Cada vez mais estudadas por especialistas, a fé e a espiritualidade têm desempenhado um papel fundamental nos processos de cura, de recuperação de doenças e de promoçãoda qualidade de vida de pessoas de diversos países.
Era a segunda noite que eu passava no hospital acompanhando meu pai quando aconteceu algo que, até hoje, não consigo explicar. Dias antes, os médicos chamaram-me para uma conversa e informaram que não havia mais alternativas para combater o tumor instalado em seu fígado. A estratégia, naquele momento, era apenas estabilizar seu estado clínico para que ele pudesse deixar a UTI e permanecer com a família.
A Medicina já havia esgotado os recursos para cuidar de quem dedicou a vida a cuidar de mim, de minha mãe, de minhas irmãs e dos netos. O tratamento estava debilitando severamente seu organismo, e os rins começavam a apresentar sinais de falência. Guardei aquela informação apenas para mim.
Pouco depois, com uma discreta melhora, ele foi transferido para um quarto. Organizamos uma escala para que jamais ficasse sozinho e recebesse ajuda em todas as atividades necessárias. Naquela segunda noite a seu lado, tive um sono interrompido por constantes orações. Sempre que despertava, eu me via rezando e suplicando a Deus pela recuperação de sua saúde.
Pedia a intercessão de Santa Gemma Galgani (1878-1903), mística e religiosa italiana, padroeira do bairro onde moro e conhecida pelos estigmas de Cristo que carregou em vida. Rogava para que suas benditas mãos tocassem a enfermidade de meu pai e o fortalecessem. Também recorria a Santo Antônio de Sant’Anna Galvão (1739-1822), pedindo que intercedesse junto a Deus pela cura que tanto desejávamos. O primeiro santo brasileiro sempre esteve presente nessa caminhada; desde o diagnóstico, as “pílulas” do santo frade faziam parte do tratamento.
Na segunda madrugada que passava no hospital, eu percebi que alguém havia entrado no quarto. Não ouvi vozes nem vi as luzes serem acesas. Saí rapidamente para verificar quem era e avistei uma pessoa deixando o ambiente e fechando a porta atrás de si. Segui até o corredor, mas não encontrei ninguém. Apenas notei um movimento em outro quarto, que permanecia às escuras. Considerei inadequado entrar no espaço de outro paciente e retornei ao lado de meu pai, que continuava dormindo tranquilamente.
Alguns dias depois, um médico veio conversar comigo e me disse que ele estava se recuperando. Segundo o profissional, não havia uma explicação científica para aquilo, mas os rins haviam voltado a funcionar e, em breve, poderíamos retornar para casa.
Meu pai recebeu alta hospitalar e, em apenas três semanas, retomou sua rotina habitual. Nenhum médico conseguiu explicar sua recuperação. No entanto, uma pergunta feita pela oncologista que o acompanha desde o início do tratamento trouxe imediatamente à minha memória os acontecimentos daquela noite: “Como não vou acreditar em Deus?”

