A Igreja, desde seus primórdios, exaltou a figura da Mãe de Jesus. E, ao longo dos séculos, tomou o mês de maio, primavera no hemisfério norte, como o mês mariano por excelência. Essa opção é uma forma de reconhecimento e de gratidão à Mãe de Jesus, uma vez que Ela participou dos últimos passos de seu Filho e não se ausentou da presença d’Ele em nenhum instante.
NOS EVENTOS PASCAIS: DA CRUZ À RESSURREIÇÃO
Sem nos determos nos acontecimentos da infância de Jesus, vamos agora contemplar Maria na hora da morte e da ressurreição de seu Filho. Mesmo naquelas passagens em que o escritor sagrado não cita seu nome, podemos crer que ela está participando e revelando seu Filho ao mundo. É mãe e, ao mesmo tempo, primeira discípula. Podemos imaginar Maria no meio da multidão, sendo humilhada, pois é a Mãe daquele que é levado a um julgamento sumário, injusto e tendencioso. Podemos imaginá-la próxima, mesmo do Getsêmani, quando a aflição de seu Filho se convertia em gotas de sangue. Maria do silêncio e da solidariedade não deixa de revelar sua maternidade humana e divina. Com certeza, seus olhares se cruzavam e se comunicavam, com cumplicidade e piedade.
Maria viveu cada momento dos últimos dias de Jesus Cristo, vividos liturgicamente no Tríduo Pascal e especialmente na Vigília da Ressurreição. Com exaltação, Maria participa da Festa Pascal da Vigília que desponta como a grande festa da vitória da vida.
As “Normas universais sobre o ano litúrgico” (n. 21), que estão na Introdução Geral ao Missal Romano (IGMR), apresentam a Vigília Pascal como o tempo em que a Igreja espera, velando, a ressurreição de Cristo. O Missal afirma que esta é “a noite de vigília em honra do Senhor” (Ex 12,42). Maria sempre está vigilando com os filhos da Igreja, desde os apóstolos até nossos dias. Ela aparece como uma mãe cuidadosa que segue seus filhos pelos séculos, como caminhou com seu Filho na trajetória do projeto divino.
Como nos tempos de Jesus, quando os discípulos ficaram em vigília, assim que o Senhor foi levado para a prisão pelos soldados, ainda hoje revivemos estes momentos aflitivos. Por certo, Maria estava por perto, assim como as mães que nunca abandonam seus filhos nas suas dores. Com a presença de Maria, a liturgia pascal incentiva a comunidade a viver o mistério pascal e a exprimir o mistério da passagem das trevas para a luz, ou seja, da morte para a vida. Como Maria e os discípulos, os fiéis saem fortificados da celebração, pois a partir dela, conquista-se a convicção de que todos os males podem ser vencidos.
TEMPO PASCAL E O QUERIGMA DA RESSURREIÇÃO
Nas manifestações do Ressuscitado, que ocorre em vários episódios celebrados nas semanas pós-pascais, Maria e os discípulos, assim como outros grupos presenciam o grande milagre.
A mensagem da celebração é o “querigma pascal”, isto é, a proclamação primitiva do acontecimento central da fé cristã (Jesus Cristo morreu e ressuscitou), e o convite a participar da vida nova em Cristo. Assim, a liturgia da solenidade pascal e todas as celebrações do Tempo Pascal celebram o evento pascal como “dia de Cristo Senhor”. Participar de tais celebrações leva cada cristão a entrar numa vida nova em Cristo. Maria é a porta dessa grande realização pascal. Como na intensidade das celebrações do Tríduo Pascal, as comemorações pascais de cada domingo do ano são muito participadas e aprofundam o ritmo de envolvimento na graça da esperança da vida eterna e na confiança da presença de Deus em nossas vidas.
Desde a antífona de entrada se anuncia o sentido teológico-litúrgico da celebração, com esta aclamação: “Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo; puseste sobre mim a tua mão, tua sabedoria é admirável. Aleluia”. Todos os cantos entre as leituras são marcados por expressões de júbilo e alegria, que devem ser proclamados com vigor e entusiasmo. Também a sequência pascal, que é uma poesia em forma de diálogo, narrando a ressurreição e a experiência exultante de Maria Madalena que encontra o Cristo Ressuscitado, não pode ser proclamada de forma apagada, mas com voz triunfante e exaltada. A expressão “ressuscitou de verdade”, por exemplo, deve externar a convicção de todos os celebrantes.
As equipes devem se dispor de tal modo, que esta celebração tenha seu valor, vigor e dinamicidade de uma
celebração pascal, que proclama o ápice da fé cristã: a Ressurreição de Jesus Cristo. Vale lembrar que a Páscoa de cada ano é uma fonte de renovação e avivamento da comunidade, que conquista novo alento e entusiasmo, para continuar sua caminhada e ser artífice do Reino de Deus na história humana. É a nova criação, a nova aliança e o dom do Espírito que complementam, pela Ressurreição, a obra redentora de Deus.
ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA NO TEMPO PASCAL
Todos os domingos do tempo pascal não são mais denominados “domingos depois da páscoa”, mas “domingos da páscoa”. Os domingos recebem a denominação de primeiro, segundo, e assim por diante, até o oitavo Domingo da Páscoa, que é o dia de Pentecostes. Esses domingos não podem ser substituídos por nenhuma outra celebração ou solenidade, o mesmo acontecendo, aliás, durante a Quaresma e o Advento.
