Que os bispos “expliquem a doutrina cristã com métodos apropriados às necessidades dos tempos, isto é, que respondam às dificuldades e problemas que mais preocupam e angustiam os homens; protejam também esta doutrina, ensinando os fiéis a defendê-la e a propagá-la. No modo de a ensinar, mostrem a solicitude maternal da Igreja para com todos os homens, quer fiéis quer infiéis, e tenham especial cuidado dos pobres e dos fracos, a quem o Senhor os mandou evangelizar. Sendo dever da Igreja entrar em diálogo com a sociedade humana, no meio da qual vive, cabe primeiramente aos Bispos ir ter com os homens e provocar e fomentar o diálogo com eles. Mas, para que se alie sempre a verdade com a caridade, e a compreensão com o amor, convém que estes diálogos de salvação se imponham não só pela clareza da linguagem e pela humildade e mansidão, mas também pela devida prudência, aliada, porém, à confiança, porque esta, fomentando a amizade, une por sua natureza os espíritos. Para anunciar a doutrina cristã, esforcem-se por utilizar os vários meios de que dispomos atualmente: primeiramente, a pregação e a formação catequética, que sempre conservam o primeiro lugar; mas também a exposição da doutrina nas escolas e centros culturais, por meio de conferências e em reuniões de todo o gênero, feitas por ocasião de certos acontecimentos, por meio da imprensa e dos vários instrumentos de comunicação social, dos quais é necessário usar para anunciar o Evangelho de Cristo”1.
Eis as orientações conciliares, destinadas aos bispos, estabelecidas no Decreto Christus Dominus: sobre o múnus pastoral do Bispos na Igreja (n. 13), do Concílio Vaticano II (1962-1965), sobre os métodos de ensinar a doutrina cristã. É iluminador repassá-las apreciando a vida da Testemunha do Reino que, agora, fazemos memória. Propício que seja a edição de junho, mês no qual fazemos memória dos 114 anos de seu nascimento e dos oitenta anos de sua eleição episcopal, bem como no ano em que recordamos os quarenta anos de sua Páscoa. Então volvamos nosso coração a um ponto cardeal: dom Avelar Brandão Vilela2.
A floração da craibeira
Era inverno, no clima tropical de Viçosa (AL), naquele 13 de junho de 1912, quando nasceu o sétimo dos dez filhos dos proprietários do Engenho Mata Verde. Àquele novo rebento, o senhor Elias Brandão Vilela e a senhora Isabel Brandão Vilela deram, na pia batismal, o nome de Avelar Brandão Vilela. Ilumina o jeito de ser da família e as influências com que foram educados pelos pais saber que, cinco anos após o nascimento do garoto, nasceria seu irmão, mais tarde conhecido como o “Menestrel das Alagoas”, o senador Teotônio Vilela (1917-1983). O menino Avelar mudou-se com a família para Maceió (AL), convivendo naquele lar pleno de doutrina e influência católica (basta saber que dois tios maternos também abraçaram a vocação sacerdotal). Vocação que logo brotou no coração do pré-adolescente: aos doze anos, ingressou no Seminário Menor de Nossa Senhora dos Prazeres da Arquidiocese de Maceió. Aos dezessete anos, o jovem crítico e observador queixou-se, entre os colegas de seminário, que as pregações do reitor eram enfadonhas. Logo isso chegou aos ouvidos do superior, e o resultado foi o seminarista contestador ser aconselhado a deixar o seminário. Não demorou para receber guarida no Seminário Sagrado Coração de Jesus, em Aracaju (SE).

