À medida que as eleições 2022 se aproximam, nossa revista MSA, por meio desta seção, oferece uma reflexão e uma visão sobre o cenário e sobre o possível rumo a ser dado ao nosso país.
Durante um largo período do século passado, houve uma procura ativa por uma “terceira via”, que não fosse nem o capitalismo – democrático, mas excludente –, nem o comunismo – igualitário, mas ditatorial. Falava-se muito na social-democracia como essa terceira via. Alguns, não querendo se vincular aos partidos com esse nome, falavam em socialismo democrático. Houve quem imaginasse que a doutrina social católica fosse essa terceira via (ideia errônea, pois a Igreja não propõe programas ou ideologias políticas). As quedas do Muro de Berlim e da União Soviética arrefeceram essa tendência, que retornou mais recentemente com as crises do capitalismo globalizado. Se popularizaram novos termos, como “liberalismo social”, “populismo social” ou “democracias liberais”.
Uma conclusão inevitável, nessa confusão terminológica, é que não existe uma “terceira via” única. A modernidade trabalhou sempre numa visão dualista do mundo, “nós” contra “eles”. Nessa lógica, um caminho diferente era obrigatoriamente visto como intermediário e único. O pluralismo contemporâneo mostrou que sempre existem muitas facetas da realidade, diferentes respostas para os problemas, muitas vias políticas. Não existe uma única “terceira via”, mas sim muitas – e que não devem ser entendidas apenas como pontos intermediários numa escala. Num esquema simplificado, temos nos extremos tanto ditaduras de direita quanto de esquerda, democracias tanto de esquerda quanto de direita. Não dois polos de uma linha, mas quatro cantos de um quadro; não uma reta que alinha as opções, mas um plano cheio de possibilidades.
Contudo, a polarização política no Brasil ressuscitou o conceito de “terceira via”, mas numa acepção condicionada por nossa história política – e que como tal deve ser compreendida.
O fracasso das elites políticas
A construção de uma democracia estável e comprometida com o bem comum é um processo lento, de fortalecimento da sociedade civil, em suas várias instâncias. Vai dos exemplos de participação política e responsabilidade cívica que os pais dão a seus filhos até a relação harmônica e o controle mútuo entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, passando pelo fortalecimento de sindicatos e organizações sociais. Sendo obras humanas, as democracias nunca são perfeitas, precisam de sociedades vigilantes e fortes para serem conduzidas no sentido do bem comum. Além disso, nas democracias bem-sucedidas, a distância entre as elites dirigentes e a sociedade foi reduzida, ao menos em alguns períodos, fazendo com que os políticos tenham que prestar contas de sua atuação para organizações e grupos sociais aos quais se vinculam.
Em nosso país, as elites políticas foram se perpetuando ao longo do tempo, mantendo suas prerrogativas e sua influência, mesmo quando o País passava por mudanças políticas aparentemente radicais. Novas forças políticas, quando surgiam, faziam pactos com as já existentes, por necessidade ou oportunismo, afastando-se dos interesses e da efetiva prestação de contas a suas bases sociais. O exemplo típico dessa tendência, no Brasil atual, é o bloco parlamentar conhecido como “Centrão”. Reúne políticos sem ideologias ou programas definidos, que sempre apoiam o chefe do Executivo em exercício, em troca de vantagens individuais ou para sua base eleitoral. Com as devidas mudanças geracionais, permanece com o governo desde o regime militar de 1964. Seus integrantes apoiaram desde os presidentes militares e Jair Bolsonaro, à direita, até Lula e Dilma Rousseff, à esquerda. Seu eleitorado típico está nas pequenas cidades do interior, mas rapidamente se uniram aos recém-chegados representantes das igrejas evangélicas, vindos das periferias urbanas. Ainda que suas posições individuais os aproximem do espectro conservador de direita, esses políticos não podem ser considerados pertencentes a uma posição político-ideológico definida, pois se aliam a quem está no poder.
O sucesso do populismo
O sistema de compadrio, o coronelismo e o clientelismo criaram, ao longo da história do Brasil, um tipo de vínculo, típico do mundo rural, no qual a população submete-se aos poderosos locais em troca de proteção e apoio nas necessidades. Esse vínculo político se desenvolveu, no mundo urbano, num período mais recente, na forma de populismo. O líder populista se apresenta como protetor dos pobres, mas participa dos conchavos e privilégios das elites que se propõe a combater.
