A arte e o desafio de envelhecer

jul 27, 2022Maio 2022, Revistas, Theoblog0 Comentários

A o situar-se no mundo e na vida, os humanos buscam compreender seu passado, seus ancestrais, sua história e contar, de geração em geração, suas vitórias e derrotas. Algo da vida já vem inscrito no corpo pelo código genético de cada pessoa, trazendo características de seus pais e avós: uma linhagem que remonta ao passado e às vidas vividas por séculos antes de nós. Outra parte da vida é construída por cada pessoa diariamente diante das possibilidades abertas pelo tempo e espaço de seu viver. Somos todos migrantes, filhos de migrantes e, em algum momento, novos migrantes. Guardamos memórias e projetamos sonhos. Cada ser humano é sempre um descendente do homo sapiens sapiens, um neto distante do Cro-Magnon e, ao mesmo tempo, um ser único no seu tempo e na sua geração.


Somos feitos de nossos passados e ancestrais e somos construtores de nosso presente e de nossos filhos e netos. Somos sempre alguém em construção. Vida e morte misturadas. Presente, passado e futuro estão sempre em movimento.
Na Antiguidade, do Ocidente e do Oriente, sempre os povos fazem questão de registrar suas origens em patriarcas e matriarcas, construindo genealogias com nomes, lugares, culturas, canções e monumentos guardados e erigidos para marcar eventos e momentos cruciais. Assim os povos se reconhecem e aprendem uns dos outros as diferenças e as memórias coletivas. Os antigos povos semitas, inclusive, atribuíam aos ancestrais idades imensas para confirmar sua santidade e força original. Assim Matusalém (ou Metoushelah), citado no livro do Gênesis 5, 21-31, teria vivido até 969 anos (!), Noé teria chegado aos 950 anos, Enoque, aos 365 anos, e o pai da fé, o patriarca Abrahão, vivido 175 anos. Hoje sabemos o que esse simbolismo ampliado queria mostrar sobre respeito aos ancestrais, consciência da longevidade simbólica e a forte memória entre os descendentes de tais grupos étnicos.


Atualmente humanos atingem, graças às vacinas, alimentação sóbria e algumas características cromossômicas, uns 120 anos. Já vivemos como as árvores. Sabemos que no tempo de Jesus a média etária entre gregos e romanos era de 35 anos. Quem nasceu em 1960, podia esperar viver até os 52,5 anos de idade. No século primeiro, sabemos por escritos do romano Plínio, no livro de História Natural quais pessoas viveram mais tempo. Entre elas, temos o cônsul Valerius Corvinos (100 anos), a esposa de Cícero, Terentia (103), uma mulher chamada Clódia (115) e a atriz Lucceia, que se apresentou no palco com 100 anos. Em tempos feudais, os registros mostram que a mortalidade infantil permanecia alta. Mas, se um homem chegasse aos 21 anos de idade, e não morresse por acidente, violência ou envenenamento, poderia viver quase tanto quanto os homens de hoje: de 1200 a 1745, os de 21 anos viveriam, em média, entre 62 e 70 anos – exceto no século 14, quando a peste bubônica reduziu a expectativa de vida a insignificantes 45 anos. A mortalidade materna era enorme até começo do século XX.

Somos feitos de nossos passados e ancestrais e somos construtores de nosso presente e de nossos filhos e netos. Somos sempre alguém em construção. Vida e morte misturadas. Presente, passado e futuro estão sempre em movimento.


Na história recente, foram as ações sanitárias nas grandes cidades que aumentaram a longevidade, particularmente por conta de tratamento e rede de esgotos, água potável com cloro e flúor e a generalização da construção de vasos sanitários nas casas, de modo a não contaminar os lençóis freáticos. A média mundial de expectativa de vida subiu para 72 anos, ela é obviamente mais alta nos países europeus e extirpada pela morte evitável e prematura na África subsaariana e recantos da Ásia. No Brasil, o salto foi maior, passando de 48 para 75,5 anos antes da Covid-19, quando milhares de mortes poderiam ter sido evitadas pelo governo negacionista.


As mulheres hoje vivem mais que os homens, e os pobres do mundo sucumbem antes dos ricos, por falta de comida, casa e trabalho digno. Graças ao progresso das ciências, das técnicas e da higiene, os efeitos do envelhecimento global assumiram um novo rosto para a Organização Mundial de Saúde. A velhice ainda possui diferenças por classe social. Há países onde existem investimentos coletivos para essa geração, enquanto outros nem colocaram ainda essa pauta política para discussão nos parlamentos. Em 2019, o número de idosos no Brasil chegou a 32,9 milhões. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a tendência de envelhecimento da população vem se mantendo, e o número de pessoas com mais de 60 anos no país já é superior ao de crianças com até nove anos de idade. A esperança de vida de muitas nações aumentou perto de 25 anos nos últimos 60 anos. Teremos que reaprender a viver de forma responsável com um número imenso de idosos (pessoas com mais de 60 anos) e até mesmo uma significativa população de pessoas centenárias.