Em 27 de outubro de 1935, então Festa de Cristo Rei, a família contemplou, embevecida, a ordenação presbiteral de padre Avelar, pela imposição das mãos de dom José Thomas Gomes da Silva (1873-1948). O neossacerdote ficou incumbido de atividades curiais e pastorais: seguiu atuando como secretário-geral do Bispado de Aracaju, lecionando Latim e Língua Portuguesa no seminário e cuidando dos fiéis da histórica Capela de São Salvador, em Aracaju (SE). Padre dedicado nas tarefas assumidas, organizou a 1a Semana Catequética de Aracaju, modernizando os métodos do ensino de catecismo, vinculando-os com a vida cotidiana. No campo das questões sociopolíticas, assumiu a assistência religiosa da Liga Eleitoral Católica, a assistência eclesiástica do Centro Dom Vital de Aracaju, formando o laicato, bem como da Ação Católica. Assim, admirado pelos colegas e pelos superiores, não tardou a ser elevado na hierarquia. Em 13 de junho de 1946, dia de seu 34o aniversário, o filho de dona Isabel foi nomeado bispo de Petrolina (PE), pelo papa Pio XII (1876-1958). Em 27 de outubro do mesmo ano, recebeu a ordenação episcopal, novamente pela imposição das mãos apostólicas de dom Thomas, assumindo o lema De Plenitudine Christi (“Da Plenitude de Cristo”).
A força da craibeira
Tão logo assumiu a Diocese, dom Avelar mergulhou nas agruras das pessoas do sertão e, de sacramentalista que era, precisou acrescentar um zelo profundo pela promoção humana. Escancarou olhos, mente, mãos e coração para cuidar do povo sertanejo. Foi um promotor da paz entre famílias que se engalfinhavam mergulhadas na violência – em um dos episódios, nos idos de 1949, recebeu até uma carta do governador do Estado agradecendo-lhe por apaziguar conflitos sangrentos na cidade de Exu (PE). Muito atento às necessidades, desdobrou-se o quanto pôde para educar a população, tanto em matéria de cidadania quanto no cuidado com a doutrina católica: apostou na imprensa (criou o Jornal Cristo Rei), instituiu na Diocese departamentos para cuidar das vocações sacerdotais, do ensino de religião, da educação e da cultura, da ação social, da imprensa, rádio e informação, do cinema e teatro, da defesa da fé e da moral; realizou, ainda, o 1o Congresso Eucarístico Diocesano…
Em 1952, pôs mãos à obra na criação do Centro Social Pio XI, oferecendo tudo o que podia para promover a dignidade da pessoa humana: cursos profissionalizantes, tratamento odontológico, clube de mães e lactário, escola de economia doméstica, obras sociais… além de organizar o Serviço de Orientação Rural, combatendo o êxodo e o subdesenvolvimento escandalosos da região. Sua capacidade técnica atraiu a admiração e o apoio até de autoridades, incentivadas a criar instituições e políticas públicas para amparar a população do sertão.
À sombra do caneleiro

Novos ventos sopraram na vida de dom Avelar, naquele sábado, 19 de novembro de 1955, quando o papa Pio XII o nomeou arcebispo metropolitano de Teresina (PI), encravada em uma zona de transição, entre o cerrado, a caatinga e a mata dos cocais. Ou seja, mais uma vez, as condições geográficas, sociais e econômicas exigiram do novo arcebispo o cuidado para com os desvalidos de tantas pobrezas; mais uma vez, a experiência episcopal exigia que ele cuidasse da promoção humana, ao mesmo tempo, ou justamente por conta disso, que evangelizasse de modo pleno. Muito realizou: logo encontrou meios para combater o analfabetismo, restaurou e criou colégios; instalou faculdades de Filosofia, de Humanidades, de Odontologia, que seriam a semente vigorosa da atual Universidade Federal do Piauí (UFPI); instalou o revolucionário Movimento de Educação de Base (MEB) com aulas transmitidas por rádio, que alcançavam milhares de pessoas; incentivou a Ação Católica, principalmente no âmbito juvenil em suas especificidades; auxiliou sobremaneira a conscientização dos camponeses e sua organização em sindicatos, pois encarnava, em suas ações, as riquezas da Doutrina Social da Igreja, inspirado particularmente na Carta Encíclica Quadragesimo Anno (1931)4, de Sua Santidade papa Pio XI (1857-1939). Como não podia deixar de ser, foi acusado de comunista pelas elites e de ser assistencialista e elitista por aqueles outros.
