Os pães de Santo Antônio

maio 29, 2023Junho 2023, Revistas, Theoblog0 Comentários

Antônio, o santo do pão. Nascido em Lisboa, Portugal, por volta de 1190. Filho de Antônio Martinho de Bulhões e de Maria Tareja Taveira. Foi batizado como Fernando Martins de Bulhões. Entrou para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho, em 1209.

Conheceu os frades franciscanos que chegaram a Coimbra em 1210. Ordenado presbítero entre 1218 e 1219, decidiu tornar-se frade menor como missionário da Palavra. Deve ter conhecido os frades que, indo ao Marrocos, foram martirizados, no mês de janeiro de 1220. Ao tornar-se frade mendicante, assumiu o nome de Antônio. Ensinou em Bolonha, na Itália do norte, e por três anos percorreu a França, entre 1224 e 1227, na região sul, sendo evangelizador e andarilho por Toulouse, Montpellier, Le Puy, Brive e Limoges. Enfrentou os cátaros. Participou da Assembleia Geral da Ordem Franciscana em 1227, quando da transladação dos restos mortais de São Francisco de Assis (1182-1226).

Estabeleceu-se em Pádua, como provincial da Itália do norte, até 1230. Percorreu a pé as regiões italianas de Emília, Toscana, Lombardia, Veneza, Bolonha, Emília-Romagna, Rimini e Pésaro. Na Páscoa de 1228, pregou na Basílica de Latrão, em Roma, diante do papa Gregório IX (1145-1241). O pontífice atribuiu-lhe o apelido de “Arca do Testamento”. Morreu em Arcela, em 13 de junho de 1231, aos quarenta anos de idade, em decorrência de uma crise de hidropisia (acúmulo de líquido seroso no tecido celular). Foi canonizado em 13 de maio de 1232, apenas onze meses depois da morte, pelo papa Gregório IX.

Aqui, podemos fazer um resumo da breve, mas prolífica, vida de Santo Antônio: tornou-se um santo universal já em vida: nasceu português, pretendeu ir ao Marrocos para levar a fé cristã, mas uma tempestade o fez chegar à Sicília, onde se uniu aos frades de São Francisco. Foi enviado ao sul da França, onde pregou incansável para homens, hereges, bispos, cidades e até aos peixes. Voltou à Itália, viveu em Pádua, onde morreu, em 1231, sendo proclamado Santo e Doutor da Igreja. Em seguida à sua canonização, ele viajou pelas vozes portuguesas e pelos viajantes paduanos, em naus portuguesas e caminhos italianos, em direção à Índia, depois até a China e, enfim, a veneração antoniana chegou às terras brasileiras. Foi peregrino em vida e santo protetor de marinheiros e comunidades migrantes depois da santa morte.

Os pães do santo

Da mochila ou embornal de Santo Antônio de Lisboa e Pádua, retiramos dois tipos alimentos suculentos. O pão de farinha e centeio, que alimenta os pobres, e o pão da Palavra Viva de Deus, refeição elementar das comunidades de Jesus. Um pão do trigo terrestre e um pão de semente celeste. O pão da terra conduz-nos ao céu e o pão do céu toca os corações empedrados e nos torna pessoas amadas e fraternas.

O famoso pão de Santo Antônio emergiu de um curioso evento que se conta a respeito do Santo Paduano. Ele se comovia tanto com a pobreza e a fome que, adiante da multidão dos esfaimados, distribuiu-lhes todo o pão que havia no convento em que vivia com os demais frades. O então frade padeiro percebeu, na hora da refeição, que nada havia para comer e o cesto estava completamente vazio. Foi contar para frei Antônio tal desastre comunitário, ao pensar que alguém tivesse roubado todo o alimento. Santo Antônio mandou que o padeiro fosse olhar novamente o cesto na cozinha. Quais não foram a surpresa e a alegria do irmão padeiro, pois ele encontrou os cestos transbordando de pão, com tamanha quantidade que, mesmo distribuídos a todos os frades e aos pobres do entorno do convento, ainda restaram muitos pães.

Este é o milagre antoniano dos mais famosos com sua lição de oitocentos anos: só quem distribui seus bens se habilita a recebê-los. Onde a fome abunda, a graça da partilha superabunda. Eis o milagre da multiplicação dos pães na divisão dos bens. Dividir é multiplicar.
Multiplicar é dividir. Gestos pessoais, comunitários e de associações e organismos, como a Caritas ou grupos de Vicentinos, multiplicam os gestos de partilha do pão dos pobres. Assim pregava Santo Antônio: “Agora o Senhor está à porta, na pessoa dos seus pobres, e bate. Abre-se-lhe quando se dá de comer ao pobre. A refeição do pobre é o descanso de Cristo: ‘O que fizestes a um dos meus pequeninos’ […].1

