Uma das páginas mais lidas, apreciadas, encenadas, musicadas, comentadas dos Fioretti é certamente
a da perfeita alegria, a famosa conversa entre Frei Francisco e Frei Leão a respeito daquilo que, para um frade menor, poderia ou deveria ser a perfeita alegria. Em muitos ambientes cristãos, o simples evocar destas duas palavras “perfeita alegria” já remete para a mística franciscana e cristã da alegria. Quem não conhece tal página? Quem não se deixa tocar por ela?
NO CAMINHO DE ASSIS
Assim começa o texto dos Fioretti: “Num inverno, São Francisco vinha de Perusa com Frei Leão a Santa Maria dos Anjos; e o frio o cruciava acerbamente. Então, chamou Frei Leão que ia um pouquinho à frente, e disse: ‘Ó Frei Leão, por mais que os frades Menores deem, em toda a Terra, grande exemplo de santidade e de boa edificação, transcreve o exemplo, isto é, anota, que aí não está a perfeita alegria’.”¹ E assim vai…
Vivemos todos em nossa caminhada momentos de suave e benfazeja alegria. Os exemplos podem ser multiplicados à saciedade. Alegria de acolher a chegada do Sol pela manhã e da chuva mansa sobre a terra seca. Alegria de ver as crianças, em sua transparência, brincando ruidosas, uma senhora idosa fazendo crochê, o abraço de um amigo que veio de longe, uma peça musical que nos emociona, um livro que seduz, a sorte de ganharmos na loteria. Alegrias lícitas que nos fazem bem e tornam o fato de viver mais saboroso e menos pesado.
Nossa alegria pode ser adiada ou supressa por diversas outras situações, como a condição de um filho que precisará de cuidados a vida inteira, fracasso no casamento, assaltos e roubos, nossa incapacidade de sermos totalmente bons, a guerra interior que travamos, provações e falta de confiança no Senhor e no amanhã, que se encontra em Suas mãos, uma autossuficiência que leva a esquecer os companheiros de estrada. O mundo da indiferença, do consumismo ou da desonesta competição faz de nós, muitas vezes, pessoas tristes. Francisco vai nos dizer que nada nem ninguém pode nos tirar a verdadeira alegria. Ela aparentemente está escondida. E ela é dom de Deus. Ela está na Cruz do Amado.
Nesse contexto, não podemos deixar de evocar a busca por certas alegrias falsas que ardem como sede de muitos: o dinheiro para fazer tudo, a vida fechada sem partilha, esses homens e mulheres que buscam estar juntos em locais de música, drogas, bebedeiras, licenciosidades, alegrias buscadas na maior excitação dos sentidos. Alegrias sem partilha da verdade de cada um. Noitadas caras e que, a curto prazo, levam à morte, as viagens mais sofisticadas e o último modelo do mercado automobilístico desejado e suspirado… Alegrias? Será?
São Francisco continua sua conversa com Frei Leão sobre a perfeita alegria dos frades menores: por mais que iluminem os cegos, ergam os curvados, curem os ouvidos, expulsem demônios, ressuscitem mortos de quatro dias, ou mesmo que tenham toda a ciência da terra e profetizem as coisas futuras. Em tudo isso não está a perfeita alegria. Milagres operados? Não desconfiam os frades que, se de fato acontecidos, foram obra de Deus? Não se pode ser ladrão das coisas de Deus. Há em Francisco a consciência de sua pequenez e a necessidade de tudo atribuir ao Altíssimo e Bom Senhor.
Francisco vai aumentando lista dos “sucessos” dos frades. Frei Leão vai ouvindo pelo caminho. Sucessos sobre sucessos: falar a língua dos anjos, conhecimento do curso das estrelas e as virtudes das ervas. Que Frei Leão anote diligentemente que nisso não consiste a verdadeira alegria.

