Mais um ciclo eleitoral está prestes a se encerrar no Brasil. Logo saberemos quem serão os novos dirigentes do País. Certo cansaço dominará toda a nossa sociedade: do trabalho militante, da exaltação dos debates, da insistência daqueles que desejavam nos convencer… Nossa grande tentação é, agora, esquecer a política, deixar que as coisas sigam seu curso, voltar a cuidar de nossos afazeres e cultivar nossas amizades sem a fricção desgastante da disputa partidária. Se venceu o candidato que apoiávamos, ótimo (ou “menos ruim”); em contrapartida, se venceu o adversário… melhor nem pensar!
É uma postura compreensível, mas totalmente oposta a uma proposta cristã. A política, “a mais alta forma de caridade”, não é algo só para alguns momentos ou uma atribuição restrita a alguns poucos. É uma dimensão inescapável de nosso viver em sociedade, que deveria ser ainda mais vinculante a partir de nosso compromisso cristão. Tenham ganho nossos candidatos ou seus adversários, a construção do bem comum continuará exigindo nosso empenho, pois nenhum político ou partido será tão bom a ponto de fazer tudo certo, nem será tão ruim a ponto de não deixar nenhum espaço para nosso testemunho (nem nas prisões dos regimes mais autoritários deixa de haver espaço para o testemunho cristão).
Uma reflexão que não é só teórica
A Doutrina Social da Igreja indica que a adesão política dos cristãos deve ser sempre crítica e pessoal. Crítica porque sabemos que não há candidato ou partido perfeito; todos somos seres falíveis e que precisam da correção mútua para melhorar. Pessoal porque a construção do bem comum é uma responsabilidade sujeita ao discernimento de cada um, uma atribuição dos leigos. Contudo, cabe sempre à comunidade cristã o compromisso de realizar uma reflexão compartilhada, que ajude a compreender os melhores caminhos e as melhores opções.
O trabalho de formação e reflexão crítica sobre a realidade é, portanto, uma atribuição permanente da comunidade. Aliás, se os momentos eleitorais se tornam tão conflituosos entre muitos de nós, é justamente porque esse trabalho sistemático não é feito. Quando estamos habituados a analisar a vida pública em um espírito de comunhão, avaliando as propostas e os acontecimentos sem a pressão da escolha partidária, vamos aos poucos criando uma visão compartilhada dos problemas – que não significa uniformidade de juízo e critério, mas o consenso em torno de alguns elementos básicos, permitindo um diálogo crítico e construtivo.
Mas existe uma armadilha em que caímos frequentemente: a teoria sem prática. A Doutrina Social da Igreja não é o resultado de um exercício dedutivo, no qual alguns teólogos ficaram pensando quais seriam as consequências sociais dos ensinamentos bíblicos. Ela é o resultado de um diálogo entre a sabedoria eclesial e a realidade encontrada pelos cristãos. A reflexão teológica ilumina esse diálogo, mas se torna estéril sem ele. Muitas vezes, queremos, apenas com uma reflexão teórica, julgar o mundo, dizer o que está certo e o que está errado, como as demais pessoas, incluindo os políticos, deveriam agir. Tal postura deságua na esterilidade ideológica ou no sectarismo arrogante.
O discernimento vem com as obras

A verdadeira reflexão que acompanha a Doutrina Social da Igreja é aquela que nasce das “obras de misericórdia” (cf. CIC, n. 2447-2448)1, que a tradição dividiu em corporais (alimentar os famintos e dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os viajantes e os desabrigados, assistir os enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos) e espirituais (ensinar os ignorantes, aconselhar os que precisam, corrigir os que erraram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, suportar as fraquezas do próximo, rezar pelos vivos e pelos mortos). A formulação é simbólica, mas demonstra a infinidade de formas de ajudar os irmãos aos quais somos chamados. Quando nos dedicamos a essas obras, vamos compreendendo o real significado prático dos princípios sociais cristãos e descobrindo as formas mais adequadas de aplicá-los.
Devemos entender, contudo, que, na sociedade complexa em que vivemos, essas obras não podem reduzir-se ao assistencial. Muitas vezes, a assistência gratuita é fundamental. Por exemplo, quem, em sã consciência, pediria que uma criança faminta fosse “protagonista de seu destino” antes de dar-lhe alimento, abrigo e amor? Mas percebemos, cada vez mais, que não basta cuidar de suas necessidades imediatas; precisamos criar espaços de promoção humana nos quais ela realmente possa ser essa “protagonista de seu destino”. E mais: percebemos que temos de combater as formas de organização da sociedade que permitiram que essa criança ficasse faminta e sem abrigo. Assim, da prática concreta da caridade, vão emergindo critérios que orientam a vida política.