Desde a volta das eleições para presidente, em 1989, o Brasil teve oito pleitos e elegeu cinco presidentes. Entres estes, três representavam candidatos “antissistema”, que de uma forma ou de outra se apresentaram como alternativos às elites políticas do País: Fernando Collor, o caçador de marajás; Lula, o operário que se tornou presidente; e Bolsonaro, eleito para acabar com a corrupção e a ideologização do período petista. Agora, Lula e Bolsonaro são os dois candidatos à frente nas pesquisas eleitorais. Collor, Lula e Bolsonaro representam posições ideológicas e forças políticas muito distintas, tendo atuado de formas diversas quando no cargo, mas nenhum dos três conseguiu escapar das acusações (justas ou injustas) de populismo, corrupção, conchavos políticos fisiológicos e mau uso dos recursos públicos – que haviam se proposto a combater.
A força do populismo está na sua viabilidade – muitos acreditam que é impossível um projeto de transformação na América Latina que não passe por ele. Sua debilidade, na dificuldade para distinguir até onde a aliança entre um líder popular e os políticos que diz combater é uma necessidade inevitável para seu projeto de transformação social e até onde é uma conveniência pessoal, que acaba por igualá-lo a seus supostos adversários. Sendo assim, o problema objetivo da dinâmica populista é que não se baseia no protagonismo do povo, que acaba delegando seu papel político a um líder em particular. Com isso, o populismo não ajuda a criar uma sociedade forte, capaz de garantir tanto uma democracia estável quanto o bem comum.
Terceira via?
Aquilo que agora é chamado de “terceira via” no Brasil é, antes de mais nada, um caminho que não passasse por líderes considerados populistas. Seria um caminho centrado no fortalecimento das instituições, em relações mais transparentes e menos fisiológicas entre os Três Poderes, no combate à corrupção – tudo isso culminando num Estado mais democrático e eficiente na construção do bem comum. O autodenominado “Centrão” está muito distante desta “terceira via”, pois não tem programa político definido e abriga justamente os políticos com atuação identificada com o fisiologismo.
Nos últimos cinco anos, o Datafolha realizou sete sondagens para saber o grau de confiança da população nas instituições, perguntando se a pessoa (a) confiava muito, (b) confiava um pouco ou (c) não confiava em cada uma delas. Os partidos políticos e o Congresso tiveram os piores resultados. Na média das pesquisas, para cada pessoa que dizia confiar muito nos partidos políticos, mais de 45 diziam não confiar! No caso do Congresso, a proporção era de 1:26. A presidência da república, se saía bem melhor, com média de uma pessoa confiando muito para oito que não confiavam, mas bem pior do que o Judiciário (proporção de 1:2,5) e do que a imprensa (1:3). Esses números explicam por que é tão difícil falar no Brasil numa “terceira via”, que teria que sair de políticos envolvidos com a dinâmica partidária e o Congresso, em oposição aos dois grandes líderes carismáticos do momento, Lula e Bolsonaro.

Em 2022, a escolha tanto de nossos candidatos ao Executivo quanto ao Legislativo deve ser feita pensando nesse conjunto de forças e relações, não só nas virtudes e defeitos de cada um individualmente.
As escolhas políticas de 2022
Sem dúvida, investir na renovação parlamentar é fundamental para o Brasil. Não se trata apenas de escolher novos e bons nomes, mas de apoiar aquelas ações que quebram a hegemonia e a influência tanto das oligarquias encasteladas no poder quanto de pretensas forças de mudança que acabam recaindo nos erros do passado. É um esforço que exige discernimento e compromisso constante, evitando as armadilhas das soluções fáceis.
A “terceira via” pode ser um caminho de superação das tendências populistas no Brasil, mas também pode ser um fortalecimento da “velha política”, mais uma vez reenquadrada num novo contexto político. Líderes carismáticos, com grande apoio popular, por sua vez, não representam obrigatoriamente a volta à corrupção, a interesses particulares e enfraquecimento da sociedade civil – mas também não serão os salvadores messiânicos que resolverão nossos problemas políticos. O destino de uma nação não é definido por uma única pessoa, por mais poderosa que seja, mas sim por um conjunto de forças e relações políticas.
Em 2022, a escolha tanto de nossos candidatos ao Executivo quanto ao Legislativo deve ser feita pensando nesse conjunto de forças e relações, não só nas virtudes e defeitos de cada um individualmente. Dessa forma, num processo histórico, mais do que numa virada brusca, ajudaremos a fortalecer a democracia e a construir um futuro melhor para o Brasil.

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