Assim como aconteceu com toda a comunidade católica, dom Avelar foi tomado de surpresa pela convocação do Concílio Vaticano II, por parte de São João XXIII (1881-1963). Participou do Concílio aos 53 anos, levando a viva experiência de outra forte característica – a de bispo do diálogo, contribuindo intensamente para amadurecer as relações dos católicos com pessoas de outras tradições cristãs e, até mesmo, não cristãs. Dos cinco bispos brasileiros que se manifestaram sobre o tema, ele foi o único a apelar para o diálogo, em vez de imposições apologéticas, auxiliando assim, nas definições conciliares, expressas na Declaração Nostra Aetate (‘Em nossa época’): sobre a Igreja e as religiões não cristãs(1965)5 e no Decreto Unitatis Redintegratio (‘Restauração da unidade’): sobre o ecumenismo(1964)6. Ter participado do Concílio, em ambiente europeu, contribuiu para seu amadurecimento episcopal, intelectual, humano e acadêmico, na preciosa aproximação com eminentes teólogos.
Na esteira das questões políticas nacionais, preocupadíssimo com o avanço da ideologia comunista entre o povo brasileiro, apoiou o golpe civil-empresarial-militar de 1964. Logo, porém, o rompimento de parcerias da Arquidiocese, por parte do governo federal, no que dizia respeito à promoção humana, bem como as prisões arbitrárias e as torturas, fizeram que dom Avelar mudasse de posição. Mas sempre esteve na corda bamba, pois tinha de manter diálogo com as autoridades civis-militares em tantas frentes, emespecial para proteger quem precisava, e apoiar a luta pela redemocratização sem fechar aquelas frentes de diálogo. Foram tempos exigentes para o arcebispo que, naqueles tempos obscuros da História, em âmbito eclesial, foi eleito vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), depois presidente deste Conselho, além de fazer parte da Comissão Organizadora da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín, na Colômbia (1968) e, nomeado por São Paulo VI (1897-1978), um dos presidentes efetivos da própria Conferência.
A imponência humilde do baobá
Não tardou para que São Paulo VI lhe confiasse uma nova tarefa. Em 27 de março de 1971, o irmão de Teotônio Vilela foi nomeado para pastorear a Arquidiocese de São Salvador da Bahia como seu 24o Arcebispo e Primaz do Brasil. Novo desafio: dos sertões e caatingas para a pujança urbana de Salvador (BA). Seguiu sendo o pastor do diálogo – estabelecendo relações frutuosas, amigas e respeitosas com luteranos, metodistas, batistas, presbiterianos… Com lucidez, sabedoria e respeito, sem evasivas, transitou pelo sincretismo bastante influente na região, orientando com clareza aos fiéis católicos, ao mesmo tempo que estabeleceu dinâmicas relacionais com autoridades religiosas das expressões de matriz africana. Muitas dessas autoridades apoiaram suas reflexões na imprensa, pois ele muito se preocupou com a exploração turística das religiões de matriz africana que não redundavam em autêntico respeito ou genuíno pertencimento, instrumentalizando-as comercialmente. Na Arquidiocese, deu continuidade a uma opção pastoral de seu antecessor (dom Eugênio de Araújo Sales [1920-2012]), confiando as paróquias a congregações religiosas femininas diante da escassez de presbíteros para tão numeroso rebanho, ao mesmo tempo que empenhou muitas energias para incentivar as vocações sacerdotais.

Como sempre, apoiador incondicional do laicato, incentivou vários movimentos: a Renovação Carismática Católica (RCC); o grupo Oração pela Arte (OPA), de padre Casimiro Irala (1936-2024); o Movimento Familiar Cristão (MFC); os Cursilhos de Cristandade e, de modo muito vivo, fortaleceu as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Em 1973, nova
surpresa pontifícia: foi criado cardeal da Santa Igreja com o título de São Bonifácio e Santo Aleixo, recebendo o barrete cardinalício das mãos de São Paulo VI.
