O Valor do Trabalho

jul 29, 2022Espiritualidade, Maio 2022, Revistas0 Comentários

O dia dos(as) trabalhadores(as) em 1º de maio permite avaliar essa fundamental atividade humana que conta com benefícios, desafios e aspectos cristãos.

O trabalho, com frequência, recebe uma “propaganda negativa”. Trata-se daquilo que “temos que fazer” para ganhar a vida. Isso gera estresse e frustração. Coloca-nos sob o controle de chefes aos quais temos que obedecer, sem que necessariamente os respeitemos. É cansativo e nem sempre corresponde aos nossos talentos e aspirações. Consome a maior parte do nosso tempo, e só nos deixa os restos, isto é, as poucas horas da noite entre nossa chegada em casa, após nossa jornada e o tempo que precisamos para dormir, a fim de que possamos acordar com energia suficiente para irmos trabalhar no dia seguinte. Há o lado “bom” que gera dinheiro e que torna possíveis outras atividades muito diferentes: lazer, férias, viagens, restaurantes. Em suma, considera-se o trabalho como o preço salgado que temos de pagar pelos momentos em que não trabalhamos. Obviamente, é verdade que o trabalho tem certo aspecto penitencial. Quando lemos o livro do Gênesis, descobrimos que, como um castigo pelo pecado, foi dito ao homem que, daquele momento em diante, ele teria que comer o pão com o suor de seu rosto (Gn 3,19). Mas tenho certeza de que Deus não é esse capataz tão durão como pode parecer antes de o pecado entrar no mundo.

 

Todo trabalho é primeiramente “trabalho sobre nós mesmos”. Há muitas virtudes (e virtude é a beleza moral da pessoa humana) que são adquiridas primeiramente por meio do trabalho.

O próprio Deus, de acordo com Jesus no Evangelho de João, está “sempre trabalhando”, e Jesus toma o Pai como modelo do próprio trabalho de salvação em nosso favor. Precisamos redescobrir o trabalho como dom, em vez de suportá-lo como um mal necessário. Então perguntamos: “O que o trabalho tem de bom?” No mosteiro, uma das primeiras coisas que o jovem monge aprende sobre o trabalho é que é uma oportunidade de formar seu caráter e personalidade. Esta é uma das grandes graças e responsabilidades do ser humano: que nos é permitido dar um formato de quem nós somos, a saber, por meio daquilo que fazemos. Nesse sentido, todo trabalho é primeiramente “trabalho sobre nós mesmos”. Há muitas virtudes (e virtude é a beleza moral da pessoa humana) que são adquiridas primeiramente por meio do trabalho: o cuidado, a busca por excelência, a perseverança, a atenção, a capacidade de transcender nossos humores para o desempenho de uma tarefa, o cultivo da calma e da prontidão como o ambiente emocional apropriado para o trabalho, o desenvolvimento de habilidades que, de outra forma, permaneceriam latentes. Aqui no mosteiro, por exemplo, nós preparamos nosso alimento. Mas quase todo rapaz que entra não tem a menor ideia de como cozinhar. O que acontece? Ele aprende. Ele é posto por alguns meses, uma ou duas vezes por semana como cozinheiro auxiliar e, cerca de seis meses depois, ele se forma, para se tornar, ele mesmo, um dos cozinheiros principais, capaz de formar novos aprendizes. Isso traz à mente o fato de que o trabalho é também uma escola de virtudes sociais, interpessoais. Para ser honesto, em nossa comunidade, é a área que gera mais briga. Pessoalmente, considero isso totalmente natural. Colaboração, dar e receber, a capacidade de dar ordens e de obedecer – tais qualidades não são inatas. São adquiridas por meio do trabalho em comum. Se elas já são indispensáveis quando as pessoas com as quais se trabalha são estranhas ou meramente colegas, mais ainda, no nosso caso, que se trata de irmãos da própria família religiosa.

