Reconstrução em tempo de esperança

dez 1, 2024Dezembro 2024, Reportagem, Revistas0 Comentários

Recomeço. Essa é a palavra de ordem para milhares de gaúchos depois que as fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul devastaram diversos municípios do Estado, entre abril e maio, provocando transbordamentos e destruição.
Nesse período, muitas pessoas tiveram de lidar com sentimentos de perda, tristeza e luto pelos falecidos. Porém, doações vindas de todo o Brasil e investimentos em ações e projetos de reconstrução estão transformando a realidade da população

Em abril, enchentes de grandes proporções devastaram o Rio Grande do Sul após fortes temporais que assolaram o Estado. A chuva forte e ininterrupta começou em 27 de abril, em Santa Cruz do Sul, na Região dos Vales; ela durou mais de dez dias, sobrecarregando as bacias dos Rios Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos e Gravataí, que transbordaram. Como são interligadas, as águas das bacias chegaram ao Lago Guaíba, em Porto Alegre, e à Lagoa dos Patos, em Pelotas e Rio Grande, que também transbordaram, inundando municípios, expulsando pessoas de suas casas, ceifando vidas e destruindo bens materiais.

Entre 27 de abril e 2 de maio, choveu cerca de 700 milímetros, correspondendo a um terço da média histórica de precipitação para todo o ano. Entre 3 e 5 de maio, a precipitação ficou entre 300 e 400 milímetros. De acordo com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as chuvas de maio levaram mais de 14 trilhões de litros de água para o Guaíba, cujo volume equivale à quase metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Segundo a Defesa Civil do Estado, 172 pessoas morreram, 38 continuam desaparecidas e mais de 629 mil ficaram desalojadas. Dos 497 municípios gaúchos, 471 foram afetados pelas tempestades (o equivalente a 94,77% do total). Conforme levantamento da Defesa Civil, as enchentes atingiram cerca de 2,4 milhões de pessoas.

Grande parte das cidades atingidas registrou uma precipitação superior a 500 milímetros em um intervalo de poucos dias. Esse volume corresponde a um terço do esperado para todo o ano. A Região da Serra também sofreu com os impactos da chuva, mas por causa de deslizamentos de terra.

Diante desse cenário devastador, muitas doações chegaram de todas as partes do Brasil e do mundo, perfazendo um montante jamais visto anteriormente. Em maio, a Defesa Civil do Estado divulgou um relatório sobre doações recebidas e encaminhadas aos municípios atingidos pelas enchentes. Até aquele momento, haviam sido doados toneladas de cestas básicas, roupas, água, cobertores, materiais de limpeza e higiene pessoal, colchões, ração animal, entre outros tipos de materiais.

“Hoje as doações chegam em menor número, mas ainda recebemos material. O trabalho de triagem naquele momento foi um grande desafio. Ninguém ficou sem atendimento!
Todos foram acolhidos, ou por meio de doações, ou por meio de uma conversa com o serviço de psicologia”, explicou Luiz Carlos Martins de Campos, diretor-executivo da Cáritas Brasileira, na Regional do Rio Grande do Sul.

O auxílio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também foi imprescindível para a reestruturação das famílias. A CNBB doou centenas de kits de cozinha e de quarto. Na primeira fase, foram itens como fogão, geladeira e armário. Já na segunda etapa, havia base da cama, colchão e roupeiro.

Na região de Porto Alegre, onde o trabalho da Cáritas estava concentrado, cerca de vinte paróquias foram atingidas. Elas passaram por um processo de limpeza e desinfecção para receber os afetados pelas enchentes. “As temperaturas estavam muito baixas e abrigamos muita gente nos salões paroquiais. Esse foi o recomeço para muitas pessoas”, destacou o diretor.

Luiz Carlos é morador de Porto Alegre (RS) e relata que, por pouco, sua residência não foi afetada pelas chuvas. Emocionado, ele relembra que a paróquia onde frequenta, Santa Rosa de Lima, serviu de refúgio para quem ficou desalojado. “Temos de nos colocar no lugar do próximo. Sentir a dor de quem teve sua vida levada pelas águas. Transformamos isso em força para ajudar a todos”, complementou.

Sob a proteção de Maria

Entre abril e maio, fotos e vídeos das enchentes destruindo a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Paróquia de Cruzeiro do Sul (situada no Bairro Passo Estrela), foram vistos pelo Brasil inteiro. Quando as águas baixaram, os moradores do lugar tiveram uma surpresa: uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, de quase três metros de altura, foi encontrada praticamente intacta (somente com as mãos danificadas), na frente da igreja destruída.

A igreja fazia parte da Diocese de Santa Cruz do Sul, que teve todas as 51 paróquias atingidas pelas cheias de rios e córregos, principalmente o Rio Taquari, que faz divisa com a Diocese de Montenegro (que abrange o sul do Rio Grande do Sul). As comunidades mais atingidas foram de Roca Sales, Muçum e a própria Cruzeiro do Sul.

Dom frei Aloísio Alberto Dilli (1948-), bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul, explicou que, em muitas localidades, o trabalho foi apenas de limpeza da lama e da sujeira. No entanto, em outros lugares, será necessário reconstrução e até realocação dos moradores. “Esse é o caso de Cruzeiro do Sul, onde todo o bairro foi destruído”, lamentou.

