“Con historia y raíz”1
Era primavera naquele 7 de outubro de 1930, quando floriu o terceiro rebento no lar de Dona Carmem Echagüe, que foi mãe de sete filhos. Ela e o esposo, Adolfo Mugica, apreciaram a beleza do menino que seria batizado com o nome de Carlos Francisco Sérgio Mugica Echagüe2. Tanto pelo lado materno, quanto pelo lado paterno, o menino Carlos trazia em si as referências de famílias tradicionais, politicamente envolvidas, ricas e conservadoras, tanto que o senhor Adolfo seria deputado federal e Ministro das Relações Exteriores. Moradores de um bairro nobre, com funcionários para atender às demandas da casa, Carlos e os irmãos viviam sob os rigores das regras domésticas. Entre altos e baixos no desempenho escolar, o menino estudou em escolas públicas, acompanhado pelo desejo da mãe de que se tornasse sacerdote e os sonhos do pai de que seguisse a carreira acadêmica. Participando da Ação Católica na Paróquia do Santíssimo Sacramento, isso lhe despertou uma paixão de toda a vida: o futebol. Por fim, sua trajetória estudantil desembocou no Direito e tudo indicava que seria feita a vontade do pai.
No entanto, por ocasião do Ano Santo de 1950, proclamado pelo papa Pio XII (1876-1958), Carlos e outros amigos foram convidados por seu confessor para participar das celebrações no Vaticano. Movido pelas palavras que ouviu do pontífice na Praça São Pedro, o filho de dona Carmem voltou para casa disposto a abraçar o sacerdócio e a enfrentar a oposição do senhor Adolfo. Como era habitual que se entregasse apaixonadamente àquilo que despertava seu interesse, o jovem foi muito convincente na conversa tensa com o pai. Em 1952, ingressou no Seminário Metropolitano de Buenos Aires. Nas vésperas do Natal de 1959, com mais catorze companheiros, ele foi ordenado sacerdote pela imposição das mãos do cardeal Antonio Caggiano (1889-1979). Durante seu percurso ministerial, foi realizar o trabalho pastoral na Diocese de Reconquista, mas não tardou a retornar para Buenos Aires, onde se tornou secretário do arcebispo Caggiano, professor universitário, vigário na Basílica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, atendendo à classe alta da área paroquial. Foi também designado assessor da Juventude da Ação Católica e no acompanhamento de secundaristas e universitários portenhos. Aquele sacerdote ruivo, de encantadores olhos azuis, descontraído e divertido, com jeito de galã de cinema, jogador de futebol, que apresentava um programa de rádio semanalmente, era um chamariz para a juventude que se concentrava em torno dele e o admirava.
Em 1961, padre Mugica foi designado capelão da Escola Paulina de Mallinckrodt, lugar de educandos de famílias muito bem posicionadas financeiramente. Para atender aos estudantes em situação de vulnerabilidade, havia uma extensão da escola próximo à Villa 31 (ou Villa de Retiro, que atualmente leva o nome do sacerdote), periferia carente de todos os equipamentos públicos, muita miséria, desempregados, subempregados, esgoto a céu aberto. Foi ali, no meio daquelas pessoas, que o menino do rico Bairro Norte encontrou o sentido de sua vida e aprendeu a viver o Evangelho.
“Vuelo para el que se anime a soñar”
Foi imenso o entusiasmo com que padre Mugica acolheu, em 1959, o anúncio de São João XXIII (1881-1963) aos cardeais de que convocaria um Concílio para a Igreja. A trajetória pastoral do sacerdote portenho era a concretização do sopro do Espírito que impulsionou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Tanto quanto se envolveu com missões em regiões muito carentes da pátria argentina, organizando os jovens católicos que se sentiam transformados ao ver a condição indigna de vida de tantos conterrâneos, o presbítero sofria acusações, próximo ao arcebispo, por parte de irmãos de sacerdócio e de senhoras abastadas. Foi pioneiro no envolvimento dos padres com os villeros, mas quanto sofreu por essa opção – para encontrar meios de emancipar os lascados das Villas e para os enfrentamentos cruéis que teve de amargar por parte de pessoas que se diziam cristãs. Em 1968, com outros sacerdotes, inspirados na Carta Encíclica Populorum Progressio: sobre o desenvolvimento dos povos (1967)3, de São Paulo VI (1897-1978), ele ajudou a fundar o Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro Mundo, para melhor organizar as ações em meio a tantos argentinos sofridos.
