Normalmente, em tempo de vida escolar aqui no Brasil, temos dois períodos de férias, e as famílias os acompanham: um período, no mês de julho, quando, sobretudo no Sudeste e Sul – São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – faz bastante frio e no Nordeste e Norte chove! As festanças juninas (também julinas de uns tempos para cá!) não deixam, porém, de aquecer o frio e, de um jeito ou outro, enxugar as águas, aquecendo corpos e corações das comunidades. Há muito tempo, essas festas, abandonadas em parte pela vida urbana, aos poucos foram ressurgindo nas comunidades católicas pelas catequistas junto a seus catequizandos. As apresentações das danças de roda, chamadas também “quadrilhas”, apresentam normalmente uma festa de casamento caipira, com suas típicas letras e movimentos, sempre marcadas por um “puxador” e pelo som alegre de um sanfoneiro. Assim, as comunidades católicas festejam Santo Antônio (dia 13/6), São João Batista precursor do Senhor (dia 24/6) e São Pedro apóstolo (dia 29/6). Nessa esteira, a sociedade civil, com outras possíveis intenções, vai esticando com carnavais fora de época, mas que consegue também reunir muita gente.


A pandemia (2020-2022) deu uma brecada nessas festas populares, mas, parece que paulatinamente vão voltando ao ritmo de antigamente. Por uma ou por outras, o fato é que Santo Antônio, em suas comemorações juninas está arraigado na cultura popular brasileira. Trazidos por portugueses, espanhóis e italianos, os festejos antonianos encontraram no Brasil terreno propício e vingou adaptando-se engenhosamente ao clima e aos lugares. Criatividade e iniciativa, isso não faltou! Na Europa, o mês de junho é de calor; no Brasil, é tempo de frio, chuviscos e chuvas. Mas nada disso dificultou, pois a devoção popular nessas terras se adaptou e cresceu.


Lembro-me, quando pequeno, 9-10 anos, em Santo André, na Vila Alzira, minha tia Gertrudes, no dia 13 de junho, reunia em sua casa convidados vizinhos e menos vizinhos para um terço em honra de Santo Antônio. Esse terço, era – dizia ela – um ato de gratidão por uma grande graça que ela tinha recebido de Deus por intercessão do “querido Santo Antônio” e que a gratidão daquele ato iria sempre morar em seu coração, até que Deus lhe desse saúde e vida! Meu pai, sr. Benedito, e eu íamos participar não só pela reza, mas – pelo menos eu! – também pelos comes e bebes que se seguiam à oração: quentão, pipoca, pinhão, batata-doce. Como na época eu não entendia latim (e as orações eram em latim!), quando chegava a hora da ladainha de Nossa Senhora, as respostas eram os intermináveis: “ora pro nobis!” (que quer dizer, “rogai por nós”); até que se chegava a uns dizeres diferentes “Agnus Dei qui tollis peccata mundi…”: aí eu já percebia que a oração estava chegando ao fim para dar início à segunda parte: a da alimentação… Era então que, quando havia sanfoneiro, muita gente ensaiava um animado arrasta-pé! Essas recordações vêm bem ao nosso caso pelo valor da fé vivida em comunidade que nunca deixa de ter seus momentos alegres, momentos felizes em que corpo e alma se unem em fraternidade, na fé, na caridade!


Santo Tomás de Aquino, grande filósofo e teólogo, chamava a tudo isso de “eutrapelia”: isto é, aquele lazer leve em que você joga conversa fora, abre sorrisos do coração, dos lábios, da voz, comunica-se com alegria e serenidade com os convivas do viver.


É muito interessante também ter em conta aquele convite de Jesus aos discípulos, narrado por São Marcos 6,31, após um dia intenso de trabalho evangelizador, dizendo: “Vamos sozinhos até a um lugar tranquilo e descansar um pouco!” O evangelista anotava: “havia tanta gente chegando e saindo que [os discípulos] não tinham nem tempo para comer. E foram, de barco, para um lugar deserto, a sós.” (6,32).
De fato, as férias não são um luxo; são necessárias para cada um de nós, na distensão das atividades que nos prendem o respiro de dia e de noite! Dizia ainda nosso mestre Aquinate, Santo Tomás: o arco retesado nunca atingirá o objetivo que se propõe atingir. É preciso que ele relaxe e parta, aí, sim, rumo ao objetivo que se propôs e acertar no alvo.


Sobre Santo Antônio, podemos dizer que, quase no final de sua breve vida, decidiu pedir ao superior, e obteve, passar alguns dias de descanso na vizinha localidade italiana de Camposampiero (18km de Pádua), onde havia um conventinho dos frades franciscanos perto de um bosque com lindas e frondosas árvores. Frei Antônio sentia que suas forças iam sumindo, a fraqueza corporal invadindo seu caminhar. A quaresma do ano 1231, quarenta dias de março e abril, tinham exigido dele uma força hercúlea: por 40 dias seguidos manteve as pregações quaresmais, sem dar-se trégua. Note-se que, terminada a pregação, ele ainda atendia as confissões, ajudado por outros 16 frades, que administravam o perdão de Deus ao povo cristão antes, durante e depois da pregação. No mês de maio daquele mesmo ano, fez ainda a pé uma viagem longa, dura, a pedido dos paduanos, até a vizinha cidade de Verona, onde imperava o Conde Ezzelino da Romano, que tinha consigo muitos nobres prisioneiros de Pádua.

“Nós, filhos, devemos pedir alguma coisa ao nosso Pai. Mas, tudo o que existe não é nada, a não ser amar a Deus! Por isso devemos pedir para amá-lo, sustentando-o em seus membros mais frágeis e enfermos, alimentá-lo nos pobres e nos indigentes. Pois bem: se pedirmos amor, o próprio Pai, que é Amor, nos dará aquilo que Ele é: amor!”

(Sermões, V Domingo de Páscoa, v. I, p. 333. texto latino)


Frei Antônio voltou a Pádua sem obter a liberação dos prisioneiros. Na volta para casa, do alto das colinas do Montes Eugâneos, de onde se descortinava uma vista maravilhosa da cidade de Pádua, deu-lhe a última bênção em vida. Em seguida, chegando ao convento de Santa Maria Mãe do Senhor, partiu imediatamente para Camposampiero. Andando um dia pelo bosque, manifestou o desejo de fazer uma cela (como são chamados os quartos dos frades e monges, significa “pedaço do céu”) no alto de uma nogueira. Não falou duas vezes. O Conde Tiso, dono daquelas terras perto do convento franciscano, construiu a dita cela, onde frei Antônio passava suas horas orando, meditando, escrevendo.


No último dia, atendendo à campainha do almoço, sentiu-se mal no refeitório e não mais se recuperou. Pediu, então, ao seu fiel companheiro, frei Lucas Belludi, que o levasse de volta a Pádua, pois lá queria morrer e não dar trabalho aos frades de Camposampiero. Era o dia 13 de junho de 1231. Sexta-feira. Do descanso de Camposampiero frei Antônio foi para o descanso eterno na localidade Arcella, às portas da cidade de Pádua…
Paz e Bem!

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