Quando trabalhamos, temos um contato mais íntimo, mais imediato com as maravilhas da criação. O trabalho possibilita-nos apreciar a madeira, o ferro, a roupa, a pedra. Ao modelá-los, eles revelam sua beleza e sua dignidade a nós.


Estreitamente relacionada a isso, está a ideia de que o trabalho é um veículo de nossa vida, uma chance de “realização pessoal” de “nos expressar”. Podemos achar tudo isso fácil de aceitar com referência ao assim chamado “trabalho criativo”: o trabalho de um compositor, um inventor, um escritor, um político, um psicólogo. Porém, de fato, quase todo o trabalho é criativo. Há situações-limites – em prisões, campos de concentração – quando se dá o trabalho brutal e sem sentido para se fazer, como forma de humilhá-las. Os antigos monges que inventaram a ideia do “tripé” monástico (oração litúrgica, oração pessoal e trabalho) compreenderam que nós, como seres humanos, precisamos de atividade física, a qual pode ser um ambiente fértil para nossa vida espiritual. Ninguém é capaz de rezar salmos durante 16 horas por dia ou permanecer na capela por tantas horas. Não corresponde à nossa estrutura. E o trabalho, realizado de forma pacífica e regular, não interrompe nossa união com Deus. A maioria das tarefas não são de todo absorventes: mesmo quando lhes damos a concentração que elas merecem: ainda deixam parte de nossa mente livre. O que fazemos com essa liberdade? Muitas pessoas “sintonizam” com as próprias emoções e têm longos monólogos interiores. Outros escutam música por horas a fio.

Tocamos a criação muito diretamente em nosso trabalho. E onde quer que se toque a criação, ela nos fala de Deus. Finalmente, o trabalho oferece-nos a alegria de ser generosos.

Foto TemasDeEspiritualidade 02Maio22R

Outros se engajam em conversas constantes com seus companheiros de trabalho. Mas há a possibilidade de se deixar esse espaço de liberdade em meio a nossas tarefas um espaço para reflexão. Paradoxalmente, ao requerer parte de nossa atenção, o trabalho permite que o que resta se focalize em Deus, na própria vida, em uma passagem das escrituras ou nas necessidades de outras pessoas. O trabalho físico, de alguma forma, libera o nosso pensamento. E, do ponto de vista mais alto, o trabalho pode nos capacitar a compor o nosso Cântico das Criaturas. Estamos familiarizados com o poema extático composto por São Francisco no fim de sua vida, quando ele louvou o Senhor pelo Sol e pela Lua, pelo fogo e pela água, pela vida e pela morte. Quando trabalhamos, temos um contato mais íntimo, mais imediato com as maravilhas da criação. O trabalho possibilita-nos apreciar a madeira, o ferro, a roupa, a pedra. Ao modelá-los, eles revelam sua beleza e sua dignidade a nós. Temos colmeias em nosso mosteiro e processamos mel para vender. Às vezes, eu invejo os monges que trabalham nesse departamento, pois eles experimentam diariamente a suavidade do mel, sua doçura, seus efeitos nutrientes e suas qualidades medicinais. Tocamos a criação muito diretamente em nosso trabalho. E onde quer que se toque a criação, ela nos fala de Deus. Finalmente, o trabalho oferece-nos a alegria de ser generosos. O presente de aniversário que você compra, as flores que envia para sua mãe ou para sua namorada, os ingressos para o concerto que oferece a um amigo são preciosos, porque são fruto de seu trabalho. Como seres humanos, precisamos ter maneiras de demonstrar amor – flores, presentes, ingressos – e o pagamento que recebemos por nossos trabalhos pode ser investido em símbolos de afeição. Em nosso caso, nossas constituições monásticas nos dizem que parte da renda, do mosteiro, deve se dedicada às pessoas carentes. Esta é verdadeiramente uma das bênçãos do trabalho. Ele nos capacita em ser “os guardiães” de nossos irmãos. Caim pensou que ser o guardião de seu irmão era uma tarefa pesada e injusta imposta por Deus. Ele estava errado. É um privilégio!

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