A fé ganha espaço no tratamento medicinal
A integração entre espiritualidade e saúde, tema que durante décadas foi visto com certa desconfiança em parte da comunidade científica, vem ganhando espaço em universidades, entidades médicas e consultórios ao redor do mundo. O assunto, que teve como foco a saúde mental, esteve no centro das discussões do 6o Fórum Global sobre Espiritualidade, Religião e Saúde Mental, realizado entre os dias 14 e 15 maio na Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos. O evento reuniu 180 especialistas de vinte países para debater como crenças, propósito de vida e experiências espirituais podem influenciar o cuidado clínico dos pacientes.
Segundo a especialista, a espiritualidade pode ser considerada um fator complementar importante em diferentes tratamentos, sem jamais substituir a terapêutica médica convencional
Embora o debate acadêmico tenha avançado, os especialistas reconhecem que muitos profissionais ainda não receberam treinamento adequado para abordar espiritualidade e fé de forma ética e inspirada em evidências. Essa foi uma das preocupações destacadas durante o evento em Harvard, em que pesquisadores defenderam a necessidade de preparar médicos, psicólogos e psiquiatras para lidar com questões relacionadas a essa temática sem ultrapassar os limites da prática clínica.
Para a médica Rosylane Nascimento das Mercês Rocha, 2a vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e coordenadora da Comissão de Saúde e Espiritualidade da entidade, o interesse crescente pelo tema acompanha uma robusta produção científica acumulada nas últimas décadas. “Estudos demonstram que pacientes com religiosidade intrínseca apresentam menos sintomas de estresse, depressão e ansiedade. Isso reforça a relevância da religiosidade e da espiritualidade para a melhora da saúde mental”.
Segundo a especialista, a espiritualidade pode ser considerada um fator complementar importante em diferentes tratamentos, sem jamais substituir a terapêutica médica convencional. Ela explica que a abordagem tem início durante a coleta de histórico de saúde com o paciente, quando o profissional busca compreender aspectos relevantes da vida do paciente. “Entre as perguntas feitas, está se o paciente possui alguma religião ou crença. A partir dessa resposta, é possível compreender de que forma essa espiritualidade influencia sua vida e sua maneira de enfrentar a doença”.
Na avaliação do psicólogo clínico Eduardo Galindo, a espiritualidade contribui para que o paciente encontre sentido para sua experiência de sofrimento e desenvolva uma compreensão mais ampla sobre a própria existência. “A espiritualidade
é uma capacidade que, quando desenvolvida, promove uma melhor compreensão da vida. Assim, o tratamento psicológico ou psiquiátrico passa a ser percebido e acolhido de maneira mais integrada à existência da pessoa”.
A relação entre fé e saúde mental tem sido associada por diversos estudos à redução de sintomas depressivos, menor incidência de abuso de substâncias, fortalecimento da resiliência e até a prevenção do suicídio. Durante o fórum em Harvard, pesquisadores destacaram estudos que apontam a importância das necessidades espirituais para pacientes em tratamento também em ambientes hospitalares.
Medicina + fé + espiritualidade = esperança
Segundo a doutora Rosylane, os benefícios à saúde podem ocorrer por diferentes maneiras. Uma delas é a adoção de hábitos mais saudáveis estimulados por determinadas tradições religiosas. Outra está relacionada à rede de apoio social oferecida por comunidades de fé. “O contexto religioso facilita a expressão do sofrimento, o pedido de ajuda e a obtenção de suporte. Além disso, práticas como oração e meditação podem produzir efeitos fisiológicos benéficos”.
O psicólogo Galindo acrescenta que a fé também atua como uma importante fonte de esperança. “A fé é uma capacidade humana que favorece uma percepção mais positiva da vida e encoraja o indivíduo a aderir ao tratamento com mais confiança e esperança nos resultados”.
Apesar dos benefícios apontados pela literatura científica, os especialistas ressaltam que a espiritualidade não pode ser confundida com imposição religiosa. O consenso é que cabe a cada profissional respeitar as crenças do paciente, e não promover as próprias convicções. “O médico não pode impor suas crenças nem fazer qualquer juízo de valor sobre a crença do paciente. A abordagem de saúde e espiritualidade tem método, fundamento científico e limites éticos bem definidos”, ressalta a médica.
“O profissional de saúde não pode utilizar o tratamento como espaço para difundir suas convicções religiosas. O que se espera dele é competência técnica e respeito à autonomia do paciente”, complementa o psicólogo.
Outro ponto de atenção é a necessidade de diferenciar experiências espirituais saudáveis de situações em que determinadas crenças possam prejudicar a adesão ao tratamento. “Quando o paciente abandona medicamentos ou deixa de realizar procedimentos indicados porque acredita que será curado apenas pela fé, estamos diante de um problema. A espiritualidade pode colaborar positivamente, mas não substitui o tratamento médico”, afirma doutora Rosylane.
Para o psicólogo, uma espiritualidade saudável é aquela que acolhe o indivíduo em sua totalidade, incluindo suas dimensões emocionais e psicológicas. “Quando deixa de reconhecer a vida psíquica e afetiva da pessoa, a espiritualidade pode se tornar patológica”, finaliza.

A espiritualidade na assistência à saúde
No Brasil, esse debate também tem avançado consideravelmente. Segundo a doutora Rosylane, o Conselho Federal de Medicina trabalha na elaboração de recomendações fundamentadas em evidências científicas para orientar profissionais sobre a abordagem da espiritualidade na assistência à saúde. Além disso, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos Cursos de Medicina já contemplam conteúdos relacionados ao tema.
O psicólogo Galindo observa que algumas instituições de ensino superior e programas de pós-graduação também começaram a incluir a espiritualidade em suas grades curriculares, o que, segundo ele, tende a ampliar a humanização do atendimento. “O grande beneficiado será o paciente, especialmente aquele que não se sente acolhido quando traz suas experiências espirituais para o tratamento. Há um ganho importante de humanidade quando o cuidado considera todas as dimensões da pessoa”.
A discussão promovida em Harvard indica que a antiga ideia de conflito entre ciência, fé e espiritualidade vem perdendo espaço para uma abordagem mais integrada. Para os especialistas, o desafio agora não é mais determinar de que modo esses conceitos influenciam a saúde das pessoas, mas compreender de que forma podem ser considerados, de maneira ética e científica, como parte do bem-estar integral dos indivíduos.

As “pílulas de frei Galvão”
As “pílulas de frei Galvão” são pequenas cápsulas que carregam a bênção e a proteção espiritual do primeiro santo brasileiro. Originárias do século XVIII, estão ligadas à trajetória de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão. Segundo a tradição católica, ele escrevia em pequenos pedaços de papel a frase em latim: “Post partum Virgo inviolata permansisti; Dei Genitrix, intercede pro nobis” (‘Após o parto permaneceste virgem; Mãe de Deus, intercedei por nós’) e os distribuía às pessoas com problemas de saúde.
O episódio mais conhecido relata que o religioso teria auxiliado uma mulher com dificuldades no parto ao entregar-lhe uma dessas pílulas de papel dobrado. Após o nascimento da criança, essa prática começou a se popularizar entre os fiéis, que passaram a associá-la a graças e curas alcançadas por sua intercessão.
Atualmente, as cápsulas são produzidas e distribuídas gratuitamente por Irmãs religiosas do Mosteiro da Luz, em São Paulo; consistem em pequenos papéis contendo a mesma oração mariana utilizada pelo santo. Para os católicos, elas representam um sacramental (um sinal de fé e devoção) e não possuem propriedades medicinais. Seu uso é associado à oração e à confiança na intercessão de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, sem substituir tratamentos médicos ou terapêuticos.

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