A liturgia do período pascal visa viver mais intensamente o mistério pascal, como unidade da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Assim são englobados os mistérios da Ascensão de Cristo e a vinda do Espírito Santo.
Para sentir a presença de Maria e dos Apóstolos, como forma de atualizar a espiritualidade pascal, as primeiras leituras deste tempo são tiradas do livro dos Atos dos Apóstolos, que descrevem a vida, o crescimento e o testemunho da Igreja Apostólica. Por sua vez, as segundas leituras são alternadas contemplando a primeira epístola de Pedro, a primeira epístola de João e o livro do Apocalipse, textos que apresentam com maior profundidade o espírito do Tempo Pascal, que ressalta a firme esperança no Senhor, promovendo a alegria plena e a fé absoluta na sua vitória sobre a morte, garantia de nossa vitória sobre todos os males e de nossa vida nova no Ressuscitado. Para coroar o sentido da glorificação do Filho de Deus e a exaltação de Maria Santíssima, os textos proclamados nos evangelhos estão em relação direta com o evento pascal.
Vejamos a mensagem de cada domingo do Tempo Pascal. No Segundo Domingo, narra-se a aparição de Jesus aos apóstolos e a incredulidade de Tomé, com a manifestação do Senhor. No Terceiro Domingo, se lê sobre a belíssima aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, com a partilha do pão e seu reconhecimento pelos discípulos peregrinos. No Quarto Domingo, proclama-se a parábola do Bom Pastor (Jo 10, 1-10). Nos domingos seguintes são proclamados os discursos e orações de Jesus, enunciados depois da Ceia, a saber, no Quinto Domingo, Jesus se apresenta como caminho para chegar ao Pai (Jo 14, 1-12); no Sexto Domingo, Jesus apresenta o Espírito da verdade, que faz conhecer o Pai (Jo 14, 15-21); e, no Sétimo Domingo, celebramos a Ascensão do Senhor (Mt 28, 16-20), que tem grande ênfase missionária, uma vez que os discípulos são convocados pela voz do anjo, a anunciar a boa-nova da libertação. No evangelho do Oitavo Domingo, que veremos separadamente, é narrada a descida do Espírito Santo (Jo 20, 19-23): o Pentecostes! Maria participa desse plano de salvação para toda humanidade e vive próxima dos discípulos como Mãe e protetora.
MARIA, A MÃE GLORIFICADA, NA LITURGIA DO TEMPO PASCAL
O Tempo Pascal, que é a soma da Oitava da Páscoa e das semanas que vão até Pentecostes, tem por objetivo celebrar e aprofundar o mistério pascal. Todos os eventos da manifestação do Senhor vivo e ressuscitado vão conduzindo os fiéis para a celebração de Pentecostes e para a glorificação de Maria, coroada como Rainha do Céu e da humanidade.
O Tempo Pascal é o tempo do nascer, crescer, produzir frutos e viver, a partir do impulso da vitória de Jesus sobre todos os sinais de morte da história humana. Depois de ter celebrado os mistérios de Cristo Senhor, importa viver este período como desdobramento do mesmo mistério da fé cristã. Lucas, evangelista mariano, apresenta o Tempo Pascal a partir de duas óticas, quer sejam, a Páscoa e o Pentecostes judaicos. Para São João (Jo 20, 22), os dois mistérios acontecem no mesmo dia, pois o Senhor ressuscitado, renasce no mundo e, na ressurreição, envia o Espírito Santo. Esses mistérios celebrados revigoram a opção batismal dos cristãos e sua ação missionária na comunidade. Pela ação missionária, os cristãos se apresentam no mundo como continuadores da mensagem de Jesus, e sua ressurreição garante a veracidade da sua mensagem. O mistério pascal fundamenta todo o ensinamento de Cristo e a certeza da sua ressurreição torna Cristo o centro da ação humana na luta pelo Reino de Deus. Esse tempo tem a função de aprofundar e viver o mistério pascal, por isso, simbolicamente, durante todo esse período o círio pascal deve ser aceso nas celebrações, representando a presença do Cristo ressuscitado e proporcionando uma atmosfera festiva. O círio pascal continua aceso depois deste período, para simbolizar a luz fundamental da celebração do batismo.
MAIO, UM MÊS MARIANO
Quando folheamos as tradições cristãs, buscando nas primeiras páginas litúrgicas do povo de Deus, encontramos desde muito cedo, poemas e narrativas que contemplam a Mãe de Jesus Cristo. Já os primeiros escritores sagrados, dizem algo de Maria. Justino de Roma (+165) a considera uma “anti-eva”, pois restaura a obediência e o “sim” à vontade Deus que nossos primeiros pais, Adão e Eva, haviam perdido pela desobediência. Agostinho, por exemplo, apresenta Maria como
corredentora e numa tradição contínua, muitos outros cantam as belezas e o papel de Mariana História da Salvação, abrindo uma trajetória mariana que atravessa os séculos. No caminhar dos tempos, sobretudo a partir da Idade Média, o mês da primavera, que alegra a natureza com cores e flores, passou a ser dedicado a Maria. Desde então, procissões, coroações e rosários são dedicados à Mãe de Jesus. Todos os santos cultivaram uma grande devoção a Mãe de Jesus, de modo que ela estimulava o seguimento de Jesus. Se hoje, os movimentos marianos repetem que “Maria passa à frente”, sabemos desde os momentos da vida de Jesus – e também depois, na vida dos discípulos –, que Maria sempre esteve presente em nossas vidas e na vida da Igreja.

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