Amado e respeitado pelo presbitério, um seminarista da época (que chegou a bispo) lembra de uma delicadeza imensa por parte do arcebispo – sendo responsável pelo báculo no dia da posse, ele o deixou cair, quebrando a pedra de ágata incrustada. Não foi repreendido, não recebeu olhar de condenação, ouviu a voz serena de dom Avelar, o olhar terno, expressando: “Ah, meu filho. Era a coisa mais valiosa do meu báculo”. Para seus padres, ele era o genuíno arquétipo do Bom Pastor. Com estes e com todo o laicato, bem como com religiosos e religiosas, contou para realizar ações impactantes e significativas para a Arquidiocese: as celebrações do tricentenário da Arquidiocese (1976); a primeira visita de São João Paulo II ao Brasil (1980) – fruto mais do que significativo é que o prestígio de dom Avelar obteve a confirmação pontifícia para reconhecer a Arquidiocese como a Sé Primacial do Brasil; o Congresso Eucarístico Regional (1983), praticamente internacional, pois, graças ao respeito por dom Avelar, até bispos de outros países participaram; as celebrações de seu Jubileu de Ouro Sacerdotal (1985)… Nos intervalos, se é que se pode dizer assim, participou dos conclaves que elegeram o Beato João Paulo I (1912-1978) e São João Paulo II (1920-2005) como pontífices da Igreja.
As controvérsias e as dores de cabeça não foram poucas. Quando da condenação a silêncio obsequioso imposta ao teólogo Leonardo Boff (1938-), não fez críticas em público sobre a decisão, mas enviou, por carta oficial, seu parecer fundamentado
e distinto daquele emanado pela Santa Sé. Sofreu reprimendas ao estabelecer diálogo e rezar missa para a maçonaria baiana, tendo de lamentar e se justificar por “ter criado situação de constrangimento para o Santo Padre”. Amargou duras críticas e oposição de setores autoritários por apoiar aos presos políticos, por rezar missa próximo a eles, incluindo ateus e materialistas; enfrentou a ditadura ao realizar, na prisão, o matrimônio de um comunista condenado à morte (que teve a pena comutada) e de sua companheira, igualmente militante. Cardeal Avelar concedeu, ainda, uma carta de apresentação para que padre Renzo Rossi (1925-2013) atuasse em todo o Brasil para atender os presos políticos nos desumanos presídios brasileiros. Registre-se, com ênfase, neste ano de 2026, em que a Campanha da Fraternidade traz por tema “Fraternidade e Moradia”, que ele foi um dos primeiros arcebispos a se preocupar efetivamente e apoiar o acesso à moradia digna, em um tempo que nem na Constituição Federal esse direito estava inscrito. A Irmã Morte, ainda que também criativa, veio ao encontro de tão amado cardeal, que padeceu por longos anos de um câncer no estômago. Enquanto durou a enfermidade, ele a encarou com resiliência e testemunho de fé, acompanhado atentamente com orações pela comunidade católica do País que, apreensiva, buscava notícias de seu estado de saúde. Eram 5h45 da manhã de sexta-feira, 19 de dezembro de 1986, quando a Irmã Morte o tomou definitivamente pelas mãos e o entregou nos braços da Misericórdia Divina.

Caros assinantes, vocês que leram o artigo até o final, por favor, retomem o trecho do Decreto Christus Dominus, apresentado no início do texto. Meditem com vagar, reflitam sobre as palavras e digam se não é exatamente expressão da vida e do testemunho de dom Avelar Brandão Cardeal Vilela.São orientações destinadas aos apostólicos pastores, mas, guardadas as especificidades, servem para todas as categorias de fiéis. Há tanto a ser vivido para que sejamos autênticas testemunhas do Reino, tendo como modelo o cardeal Avelar. Para nós, já basta que guardemos a ênfase dada por ele ao binômio “evangelizar-humanizar”. Ofertar o Evangelho de Cristo ao mundo é promover, primeiramente, a dignidade da pessoa humana; é cuidar de salvar – escatológica e antropologicamente – o ser humano todo e todo ser humano. Porque humanizar é evangelizar… e evangelizar é humanizar. Quem nos atesta, com Cristo, é dom Avelar!
Notas
1 Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19651028_christus-dominus_po.html. Acesso em: abr. 2026.
2 PORTELA, Pe. Adriano; SANTOS, Pe. Danilo Pinto dos. Dom Avelar Brandão Vilela: um bispo do Brasil-Nordeste. Brasília, DF: Edições CNBB, 2012. (Coleção Testemunhos).
3 Nos subtítulos deste artigo, optamos por analogias com as árvores marcantes de cada região em que atuou dom Avelar, ainda que não sejam nativas (N. A.).
4 Disponível em: https://www.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html. Acesso em: abr. 2026.
5 Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html. Acesso em: abr. 2026.
6 Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html. Acesso em: abr. 2026.

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