementos essenciais das celebrações da Ceia do Senhor. Conhecidos como Libelli Missarum, eram utilizados para acompanhar uma ou mais celebrações. Serviam aos epíscopos, mas sobretudo aos presbíteros que celebravam nas comunidades mais distantes da sede episcopal. O conteúdo era bem definido, pois trazia as partes essenciais do Ritual da Ceia, delineando as orações desenvolvidas no século IV, em que testemunhamos intensa criatividade litúrgica.
Em relação a outros rituais da vida litúrgica, há alguns exemplares mais específicos, entre os quais o Liber Ordinum, um ritual moçarábico; o Liber Pontificalis, contendo celebrações dos primeiros pontífices, e o Liber Sacerdotalis, referência do Ritual Romano, sendo utilizado pelos sacerdotes.
Momentos da elaboração das ações litúrgicas

Historicamente, esses folhetos litúrgicos eram denominados Sacramentarium Leonianum, publicados por Giuseppe Bianchini em 1735. Eles receberam esse nome porque sua autoria foi atribuída a São Leão Magno
Ao lado dos formulários para os Sacramentos da Iniciação Cristã, surgem também outros rituais, que servem para as celebrações da vida cristã, como os rituais para bênçãos, para peregrinações, para acolhida dos penitentes e, sobretudo, para preces dos enfermos.
Esses ritos são importantes na vida cotidiana e são usados, além das atividades dos sacerdotes como ministros consagrados, pelos monges e por líderes leigos que convivem no cotidiano das comunidades. Representam formas de socorrer espiritualmente os fiéis em momentos cruciais de suas vidas. Para os enfermos e depois para o sepultamento, vão surgindo ritos que incrementam a vida litúrgica fora dos ministérios ordenados.
Nas celebrações da Ceia Eucarística, sobretudo a partir do século IV, quando os rituais específicos da iniciação foram-se separando, os libelli tornaram-se a principal referência, sobretudo no Ocidente cristão e mais particularmente na Igreja de Roma. Tanto é verdade que o conjunto da obra é definido como Sacramentarium Leonianum [‘Sacramentários Leoninos’].
Na Igreja de Roma e em outras dioceses ocidentais, a liturgia passou do grego ao latim como língua litúrgica oficial, sendo escritos textos eucológicos e a primeira Oração Eucarística. Muitos libelli foram produzidos, sendo integrados à Biblioteca de Latrão; posteriormente, foram ordenados em um códice (n. 85), integrando o acervo da Biblioteca de Verona. Historicamente, esses folhetos litúrgicos eram denominados Sacramentarium Leonianum, publicados por Giuseppe Bianchini (1704-1764) em 1735. Eles receberam esse nome porque sua autoria foi atribuída a São Leão Magno (400-461).
Após uma cuidadosa análise arqueológica, constatou-se que esses libelli foram escritos por diversos pontífices, entre eles São Gelásio I (410-496) e o papa Virgílio (500-555), sendo editados e publicados posteriormente sob o título de Sacramentarium Veronense. Esses livretos fazem parte da evolução dos rituais litúrgicos, compondo um importante testemunho que sistematiza a vida litúrgica da Igreja.
Ecclesia semper reformanda
A Igreja nasceu do coração de Jesus Cristo, que convidou Seus seguidores para semear as “sementes do Verbo” entre todos os povos. Eles saíram corajosamente para evangelizar, dirigindo-se a terras distantes. Nas páginas bíblicas, encontramos as inspirações mais elevadas anotadas pelos escritores sagrados, a partir de palavras, atitudes e gestos do Mestre.
Os apóstolos assumiram o compromisso de formar novas comunidades pelo árduo trabalho de evangelização entre os povos. Eles se deslocaram a lugares distantes, integrando o cristianismo em culturas, linguagens e costumes diferentes. Foram acolhendo esses elementos históricos, sempre em conformidade com os ensinamentos do Mestre. Preservando o essencial, incorporaram elementos históricos para o repertório litúrgico.
A vida litúrgica é o espaço eclesial em que esses valores rituais e simbólicos de outros povos tiveram maior integração. Esse é o principal processo da vida da Igreja, ou seja, sempre se reformar para ser o fermento entre os povos. Nos primeiros séculos, esse processo foi muito fecundo e organizou as comunidades, as quais, desde sempre e para sempre, celebram o mistério pascal de Jesus Cristo.

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