Os suculentos pães antonianos

Ainda podemos indicar alguns suculentos “pães antonianos” que saciam a fome infinita da humanidade peregrina: o pão da justiça social,
o pão da verdade, o pão do amor, o pão dos migrantes e refugiados, o pão dos idosos e vulneráveis, o pão dos invisíveis, o pão ecológico e da sustentabilidade, o pão dos anjos, o pão da fraternidade e, sobretudo, o pão da beleza de Deus. Assim pregou Santo Antônio, ao falar desses variados pães que Deus oferta às famintas criaturas humanas: “Segue-me, di-lo a Pedro, e também a qualquer cristão. Nu, segue-me a mim nu; desimpedido, segue-me a mim desimpedido. Segue-me, portanto, depõe a carga, pois carregado não podes seguir-me, a mim que ando a correr. Corre também tu atrás dele. Oseias 2,14 proclamou: ‘Eis que Eu o aleitarei e conduzirei à solidão e falarei ao seu coração’. Nestas três palavras observa-se o tríplice estado principiante, do proficiente e do perfeito. Aleita o principiante, quando o ilumina com a graça, a fim de crescer e progredir de virtude em virtude. Leva-o do estrépito dos vícios e do tumulto dos pensamentos para a solidão, para o repouso do Espírito. Ali, sim, já a caminho do estado perfeito, fala ao seu coração. Dá-se isto quando sente a doçura da inspiração divina e se suspende por inteiro no gozo do entendimento. Oh, quão grande é então na sua alma a grandeza da devoção, da admiração e do júbilo. Pela grandeza da devoção eleva-se acima de si mesma; pela grandeza do júbilo alheia-se de si mesma. Portanto, segue-me!”2

O Sermão de Santo Antônio proferido pelo padre António VieiraFoto Theoblog 03 recorteJunho23

O mais eminente pregador português em terras brasileiras sem qualquer dúvida foi o padre jesuíta António Vieira (1608-1697). É de sua autoria o “Sermão sobre Santo Antônio e o discurso aos peixes”. Segue uma pequena seleção que cai como uma luva oportuna para o atual momento do mundo: “A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. […] Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai! peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos.

Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas: vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer. […] Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: ‘Plebem meam’, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem, e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: ‘Qui devorant’. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: ‘Qui devorant plebem meam’. E de que modo se devoram e comem? ‘Ut cibum panis’: não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres é que, para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão cotidiano  dos grandes: e assim como pão se come com tudo, assim com tudo, e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: ‘Qui devorant plebem meam, ut cibum panis’. Parece-vos bem isto, peixes?”3

Santo Antônio distribuindo pães, José Rosário

Santo Antônio distribuindo pães, José Rosário

Temos muito a aprender de Santo Antônio como padre Vieira nos fez compreender indo ao cerne da mensagem antoniana. O Santo Paduano ensina-nos a ser seguidores de Jesus, na raiz do Evangelho, amando Sua Palavra, partilhando o pão nosso de cada dia e peregrinando pelo mundo como missionários da caridade, da verdade pela graça Divina. Pregou Santo Antônio: “Feliz, porém, aquele que arranca de si o coração de pedra e toma um coração de carne, capaz de se doer compungido das misérias dos pobres, de modo que a sua compaixão lhe sirva de consolo e este consolo lhe extinga a avareza. Corte a avareza, arranca a avareza, e, em seu lugar, planta a esmola que te produz o fruto da vida eterna”.4

A devoção ao santo dos pães exige que cuidemos dos irmãos e irmãs da Casa Comum com efetivas políticas públicas. A fome dos pobres será sempre uma ferida mortal para os cristãos. “Ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo”, afirmou o amado papa Francisco (1936-).5 Os pobres não podem seguir como comida e repasto dos opulentos e opressores. Assim ensina o eminente teólogo doutor Francisco Aquino Junior (1973): “Riqueza e pobreza têm a ver com concentração dos bens existentes. Não é algo natural, mas um produto social. Tampouco é algo bom, ético e evangélico, mas uma injustiça social e um pecado que clama ao céu. Por isso, é preciso lutar com todas as forças contra a pobreza e contra a riqueza. Só há pobreza porque há riqueza. E só se combate a pobreza, combatendo a riqueza”.6

Notas

1 LISBOA, Santo Antônio de. Sermão da Ressurreição do Senhor. In: LISBOA, Santo Antônio de. Obras completas: Sermões Dominicais e Festivos. Tradução de Henrique Pinto Rema. Porto: Lello e Irmãos Editores, 1987. p. 855. v. 2.
2 LISBOA, Santo Antônio de. Sermão na Festa de São João Evangelista. In: LISBOA, Santo Antônio de. Obras completas: Sermões Dominicais e Festivos. Tradução de Henrique Pinto Rema. Porto: Lello e Irmãos Editores, 1987. p. 656-657. v. 2.
3 Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000257.pdf. Acesso em: maio 2023.
4 LISBOA, Santo Antônio de. Sermão da Ressurreição do Senhor. In: LISBOA, Santo Antônio de. Obras completas: Sermões Dominicais e Festivos. Tradução de Henrique Pinto Rema. Porto: Lello e Irmãos Editores, 1987. p. 856. v. 2.
5 Disponível em: https://exame.com/brasil/papa-diz-que-periferia-nao-pode-ser-ignorada/. Acesso em: maio 2023.
6 Disponível em: https://portaldascebs.org.br/so-se-combate-a-pobreza-combatendo-a-riqueza/. Acesso em: maio 2023.

 

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