A cada passo, padre Mugica firmava seu compromisso com os empobrecidos e confrontava os poderosos, quer eclesiais, quer políticos, quer econômicos. Angariava devotos, tanto quanto suscitava inimigos. Tendo viajado para estudos em Paris, presenciou os acontecimentos do chamado Maio Francês, em 1968, em que a juventude e a classe trabalhadora se insurgiram contra as hipocrisias do capitalismo liberal e todas as opressões. Em uma avalanche de acontecimentos, o sacerdote, com o auxílio de outros sacerdotes e familiares, construiu a Capela Cristo Operário na Villa 31, no mesmo período em que era capelão da Paróquia Francisco Solano. Na capela, realizava missas, mesmo antes de ficar pronta, e atendia aos trabalhadores portuários, às mães de famílias carentes, enfrentava a polícia para que libertasse aqueles que eram presos ou punidos injustamente. O clima político na Argentina era tenso. Governos autoritários, perseguições. Naquele contexto, padre Carlos optou pelo socialismo humanista e terceiro-mundista apoiando o ex-presidente argentino Juan Domingo Perón (1895-1974), que, na ocasião, estava em exílio na Europa. Ele acreditava que a expressão mais à esquerda do peronismo era a saída para atender às necessidades dos mais carentes. Seu envolvimento político com Perón chegou ao ponto de ser, com padre Jorge Vernazza (1925-1995), e sem a autorização dos superiores eclesiais, convidado a ir no mesmo voo fretado que transportou o político argentino em um primeiro retorno ao país.

O filho de dona Carmem viu a nação mergulhar no assassinato de estudantes e trabalhadores, padres sendo presos, atentados por parte da direita e da esquerda; políticos sendo sequestrados por grupamentos de esquerda, inclusive com a participação de jovens que ele havia orientado. Sentiu-se responsável porque não pôde evitar que agissem dessa maneira. De modo leviano e sem o devido aprofundamento de suas opções políticas, foi acusado de ser um radical a favor da luta armada e contra a propriedade privada, acusado de hipocrisia por ser filho de família abastada que se juntou aos pobres das Villas para manipulá-los. Sua situação na hierarquia da Igreja e das várias correntes políticas se deteriorou. Sua casa foi atacada com bomba, para que desistisse de seu engajamento social. Muitos o instaram a deixar o país. Mas, por amor a Cristo, à Igreja, ao povo sofrido e a sua consciência, ele permaneceu.
“Qué cielo podrá descubrir”
O ex-presidente Perón retornou ao poder na Argentina. Padre Mugica foi convidado a ser assessor do Ministério de Bem-Estar Social, por seu conhecimento da realidade dos vulneráveis e de toda sua capacidade técnica. Porém, suas discordâncias com o ministro da pasta em relação ao modo de conduzir as ações e sua renúncia ao cargo que assumiu sem receber nada colocaram-no ainda mais em choque com diferentes atores políticos. Em 11 de maio de 1974, após a tradicional partida de futebol na Villa 31, ele se dirigiu à Paróquia de São Francisco Solano para presidir a Ceia do Senhor. Ao sair da igreja, chamaram-no pelo nome. Ele se virou e foi alvejado. Também um amigo foi ferido. A despeito dos esforços para tentar salvar sua vida, padre Mugica faleceu às 22 horas desse dia, dizendo a um amigo que o acompanhava: “Agora, mais que nunca, é preciso estar ao lado do povo”. Geralmente se aponta a Aliança Anticomunista Argentina como responsável pelo assassinato, mas há quem indique o grupo de esquerda Montoneros ou até mesmo a estadunidense Central Intelligence Agency (‘Agência Central de Inteligência’ [CIA]). Diante das controvérsias, guardemos as palavras do confessor e amigo de padre Carlos Mugica, o monge beneditino Mamerto Menapace (1942-): “Pouco importa o nome de quem o matou. Conhecemos sim o nome e sobrenome de quem foi morto. Matou-o a violência das sombras e seu nome está escrito no livro da vida”.
