Assim como a primeira Carta Encíclica do papa Francisco (1936-2025), Lumen fidei: sobre a fé (2013)1, foi declaradamente um projeto herdado de seu antecessor, o papa Bento XVI (1927-2022), também a primeira Exortação Apostólica do papa Leão XIV (1955-), Dilexi te: sobre o amor para com os pobres2, é um texto que estava sendo preparado pelo papa Francisco. Os pontífices, com isso, deixam evidente a continuidade do magistério eclesial, por mais diferentes que os papas venham a ser em seu modo de ser e seu temperamento.
Jorge Bergoglio foi eleito a partir de uma ruptura estabelecida por seu antecessor. Com sua renúncia, o papa Bento XVI dizia, com gestos, não com palavras, que a Igreja tinha de mudar alguns rumos. O papa Francisco foi o escolhido para efetuar as mudanças – e, de fato, modificou muitas coisas. Retomar o texto de Joseph Ratzinger era uma indicação objetiva, dada por Bergoglio, que as mudanças não afetavam a espinha dorsal do magistério petrino. Por mais diferentes que fossem os papas e sua forma de conduzir os problemas da Igreja, a mensagem cristã permanece a mesma.
Com Robert Prevost, a situação era bem diferente. Ele era um dos membros do Conclave com menos tempo de cardinalato e de bispado. Toda a sua trajetória, como bispo e cardeal, aconteceu no pontificado do papa Francisco. Um norte-americano que havia partido em missão para o Peru – um exemplo encarnado da “Igreja em saída”. Os cardeais eleitores não podiam ter dado um sinal mais eloquente de sua vontade de manter a continuidade do caminho aberto pelo papa Francisco. Cada papa tem o próprio perfil, o papa Leão XIV aparenta ser mais contido e cuidadoso que seu antecessor – mas, como sempre na história da Igreja, as diferenças acontecem para manter aquilo que é essencial.
Dilexi te (DT) é a evidência de que a luz lançada pelo papa Francisco continua a iluminar a Igreja
Dilexi te (DT) é a evidência de que a luz lançada pelo papa Francisco continua a iluminar a Igreja. “Eu te amei (Ap 3,9), diz o Senhor a uma comunidade cristã que, ao contrário de outras, não tinha qualquer relevância ou recurso e estava exposta à violência e ao desprezo [,..]” (DT, n. 1). Foi com um anúncio nesses moldes que o papa Francisco conquistou o mundo não cristão de nossos tempos – que tem fome de amor, mas não sabe que o amor começa pelos últimos e não pelos primeiros. “[…] Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor” (DT, n. 7), escreve agora o papa Leão XIV. O papa Francisco, na transição do pontificado do papa Bento XVI para o seu, deixou claro que queria uma Igreja “pobre para os pobres”. Doze anos depois, o atual pontífice confirma o acerto desse desejo de seu antecessor. A opção pelos pobres é mais do que uma opção ideológica de certo contexto eclesial, é a vida que torna evidente a caridade – a única coisa que permanecerá depois que todos as demais se forem.
Mais uma vez os pobres!
Alguém poderá objetar: “Mais uma vez os pobres! Já se falou tanto deles! Isto está parecendo discurso ideológico!” O papa Leão XIV, nessa Exortação, lembra a frase de Jesus, “pobres, sempre os tereis convosco” (Mt 28,8) – mas nós podemos parafrasear dizendo que “pecados, sempre os teremos conosco” (DT, n. 4). E, se o pecado permanece, a admoestação para a virtude também tem de permanecer e ser repetida. Infelizmente, como o papa deixa claro em seu texto, apesar de o combate à pobreza ter se intensificado no mundo todo, as polêmicas ideológicas e a mentalidade individualista muitas vezes afastam os católicos de seu compromisso para com o pobre. Seguem alguns exemplos:
“Também os cristãos, em muitas ocasiões, se deixam contagiar por atitudes marcadas por ideologias mundanas ou por orientações políticas e económicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras. Observar que o exercício da caridade é desprezado ou ridicularizado, como se fosse uma fixação somente de alguns e não o núcleo incandescente da missão eclesial, faz-me pensar que é preciso ler novamente o Evangelho, para não se correr o risco de o substituir pela mentalidade mundana. Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres” (DT, n. 15).