De modo semelhante às demais dioceses, os desalojados foram acolhidos em salões paroquiais. Desde então, por meio do Projeto Escutai, lançado pela Diocese de Caxias do Sul, profissionais especializados oferecem atendimento psicológico gratuito de escuta, acolhimento e cuidado às pessoas impactadas pelas enchentes.

Quanto ao fato de a imagem de Nossa Senhora de Fátima ter permanecido praticamente intacta, dom Dilli não acredita que esse acontecimento seja um milagre, mas crê que é um sinal de que Maria está sempre ao lado do povo de Deus, principalmente nos momentos difíceis. “Esse é um sinal de esperança em tempos melhores, de que a Mãe de Jesus permanece fiel a seus filhos. Ela está aqui por nós, para que possamos seguir em frente com força e fé”.

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Missão de escuta e serviço

A solicitação para que a Cáritas Diocesana estivesse à frente dos trabalhos de triagem e destinação das doações direcionadas ao Rio Grande do Sul partiu de dom Jaime Spengler (1960-), arcebispo metropolitano de Porto Alegre, presidente da CNBB e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e nomeado cardeal pelo papa Francisco (1936-), em setembro. Ele percebeu a necessidade de formar uma equipe que realizasse a triagem do material enviado e que tudo chegasse devidamente a seu destino.

Enquanto a instituição estava na linha de frente auxiliando a população, dom Jaime dividia-se entre o cuidado das pessoas e a contabilidade de prejuízos de capelas e igrejas atingidas pelas chuvas. Foram mais de trinta igrejas ou capelas que precisaram de intervenções, e até o piso da Matriz de Porto Alegre afundou. Houve casos em que as paredes precisaram ser quebradas para a retirada de animais mortos. Porém, mesmo com todas as adversidades, a liturgia não deixou de ser realizada. “Nós nos deparamos com as mais diversas situações. Reformas, reconstruções e muita limpeza.

As comunidades que não foram atingidas cooperaram com quem foi. Em meio à tragédia, vimos a união do povo de Deus”, destacou o arcebispo.
Segundo dom Jaime, atualmente, percebe-se um tempo de esperança na arquidiocese, sobretudo, nas regiões mais afetadas, como Canoas, Eldorado do Sul, Humaitá, entre outras localidades. “Hoje todos os religiosos são um canal de escuta entre as pessoas afetadas pelas cheias. Notamos que elas precisam de alguém para ouvi-las. Muitas saíram de suas casas pelo telhado, somente com a roupa do corpo, e perderam tudo”.

O arcebispo, que está à frente da Arquidiocese desde 2013, destaca que ninguém esperava que, depois das fortes chuvas, o volume de água dos rios subisse tão depressa. Porém, segundo ele, parte da responsabilidade por essa tragédia é do poder público, que foi omisso na construção e na fiscalização de obras de contenção de enchentes. “Os diques não suportaram o imenso volume de águas. Faltaram manutenção e ações de prevenção”.

Por fim, dom Jaime relembra que a população do Rio Grande do Sul é formada por imigrantes de diversas nacionalidades que chegaram ao Estado com muita esperança de construir um futuro melhor. “Agora temos de lembrar-lhes desse sentimento. Dessa força que eles têm para reconstruir e ajudar a cuidar da Casa Comum, para que tragédias iguais a essa não aconteçam novamente”.

Foto Reportagem 02MSADez24Investimentos em ações e projetos de reconstrução

Desde os primeiros dias da enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul, o governo do Estado vem investindo em programas, projetos e ações de reconstrução. Até o momento, foram anunciados 2,2 bilhões de reais em recursos do Tesouro do Estado. Eles vêm sendo aplicados em iniciativas de curto, médio e longo prazo, que contemplam áreas como infraestrutura, habitação, defesa civil, meio ambiente, educação, saúde e assistência social.

Essas medidas  integram o Plano Rio Grande, programa de reconstrução, adaptação e resiliência climática do Estado que busca atenuar os danos causados pelas chuvas. Ele é dividido em três eixos principais de atuação: Emergencial, Reconstrução e RS do Futuro. A sociedade gaúcha participa por meio do Conselho do Plano Rio Grande, constituído por representantes do Poder Público, da sociedade civil, da população atingida pelas enchentes e do meio acadêmico-científico. Além disso, a Campanha Pix SOS Rio Grande do Sul recebe doações em dinheiro em uma conta oficial. O gerenciamento dos recursos e sua distribuição são acompanhados por um Comitê Gestor formado por integrantes dos setores público e privado. Até outubro, foram doados cerca de 138 milhões de reais.

Em novembro, o Tribunal de Contas do Estado (TCC-RS) divulgou que o governo federal encaminhou pouco mais de 33 bilhões de reais para o Rio Grande do Sul, destinando 29,5 bilhões de reais a 421 municípios afetados.

Além dessas iniciativas, diversas organizações sociais (ONGs) continuam colaborando ativamente na reconstrução do Estado, promovendo ações voltadas para a educação, saúde, alimentação e acolhimento da população.

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