É importante ressaltar que o arcebispo citado no primeiro parágrafo deste artigo é, atualmente, o sumo pontífice da Igreja. Quando da celebração da memória de cinquenta anos do assassinato violento de padre Carlos Mugica, o papa Francisco enviou uma mensagem, em que afirma de modo contundente: “O padre Carlos nos encoraja que em cada bairro se fortaleça uma comunidade [cristã] que se organiza para acompanhar a vida do nosso povo e nos desafia a lutar contra todo tipo de injustiça, a ter um diálogo inteligente com o Estado e com a sociedade […] nos ensina a não nos deixarmos arrastar pela colonização ideológica, nem pela cultura da indiferença. […] Peçamos ao Senhor que os princípios da Doutrina Social da Igreja frutifiquem em nossas comunidades e, através delas, em toda vida social”4.
Padre Carlos Mugica, sacerdote e mártir, nutria um profundo amor pela Igreja, por Jesus Cristo e pelo Reino. Ele queria muito que a libertação fosse plena para todas as pessoas, também nos aspectos políticos, sociais e econômicos; tinha plena clareza de que a libertação total, a vida em abundância, só nos é dada pela salvação que nos é garantida por Cristo. Nada mais justo que concluamos este artigo com suas palavras: elas nos firam e nos comprometam a trazer a todas as pessoas a libertação.
“[Senhor,] Tu que nascestes pobre e que vivestes sempre junto aos pobres para trazer a todos os homens a libertação. Tu que virás, por fim, ao final dos tempos, para preencher nosso coração de alegria e plenitude. Glória a Deus que é amor e, na Terra, Paz aos homens que lutam por justiça. Nós te louvamos porque lutamos para que nossas crianças famintas comam. Nós te glorificamos porque queremos destruir já os instrumentos de tortura. Nós te damos graças porque há homens que ofertam sua vida na revolução. Nós te damos graças, Senhor, porque não sois um Deus espectador, mas sim um Deus feito homem, que padece os padecimentos dos homens. […] Tu que nos arranca do egoísmo, impulsionando-nos a lutar contra a exploração, tem piedade de nós. Tu que estás com o Pai vivendo na plenitude do amor, tem piedade de nós. Tu que estás onde estaremos todos, tem piedade de nós. Senhor Deus, Cordeiro de Deus, que segues sangrando nos lenhadores do Norte, nos mineiros bolivianos, nas favelas do morro, no frio dos pobres, na carne do torturado. Sangrando. Creio no surgimento do homem novo, do homem pleno de Deus. Creio na expansão da vida plena… Para sempre. Amém”5.
Notas
1 Neste artigo, os subtítulos (mantidos em espanhol) foram inspirados na canção “Este país”, interpretada pelo argentino Ignacio Copani (1959-). Ela pode ser apreciada em: https://www.letras.mus.br/ignacio-copani/655746/. Acesso em: 28 jul. 2024. Segue a tradução dos subtítulos: ‘Com história e raízes’; ‘Voo para quem ousa sonhar’; ‘Que céu poderá descobrir?’
2 Para compor o perfil de padre Carlos Mugica, utilizamos as seguintes fontes:
• https://elforjista.com/padremugica.html. Acesso em: 28 jul. 2024.
• REATO, Ceferino. Padre Mugica ¿Quién mató realmente al primer cura villero? Los usos políticos de un asesinato que conmovió a la Argentina. Buenos Aires: Planeta de Libros, 2024.
3 Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_26031967_populorum.html. Acesso em: jul. 2024.
4 Disponível em: https://encamino.org.ar/carta-del-papa-francisco/. Acesso em: 28 jul. 2024.
5 Disponível em: https://elforjista.com/padremugica.html. Acesso em: 28 jul. 2024. (Tradução, adaptação e destaques nossos).

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