É mês de Maio, mês de Nossa Senhora! A 13 de maio na cova da Iria, dos céus aparece a Virgem Maria. A três pastorinhos, cercada de luz, visita Maria, a mãe de Jesus. Assim cantará o povo devoto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima nas novenas, tríduos, celebrações a ela dedicadas. É um portento de fé e devoção que há cento e cinco anos ecoa nos corações piedosos e marianos de todo o mundo, desde a então pequena aldeia de Fátima, em Portugal. É sabido que a Virgem Maria manifestou-se a três pequenos pastores, numa das poucas aparições marianas que conta com o reconhecimento da Santa Sé como sendo autêntica. No alto de uma azinheira, três crianças viam e ouviam as mensagens oferecidas pela mãe de Jesus. Uma delas – Lúcia – era prima das outras duas crianças e tinha dez anos quando dos acontecimentos maravilhosos que os envolveram; adulta, tornou-se religiosa carmelita e faleceu em fevereiro de 2005. Mas é para a prima e o primo de Irmã Lúcia que queremos voltar nosso olhar e nosso coração nesse artigo.
De Aljustrel para o mundo

Na casa dos camponeses de retidão católica Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus, já havia cinco filhos. No dia 11 de junho de 1908, nasceu o sexto rebento – Francisco Marto. Dois anos depois, num dia 5 de março, chegava Jacinta, a sétima e última filha dos camponeses da cidade portuguesa de Aljustrel. Ainda pequeninos, na simplicidade e exigente vida rural, bem cedo ficaram responsáveis pelo pastoreio do rebanho da família na terra pedregosa e de arbustos medianos. No decorrer do ano de 1916, passaram por uma experiência que só mais tarde se tornaria clara – por três vezes contemplaram a visão de um anjo numa laje de pedra e também junto a um poço. Era a preparação angelical da visão maravilhosa que viveriam no ano seguinte: por seis vezes, contemplaram juntos a visão da Virgem Maria, que lhes pedia para anunciar que desejava orações e sacrifícios para reparar os pecados da humanidade contra Deus e a conversão de todas e cada uma das pessoas humanas, sempre pecadoras. Ela insistia que rezassem e motivassem a oração cotidiana, confiante e penitente do Santo Rosário.
A fama das aparições se espalhava. Devaneio, farsa, manipulação? Realidade, anúncio, presença da Virgem Maria? As opiniões se dividiram, os ânimos se acirraram. Três crianças que enfrentavam desconfianças por parte do padre do local e de tantas outras pessoas. As famílias intimadas a depor, os pequenos pastores submetidos a exaustivos interrogatórios, chegaram a ser sequestrados, presos em cadeia pública junto com detentos adultos, ameaçados de morte. A singeleza inocente vista como ameaça aos poderes anticlericais e ateus. Corajosa e espantosamente, apesar de todo o sofrimento, nunca renegaram o que viram nem a viva experiência divina que tiveram.
Francisco – a quem a Virgem concedeu apenas o privilégio de vê-la, mas não de ouvir ou falar com ela – impôs-se tantos sacrifícios e jejuns para reparar os pecados da humanidade, que chegou a não ir mais para a escola vivendo recluso e orante, apesar de Nossa Senhora ter recomendado que aprendesse a ler e escrever. Sua saúde fragilizou-se e, acometido pela gripe na grande epidemia de 1918, padeceu sete meses, até fechar os olhos nesse mundo e abri-los no céu, para contemplar a visão beatífica do Filho de Maria. Era a noite de 4 de abril de 1919.
de Fátima e os pastorinhos, iStockPhoto
Jacinta – a quem a Virgem concedeu o privilégio de vê-la e ouvi-la – também fragilizou sua imunidade diante dos sacrifícios e privações que se impôs, após as visões doloridas que a Virgem permitiu que presenciasse do sofrimento dos pecadores, em desagravo dos pecados da humanidade. A mesma fatal gripe na epidemia de 1918 acometeu a menina do senhor Manuel e de Dona Olímpia. Jacinta sofreu ao ver a morte do irmão, tão menino e com quem viveu tão venturosa quanto penosa aventura. Entre internações e transferências de Casa de Saúde, chegou a ser submetida a procedimento cirúrgico, mas sem sucesso. Garantia que continuava a receber visitas da Mãe de Jesus nos lugares onde esteve internada. Mais de um ano padecendo com a gripe e as consequências pulmonares que a acometera, a menina descansou nos braços do Cristo na noite de 20 de fevereiro de 1920.
Do céu para atender as pessoas da Terra
Duas pequenas crianças portuguesas do começo do século XX, inocentemente devotas, que padeceram sob o peso de uma epidemia – que souberam na carne o que temos vivido e passado nesses tempos pandêmicos – foram invocadas pelos pais, familiares, amigos e religiosas carmelitas de clausura de Campo Mourão (PR), juntamente com a Virgem do Rosário de Fátima para virem em socorro do pequeno Lucas, menino brasileiro que, em 2013, sofrera traumatismo craniano após uma queda de mais de seis metros. O menino que os médicos reconheceram ter poucas chances de vida e, caso se recuperasse, teria profundas sequelas, hoje é uma criança absolutamente saudável. O milagre foi reconhecido pela Igreja e aceito para a canonização dos irmãos Jacinta e Francisco. Crianças no céu vindo em socorro da criança na Terra.
Ao completar 100 anos das aparições de Fátima, o Papa Francisco presenteou a Igreja com o reconhecimento da santidade dos pequenos irmãos da cidade de Aljustrel e nos alertou na homilia da cerimônia de canonização: “Temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a ‘Jesus Escondido’ no Sacrário. (…) Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”. Assumamos o compromisso de sermos como pede o Papa e valorizar, na Igreja, o rosto das crianças e dos jovens, dar-lhes protagonismo, e pedir a graça de termos corações tão fiéis e corajosos quanto aqueles dos pequenos pastores de Nossa Senhora.

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