O redator do texto nos informa que essa “aula” se deu durante uma caminhada de duas milhas. Em suma, a verdadeira alegria não consiste no brilho externo, na aparência, nem mesmo no bem que é feito. A verdadeira alegria nasce lá de dentro, do coração, de um contínuo trabalho de identificação com Cristo Jesus que, sendo de condição divina se tornou pobre e humilde, fazendo o bem, sob o olhar do Pai, com simplicidade e sem qualquer manifestação de arrogância. E, sobretudo, na persistente tentativa de viver a alegria que brota da cruz, do abraço com a cruz. Poderíamos terminar aqui nossa reflexão. Há, no entanto, o famoso episódio dos frades que chegam à portaria do convento, onde são recebidos muito mal.
A Verdadeira Alegria
Frei Leão estava ansioso demais. Se, no dever cumprido, nos atos bem feitos, nas curas e na ciência, não está a verdadeira alegria, então onde ela se manifesta? Frei Leão e Frei Francisco vão chegando à Porciúncula chamada por este último de nosso convento. “Se, de repente”, diz Francisco, “um porteiro irado não nos deixar entrar, e mesmo nos reconhecendo mandar-nos embora na neve, no frio e no sofrimento, enxotando-nos…
Retornemos à força e à graça do relato: “… se nós carregarmos essas coisas com alegria e acolhermos com amor e de todo o coração as injúrias, ó Frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria. E se nós assim atormentados pela fome urgente, pela aflição do frio, batermos, gritarmos e chorarmos, insistirmos para que nos abra a porta, porque aliás a noite já se aproxima e, ele ainda mais excitado disser: “Que sujeitos descarados e desavergonhados: eu os amansarei”, e sair com um pau cheio de nós, nos agarrar pelo capuz, nos jogar por terra sobre o lodo e a neve e nos fustigar com o pau, de modo a nos encher de feridas por todos os lados, se nós suportarmos tantos males, tantas injúrias e açoites com alegria, pensando que devemos carregar as penas do Cristo bendito, ó Frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria”.
Será que nessa altura dos acontecimentos os frades já não tinham se deixado embriagar pelo sucesso e fama, pelo poder e pelo prestígio perdendo, quem sabe, a paixão pela cruz? Certamente o teor desse diálogo não surgiu do ar…
Apoio-me agora nas considerações de Robson Santarém, em A Perfeita Alegria:2
- Quantas vezes o empenho humano tem sido unicamente em obter sucesso e satisfazer seus intermináveis desejos. Prioriza-se sucesso, poder, popularidade, colocando tudo isso acima daquilo que possa gerar a perfeita alegria e dar pleno sentido à vida, o ser humano se frustra. É o risco de tornar absoluto o que é relativo.
- Em uma sociedade que privilegia a fama, o status, a aparência, a vaidade, a glória, ainda que momentânea, os bens materiais, o orgulho do poder vazio e inconsistente, o pobre de Assis vem dizer que tais eventos são incapazes de nos proporcionarem a verdadeira alegria. Paradoxalmente, ela se encontra naquilo que todos recusam. Sua alegria não se esvanece nem mesmo com o sofrimento e com a humilhação.
- Se a pessoa é capaz de não perder o equilíbrio e a serenidade em situações em que sofre injúrias, então está a caminho da perfeita alegria. Francisco convida-nos a buscar o equilíbrio emocional, dando-nos ele mesmo o exemplo.
- Desenvolver a paciência e a alegria mesmo nas adversidades. Tudo tem uma dimensão humana que é para o crescimento. Esta é a base para a perfeita alegria: suportar pacientemente as provações e dos desafios.
Concluindo com o texto dos Fioretti: “Por isso, ouve a conclusão, ó Frei Leão: entre todos os carismas do Espírito Santo que Cristo concedeu e concede aos seus amigos, está o de vencer-se a si mesmo e sustentar opróbrios de boa-vontade por causa de Cristo e da caridade de Deus.

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