Também precisamos entender que as obras sociais da Igreja, se praticadas com sabedoria, estão em um diálogo permanente com as obras pessoais de nossas vidas. Toda atividade profissional, toda tarefa doméstica, é chamada a ser uma obra de amor oferecida a Deus e ao bem do próximo. Como isso acontece, depende das condições objetivas de nosso trabalho. Pode ser mais evidente para um médico em um posto de saúde do que contador fazendo o balanço de uma grande multinacional, mas ambos podem ou não vivenciar seu trabalho como “obra de caridade”; isso depende da liberdade com que respondem a Deus. Nesse sentido, as obras sociais às quais nos dedicamos, muitas vezes sob a forma de voluntariado, nos educam para vivermos a caridade em todas as situações.
Na vitória ou na derrota, o mesmo chamado à unidade
Talvez o desafio mais imediato do período pós-eleitoral seja lidar com o resultado sem transformar a diferença partidária em ruptura pessoal; na vitória, evitar o triunfalismo; na derrota, evitar o ressentimento. Significa resistir à tentação de comemorar a vitória como se fosse a confirmação de que estamos certos (afinal, já vimos muitas vezes o mau vencer e o bom perder), ou de viver a derrota como se fosse uma desgraça sem esperança ou o resultado de uma conspiração infernal.
Bons e maus, sábios e tolos, existem em todas as posições do espectro político. Evidentemente, acreditamos que os que estão no nosso lado são geralmente bem-intencionados e inteligentes – mas isso não quer dizer que não existam mal-intencionados e tolos também do nosso lado. Igualmente, existem bem-intencionados inteligentes do outro lado. A tarefa difícil, em um momento pós-eleitoral, é superar mágoas e ressentimentos para ir ao encontro daqueles bem-intencionados, estejam onde estiverem, para com eles buscar a construção do bem comum. Não podemos nos esquecer de que a divisão entre os bons faz a alegria dos maus.
Esse cuidado é ainda mais urgente diante de um fenômeno que qualquer eleição recente deixa exposto: as redes sociais lucram com a exploração da indignação, empurrando as pessoas para bolhas cada vez mais fechadas, em que o contato com quem pensa de modo diverso se torna raro e hostil, e a diferença deixa de ser dialogada para ser tratada como ameaça a eliminar. Essa lógica não é exclusiva das redes: pode se instalar também dentro de paróquias e movimentos, quando um grupo reforça as mesmas convicções políticas sem nunca ser confrontado com outras.
Ser ponte para os que desejam o bem comum
Comunidades cristãs autenticamente unidas na fé experimentam essa unidade na vivência fraterna e nas obras de caridade, não na homogeneidade ideológica. Assim, podem viver a pluralidade com liberdade, sabendo que erros e acertos se tornarão evidentes com o tempo e poderemos nos entender e melhorar, escolhendo com mais acerto, discernindo com mais clareza, em uma unidade que nasce da fé compartilhada.
Se as comunidades cristãs vivem assim, se os cristãos dão testemunho de serem assim, todos podem dar uma contribuição valiosa para a construção de uma sociedade melhor. Podem se tornar pontos de encontro, construtores de pontes, em que todos os bem-intencionados, muitas vezes divididos por barreiras ideológicas, podem trilhar caminhos para a edificação de um Brasil melhor.
A vida pública deve ser, para os cristãos, ocasião de encontro e diálogo, não de divisão e desorientação. Isso exige paciência ao longo de toda a vida, para amadurecer e crescer no próprio discernimento e na capacidade de amar ao próximo. O entusiasmo no momento de uma votação é muito maias fácil, mas dificilmente constrói o bem comum. Um antigo axioma eclesial diz que “o diabo dá o entusiasmo, Deus dá a perseverança”.
Que a prática do amor nos ajude a viver com alegria a perseverança necessária, independentemente de nos considerarmos vitoriosos ou derrotados nessas eleições. Isso não é impossível, na medida em que a fé consiga iluminar a política sem se deixar capturar por ela. A urna fecha-se em outubro; o compromisso, esse não tem data para terminar.
Nota
1. Catecismo da Igreja Católica. Roma, dez. 1992. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em: ago. 2026.

0 comentários