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As lições do filósofo latino

Marco Túlio Cícero, nascido em Arpino, perto de Roma, no ano 106 a.C., foi assassinado pelo centurião Herênio a mando do inimigo Marco Antônio. Foi jurista, orador, filósofo e político latino e um pensador da vida e da arte de saber envelhecer. Num texto lapidar sobre a velhice, ele ensina que devemos encontrar prazer em todas as etapas do viver.

“O presente é o amigo da idade, não seu inimigo. Ele nos inunda com vida. Encharca-nos com o brilho da vida. Dá-nos espaço e tempo para perceber que sem o passado, nós não poderíamos viver este presente tão bem”


Descobrimos em seu escrito bem-humorado: “Ouve-se ainda dizer que os velhos são mal-humorados, atormentados, irascíveis e rabugentos – e mesmo avarentos, examinando bem. Mas esses são defeitos inerentes a cada indivíduo, não à velhice. O mau humor e as outras manias que citei são, aliás, relativamente escusáveis. Injustificadas, por certo, mas compreensíveis. Tais pessoas se julgam desprezadas, depreciadas, caídas no ridículo. Além disso, um corpo debilitado o torna ainda mais vulnerável a esses ataques. O que não impede que um caráter sólido e bons hábitos permitam atenuar tais inconvenientes. Na vida ocorre o mesmo que no teatro, quando pensamos, por exemplo, nos dois irmãos dos Adelfos de Terêncio: que acrimônia na casa de um, que urbanidade na casa do outro! Assim como o vinho, o caráter não azeda necessariamente com a idade. Agrada-me que a velhice seja grave, mas com moderação, como em relação a tudo. Não aceito que ela seja carrancuda. Quanto à avareza dos velhos, eu a compreendo mal. Não é insensato, quando o caminho a percorrer diminui, querer aumentar seu viático?”

O segredo da longevidade

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Uma vida a mais exige que todos, adolescentes, jovens, famílias e sociedade se capacitem para esse novo momento civilizatório. Hoje já temos inclusive novas ciências ligadas às questões do envelhecimento. Sabemos compreender curvas demográficas, compreendemos os desafios genéticos e as ações terapêuticas diante da senilidade mental. Já existem teorias de envelhecimento e mesmo grupos de estudo nas universidades do mundo inteiro nessa área conhecida como Gerontologia.
Estudos sempre mais divulgados nos falam de envelhecimento endocrinológico, menopausa, andropausa, artrose, osteoporose, doenças cardiovasculares, enfisemas, tumores malignos e benignos advindos com a terceira e quarta idades, fragilidades e recursos de mobilidade, fraquezas musculares, problemas cognitivos e de memória, demências senis e apoio fisioterapêuticos para a vida madura. Até mesmo a digestão e a função intestinal colocam novas questões para todas as pessoas que estão envelhecendo. As enzimas digestivas (pepsina, tripsina e outras) diminuem com a idade. Já existem tratamentos paliativos. Podemos até dizer que graças aos novos recursos médicos e terapêuticos podemos permanecer “jovens-idosos” por longos anos. O que faz toda a diferença é o apoio familiar, social e da política pública de saúde.

“Para a pessoa idosa, a gratidão está ligada à lembrança. Uma pessoa que consegue se lembrar com gratidão daquilo que viveu é uma pessoa contente na velhice”


Algumas sugestões do médico húngaro Ladislas Robert podem ajudar a viver um bom envelhecimento, retardando as dores e sofrimentos. Escreve em seu livro que devemos realizar quatro tarefas vitais simultâneas:

  1. Conservar uma atividade física e cerebral depois dos 50 anos.
  2. Evitar os comportamentos de risco, sobretudo o tabagismo, a ingestão de álcool e cuidar do ambiente doméstico para evitar quedas e quebra de ossos.
  3. Manter a higiene elementar e uma alimentação saudável, com destaque para frutas, legumes, cereais e azeite de oliva, evitando quanto possível o excesso de carne vermelha.
  4. Lutar e organizar em cada cidade e bairro a presença e ação de serviços médicos e de suporte aos idosos, com destaque para a prevenção de câncer de próstata entre os homens e controle de câncer nas mamas para as mulheres”

Escreve com voz profética a monja beneditina norte-americana, Joan Daugherty Chittister: “O presente é o amigo da idade, não seu inimigo. Ele nos inunda com vida. Encharca-nos com o brilho da vida. Dá-nos espaço e tempo para perceber que sem o passado, nós não poderíamos viver este presente tão bem” Eis a arte de envelhecer com graça e serenidade.

A mais bela virtude que adquirimos com a idade talvez seja a gratidão. Escreve o monge beneditino: “A pessoa grata pensa com o coração. Ela percebe o que lhe é dado diariamente. A gratidão enxerga as coisas preciosas na vida. E age como guardiã, para que nenhuma preciosidade se perca. Para a pessoa idosa, a gratidão está ligada à lembrança. Uma pessoa que consegue se lembrar com gratidão daquilo que viveu é uma pessoa contente na velhice”.4 Eis a arte de envelhecer reconhecendo as dádivas da vida e dos amigos.

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