A opção pelos pobres é mais do que uma opção ideológica de certo contexto eclesial, é a vida que torna evidente a caridade – a única coisa que permanecerá depois que todos as demais se forem
“Por vezes, em alguns movimentos ou grupos cristãos, nota-se a falta ou mesmo a ausência de compromisso pelo bem comum da sociedade e, em particular, pela defesa e promoção dos mais fracos e desfavorecidos. A este respeito, é preciso recordar que a religião, especialmente a cristã, não pode ser confinada à esfera privada, como se os fiéis não devessem interessar-se também pelos problemas relacionados com a sociedade civil e pelos acontecimentos que dizem respeito aos cidadãos. Na realidade, ‘qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios’ (Evangelii Gaudium, EG, n. 207)” (DT, n. 112-113).

Assim, mesmo entre os católicos mais fervorosos, corre-se o risco de fazer as perguntas erradas. A tendência é perguntar qual linha teológica, qual corrente doutrinal ou posição ideológica o papa Leão XIV está seguindo… Mas a pergunta justa, aquela que pode realmente ajudar-nos em nossa caminhada humana, é outra: “Eu tenho amado meus irmãos mais pobres, tenho me comprometido com eles e com o seu bem?”
Um percurso histórico
Cerca de metade da Dilexi te é dedicada a um longo percurso histórico, mostrando como o amor aos pobres é um elemento fundante do cristianismo, desde o Antigo Testamento, passando pelos Evangelhos, pelas primeiras comunidades da Igreja primitiva, pelos mestres da Patrística e pelos grandes santos, até chegar na moderna Doutrina Social da Igreja. Tudo para deixar claro que não estamos falando de uma opção ideológica, mas sim de um fundamento do modo de ser cristão, uma decorrência inescapável do primado da caridade.
A parábola do Juízo Final (cf. Mt 25,31-46), ainda que citada somente uma vez na Exortação (DT, n. 28), capta perfeitamente seu espírito – assim como a parábola do Bom Samaritano revela a alma da Carta Encíclica Fratelli tutti: sobre a fraternidade
e a amizade social (2020)3. Jesus diz-nos que todo o bem que fizemos aos últimos, aos pobres e aos que sofrem, foi a Ele que fizemos; que toda vez que nos recusamos a ajudá-los, foi a Ele mesmo que demos as costas. Essa identificação de Cristo com o pobre e seus sofrimentos perpassa todo o texto. “[…] No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo […]” (DT, n. 9). “[…] a Igreja ‘reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo […]’” (DT, n. 36). “[…] À luz do Evangelho reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de Cristo, pobre como eles e excluído como eles. A partir dessa experiência cristã, compartilhamos com eles a defesa de seus direitos” (DT, n. 100). Se somos gratos a Cristo por aquilo que nos fez, se desejamos amá-Lo sinceramente, tais admoestações não podem nos passar despercebidas. Ao contrário, devem estar no centro de nossa vida espiritual e de nosso compromisso cristão no mundo.
A polêmica opção pelos pobres
Falar em amor aos pobres é menos chocante, em nossos debates ideológicos, do que falar em opção preferencial pelos pobres. Em grande parte, o problema nasce da vinculação com a expressão “opção de classe” do marxismo – e toda uma enorme polêmica em relação à Teologia da Libertação, que se arrastou por décadas, e que, em teoria, deveria ter sido superada por duas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, Libertatis Nuntius (1984)4 e Libertatis Conscientia (1986)5, e, na prática, pela própria experiência histórica, que mostrou os limites das revoluções comunistas. O papa Leão XIV repete o esclarecimento de sempre: a opção preferencial pelos pobres não é excludente, não elimina os demais, mas compromete os demais com eles (cf. DT, n. 16).

“Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: ‘Eu te amei’”
Atrevo-me aqui a inserir duas comparações, que não estão na Dilexi te, mas que me parecem bastante esclarecedoras…
Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), um bispo brasileiro de enorme bondade, dizia que, em uma família numerosa, os pais amam todos os filhos. Se algum está doente ou enfrenta dificuldades financeiras, os pais vão dedicar-lhe mais cuidados, e esperam que sues irmãos façam o mesmo. Não diminui o amor pelos demais, mas a atenção se volta para aquele que mais sofre. Assim deve ser entendida a opção preferencial pelos pobres na Igreja.
No final da Fratelli tutti, o papa Francisco lembra São Charles de Foucauld (1858-1916). Ele queria ser irmão de todos, mas “[…] somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos […]” (FT, n. 286-287). Se queremos o bem comum, a justiça e a liberdade para todos, temos de começar pelos últimos, pois é a partir deles que compreenderemos o que deve ser garantido para todos, como o amor poderá ajudar na construção de uma sociedade melhor para todas as pessoas.
“[…] A opção preferencial pelos pobres, ou seja, o amor que a Igreja tem por eles, como ensinava São João Paulo II, ‘é decisivo e pertence à sua constante tradição, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso técnico-económico, a pobreza ameaça assumir formas gigantescas’ (Centesimus Annus, CA, n. 57) […]” (DT, n. 110).

Assistencialismo, promoção ou revolução?
Se a Igreja Católica tem uma longa história de compromisso com os pobres, se o amor/opção pelos pobres é evangélico, como explicar que seja tão polêmica ainda hoje entre os católicos? Muitos dirão que é um problema de conflito de interesses, de egoísmo, luta de classes. Provavelmente, não estão totalmente equivocados. Mas há outro aspecto a se considerar. Do ponto de vista programático, a opção pelos pobres manifesta-se de três modos possíveis: assistencial, promoção humana ou revolução.
Historicamente, os cristãos sempre criaram obras assistenciais em prol dos pobres. É um caminho bem trilhado e muitas vezes indispensável. O pobre idoso ou enfermo, a criança abandonada e o dependente químico com o intelecto comprometido precisam ser assistidos em sua vulnerabilidade. Muitas vezes, porém, a mera assistência não cria as condições para a superação da pobreza, por isso a promoção humana, que ajuda a pessoa a superar suas limitações e desenvolver todo o seu potencial, é – na maior parte dos casos – a resposta solidária mais adequada. Novamente, são caminhos bem trilhados pelas comunidades católicas.
O grande problema é o caminho revolucionário, que implica um conflito social que não corresponde à Doutrina Social da Igreja – ainda que muito idealizado ao longo do século XX. Hoje, a via revolucionária entusiasma cada vez menos pessoas. O maior perigo, para nós, cristãos de hoje, é usarmos a negação da via revolucionária para nos acomodarmos e deixarmos de assumir nosso compromisso evangélico com os pobres. Nas palavras do papa Leão XIV: “[…] persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano […]” (DT, n. 11) e “[…] Torna-se normal ignorar os pobres e viver como se eles não existissem. Apresenta-se como uma escolha razoável organizar a economia exigindo sacrifícios ao povo, para atingir certos objetivos que interessam aos poderosos […]” (DT, n. 93).
Muitas vezes, a promoção humana, para dar seus frutos, necessita de mudanças profundas nas sociedades – e temos de reconhecer e estar abertos a essas mudanças, se queremos realmente o bem de nossos irmãos. Como diz o papa Leão XIV no encerramento da Exortação: “Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: ‘Eu te amei’ (Ap 3, 9)” (DT, n. 121).
Notas
1 Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei.html. Acesso em: out. 2025.
2 Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004-dilexi-te.html. Acesso em: out. 2025.
3 Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em: out. 2025.
4 Disponível em: www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19840806_theology-liberation_po.html. Acesso em: out. 2025.
5 Disponível em: www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19860322_freedom-liberation_po.html. Acesso em: out. 2025.

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