Os santos na História da Igreja

jun 30, 2025Julho - Agosto 2025, Momento Litúrgico, Revistas0 Comentários

A Igreja Cristã possui uma vasta tradição secular, aliás, milenar, tendo como base os escritos bíblicos, presentes na fundamentação e na inspiração de toda a eclesiologia, ao longo dos séculos. Tal conteúdo se tornou uma fonte indispensável na celebração dos Sacramentos, na organização eclesial, na formulação dos valores morais e éticos e na devoção popular. Nesse aspecto, em especial, encontramos diversos pios exercícios e práticas litúrgicas que enriquecem e complementam a espiritualidade pessoal e comunitária dos fiéis.

Nesse sentido, integrando vários itens da devoção popular, encontramos o culto aos santos, que, bem sabemos, trata-se de uma referência aos nossos antepassados que partiram com fama de santidade e são lembrados por seus amigos e parentes. Recordamos que, desde o princípio, essa prática fez parte da espiritualidade cristã que, aos poucos, foi incorporada pelos rituais oficiais, consagrados nos livros litúrgicos e nos cultos populares. Tudo isso se vinculou sobremaneira à devoção popular.

Fazendo um retrospecto, percebemos que, em cada período histórico, identificamos a santidade com várias conotações. Essa variação se edifica a partir dos sentimentos e da religiosidade das comunidades e dos fiéis, unindo os aspectos culturais à devoção, enriquecendo a simbologia litúrgica.

Cuidadosamente, com atenção à fidelidade ao princípio do único ‘santo’ que é Jesus Cristo, o culto dos santos pertence ao mistério da fé da Igreja e contribui para o crescimento do corpo místico dos cristãos. Os santos são testemunhos de fiéis que enriqueceram a economia da salvação, pois contribuíram para a instauração do Reino de Deus. Por meio de rituais litúrgicos, da dedicação de templos, monumentos e preces, os cultos formam o calendário santoral que, passo a passo, foi sistematizado com grande profundidade. Tais etapas, bem conhecidas e aprofundadas, nos permitirão viver com fidelidade essas homenagens, para nossa santificação.

Dos mártires aos confessores

O martírio foi considerado, durante a perseguição do Império Romano à Igreja Primitiva, como uma das maiores graças do cristianismo. Os mártires sempre foram vistos como verdadeiros e fiéis seguidores de Cristo, pois não fugiram de suplícios, torturas, humilhações e, muitas vezes, da própria morte. E tais mortes foram sempre muito cruéis e violentas, pois, antes de falecerem, essas pessoas eram submetidas a vários métodos dolorosos de suplício, na tentativa de fazê-las renunciar a sua profissão de fé. Muitas vezes, as torturas mais cruéis não eram aplicadas ao próprio mártir, mas a pessoas de seu convívio, como familiares, amigos e entes queridos. Basta recordar as passagens históricas dos missionários no Japão, quando algozes torturaram os padres jesuítas com métodos cruéis e, quando estes não renunciaram à fé, passaram a supliciar mulheres e crianças convertidas ao cristianismo em suas comunidades. De fato, houve vários mártires naquele território, entre leigos, franciscanos, jesuítas e dominicanos. Esses episódios
foram relatados no filme Silêncio1, do diretor norte-americano Martin Scorsese (1942-). Nessa produção, dois jesuítas portugueses viajam até o Japão, em uma época na qual o catolicismo foi banido do território (século XVI). À procura de seu mentor, eles enfrentam a violência e a perseguição de um governo que deseja expurgar todas as influências externas.

Nesse sentido, o culto aos mártires celebra os antepassados com grande devoção por parte dos cristãos, pois eles foram fiéis até o fim. Nos primeiros séculos da Igreja, durante a perseguição romana, o culto dos mártires tinha o objetivo de conservar a memória para a devoção e a imitação de suas atitudes. Os padres antigos, também conhecidos como Pais da Igreja, ensinam que o “sangue dos mártires é a chave do paraíso”. Esse é o principal incentivo para o culto desses importantes protagonistas da história do cristianismo.
No primeiro período, o culto refere-se aos mártires, e a devoção dedicada a eles está presente na gênese das devoções aos santos nos séculos seguintes, quando o imperador romano Constantino, o Grande (272-337), extinguiu o período de perseguição, em 313. Naquela época, os principais incentivos para o culto dos santos passaram a ser grandes figuras da espiritualidade cristã: monges, monjas, eremitas e grandes pastores da Igreja, que viveram e morreram com fama de santidade.

Virtudes de confessores e pastores

O culto aos pastores refere-se aos mais importantes pastores da Igreja primitiva, particularmente os papas, os patriarcas e os bispos que dedicavam suas vidas a suas comunidades, normalmente dentro dos conselhos evangélicos de castidade e pobreza. Por sua vez, os confessores eram os fiéis que testemunharam sua fé; muitas vezes, viviam em mosteiros ou eremitérios e eram referência para os fiéis que os procuravam para serem orientados em sua espiritualidade e na vida cristã.

Todos os Santos, autor desconhecido

Todos os Santos, autor desconhecido

Segundo a tradição, o título de confessor é atribuído a bispos, monges, presbíteros ou também leigos que durante suas vidas testemunharam e confessaram a fé, testemunhada pela pregação da Palavra e pela vida coerente com os princípios cristãos, muitas vezes com sacrifícios e renúncias, sem sofrer o martírio. Quando foi finalizada a perseguição aos cristãos, primeiramente pelo Édito de Milão, promulgado pelo imperador Constantino, no ano de 313, e depois pelo imperador romano Teodósio, o Grande (346-395), com o Decreto De Fide Catholica, no ano de 380, o culto aos santos passou a ser dedicado aos que ofertavam suas vidas à missão cristã na sociedade cristã. Na ocasião do Édito de Milão, o imperador Constantino instituiu o “Dia do Sol”, posteriormente conhecido como Dies Domini (‘Dia do Senhor’), aboliu a pena de morte e organizou leis para o matrimônio (Codex Justinianus, lib. 13 it. 12, par. 2).

Com os patriarcados livres e oficializados, acabaram-se os mártires entre os cristãos no Império Romano. Ao mesmo tempo que as comunidades cultuam os mártires antigos, conservando suas relíquias e seus ensinamentos, surgem os grandes nomes da santidade, cultuados pela força de seus estilos de vida e pela espiritualidade exemplar. A grandeza da santidade não está mais em morrer pela fé, mas sim em viver servindo a Igreja e seus irmãos, sendo modelos do seguimento do Mestre.

Virtudes dos santos confessores e pastores

O culto dos santos significa muito mais que o engrandecimento de personagens da História da Igreja considerados especiais na forma de viver os preceitos de amor e fidelidade proferidos por Jesus. Eles foram praticantes das premissas das bem-aventuranças, sendo promotores da paz, misericordiosos, profetas da justiça e servidores dos irmãos. Constituem diretrizes para os cristãos com seus modos de vida, sejam como leigos, sejam como religiosos, sejam como consagrados no estado clerical.

As dioceses e os patriarcados assumem seus pastores como referência e convergência dos batizados, e estes se tornam o centro da unidade da comunidade. Mais ainda, as comunidades primitivas procuram comprovar a sucessão apostólica que dá legitimidade à igreja local. Há uma necessidade fundamental de confirmar que o pastor contemporâneo é o sucessor de algum dos apóstolos e pertence a uma linhagem de sucessores. Para comprovar essa ascendência apostólica, as igrejas locais traçam a ascendência dos pastores até chegar ao apóstolo que iniciou a Igreja local. A aclamada sucessão apostólica valoriza a comunidade e possui valor eclesial, pois é na figura do pastor (patriarca ou bispo) que se garantem a unidade e a veracidade das doutrinas e da estrutura eclesiástica.

Por esse motivo, as igrejas locais compõem o elenco de seus pastores, como os mosteiros enumeram seus abades, para legitimar sua unidade com todas as demais comunidades cristãs espalhadas pelo mundo. Os pastores (bispos e patriarcas), os confessores e os monges são modelos de virtude, pois viveram como testemunhas e modelo para as comunidades. Além disso, tiveram especial relevância em seu período histórico, garantindo a presença da Igreja no mundo romano, fazendo-se respeitar e garantindo a proteção da sua comunidade.

A santidade está na imitação de Cristo, professando Seu nome e garantindo a fidelidade de todo o corpo místico. Afinal, podemos compreender que há muitos caminhos da santidade. O martírio é o mais sublime, mas todos os modelos de vida possibilitam a santidade, se vividos com fidelidade à Igreja, servidora do Reino de Deus, como adesão a Cristo, o Santo dos santos.

Modelos de santidade

De acordo com os estilos de vida na comunidade, sobretudo na hierarquia, mas também entre os leigos, os santos do período constantiniano (séculos IV até o VI) são contemplados em três grupos distintos:

Foto MomentoLiturgico circuloC MSA JulAgo25O primeiro grupo, denominado “confessores”, compreende os fiéis que viveram pela fé, sem serem condenados ao martírio pelos inimigos da fé. Entre eles, podemos citar o papa Ponciano (175-235), o papa Cornélio (180-253) e Eusébio de Cesareia (265-339). Em seu tempo, eles foram perseguidos e exilados, mas puderam retornar a seus patriarcados e ao pontificado. Foram perseguidos pelos próprios cristãos no combate às heresias.

Foto MomentoLiturgico circuloJulAgo25MsaBO segundo grupo, considerado com bastante reverência pelos cristãos, sendo procurado para orientação espiritual e pedido de preces, era o dos monges. Adotando um estilo semelhante aos eremitas, recluso e solitário, vivendo nos desertos, ou como os cenobitas, habitando comunidades que se reuniam para a prece e o trabalho, eles seguiram fielmente os conselhos evangélicos de pobreza e castidade, para estarem mais próximos de Deus, a fim de assemelhar-se aos longos dias em que Jesus passou no deserto. Anotamos os nomes de Santo Antão Abade (251-356), São Marciano de Siracusa, entre tantos outros.

Foto MomentoLiturgico circuloAjulago25msaFinalmente, o terceiro grupo refere-se aos bispos que governavam as comunidades e eram seus “epíscopos” (guias), com austeridade e simplicidade nas vestes e nas moradias. Muitas vezes, renunciavam a suas riquezas e suas vidas abastadas para viver na simplicidade, mais próximos dos fiéis, em um estilo de vida mais comunitário. Aqui, podemos citar os exemplos de São Gregório Taumaturgo (213-270), São Martinho de Tours (316-397) e São Basílio de Cesareia (329-379).

Notas

1 SILÊNCIO. Direção: Martin Scorsese. Produção: Martin Scorsese, Gaston Pavlovich, Vittorio Cecchi Gori, entre outros. Intérpretes: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, entre outros. Roteiro: Jay Cocks e Martin Scorsese. [S.l.]: Paramount Pictures; Imagem Filmes, 2016. color, 161 mim.

Autores

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *