Educação, religiosidade e compromisso com a realidade, com a dor do seu povo, marcaram a vida do pontífice argentino.
Saiu de Buenos Aires o primeiro papa latino-americano, uma liderança mundial: Jorge Mario Bergoglio. Sua eleição aconteceu em 13 de março de 2013, aos 76 anos. O nome escolhido foi Francisco, em homenagem ao Santo de Assis, e sob a influência de um franciscano brasileiro, o cardeal dom Cláudio Hummes (1934-2022).
Essa história é mais popular do que toda a trajetória anterior ao papado. Bergoglio nasceu no Bairro de Flores, na capital federal, bairro de seu time de futebol amado: o San Lorenzo. Foi por lá que ele viveu os primeiros anos de vida com seus pais, Mario José, funcionário de ferrovia, e Regina María Sívori, dona de casa, e os quatro irmãos: Alberto Horacio, Oscar Adrián, Marta Regina e María Elena. Era uma casa simples, na Rua Membrillar, 531.
Foi batizado em 25 de dezembro de 1936, na Basílica de Maria Auxiliadora, localizada no Bairro Almagro. Hoje, o batistério daquele templo é ornamentado pelas bandeiras da Argentina e do Vaticano, além de uma fotografia do papa Francisco. Aquele é, também, um espaço de peregrinação.
Outra basílica, no entanto, preserva ainda parte importante da trajetória do jovem Bergoglio. A Basílica de San José de Flores, no centro do bairro homônimo de Buenos Aires, ainda preserva o confessionário no qual Bergoglio, em 21 de setembro de 1953, teria recebido o chamado de Deus para ser padre. “Flores é o bairro onde nasci e vivi até entrar para o seminário. Com um pouco de petulância, posso dizer que é o meu bairro, minhas raízes”, escreveu o papa Francisco em 2018, ao Museo Barrio de Flores, por ocasião de sua inauguração.
A proximidade e o afeto sustentado pelo “bairro” estão intimamente ligados a seu dia a dia com o povo e a realidade que ele enfrentava. Desde que entrou para o noviciado na Companhia de Jesus, em 11 de março de 1958, esteve estudando e/ou dando aulas. Entre os percursos de formação humana com os jesuítas, esteve no Chile, e, em 1963, obteve a licenciatura em Filosofia, lecionando essas mesmas matérias em 1966. Antes, contudo, de 1964 a 1965, foi professor de Literatura e Psicologia e, de 1967 a 1970, estudou Teologia, sempre em Buenos Aires. Foi ordenado padre pouco antes de completar 33 anos de idade, em 1969.
Em 20 de maio de 1992, foi nomeado por São João Paulo II (1920-2005) bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires. Sua ordenação episcopal aconteceu no dia 27 de junho desse ano, na Catedral Metropolitana, localizada diante da Plaza de Mayo, no centro da cidade. Segundo os fiéis, ele “foi um pastor simples e muito amado na sua diocese, que conheceu de lés a lés, viajando também de metrô e de autocarro, durante os quinze anos de seu ministério episcopal”, registra a biografia vaticana.
Como arcebispo de Buenos Aires, diocese com mais de três milhões de habitantes, o papa Francisco criou um projeto missionário centrado na comunhão e na evangelização, que tinha quatro objetivos centrais: comunidades abertas e fraternas; protagonismo de um laicado consciente; evangelização destinada a cada habitante da cidade, e assistência aos pobres e aos enfermos.
Seu objetivo era reevangelizar Buenos Aires, “tendo em consideração os seus habitantes, o modo como ela é e a sua história”. Convidou sacerdotes e leigos a trabalharem juntos. Em setembro de 2009, lançou a campanha de solidariedade em nível nacional, em vista do bicentenário da independência do país: duzentas obras de caridade a serem realizadas até 2016. E, em chave continental, alimentou fortes esperanças, com a mensagem da Conferência de Aparecida, de 2007, chegando a defini-la como a “Evangelii Nuntiandi da América Latina”.
O papa Francisco foi, sem dúvidas, um dos grandes líderes de nosso tempo. Não reinventou a roda do papado, mas assumiu o Evangelho de modo – para alguns – radical, dando preferência aos mais pobres e marginalizados. “E esta não é uma opção política; nem sequer uma opção ideológica, uma opção de partidos. A opção preferencial pelos pobres está no centro do Evangelho. E quem a fez primeiro foi Jesus; ouvimos isto no trecho da Carta aos Coríntios, lido no início. Ele, sendo rico, fez-se pobre para nos enriquecer. Fez-se um de nós e por isso, no centro do Evangelho, no centro do anúncio de Jesus, há esta opção”, disse o papa Francisco em audiência de 19 de agosto de 2020, citando a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: o anúncio do Evangelho no mundo atual1: “[…] a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG, n. 195).
Essa foi a primeira encíclica publicada pelo papa Francisco, em 2013. Nela ele enfatiza, ainda, a importância da missão evangelizadora da Igreja e seu carinho e devoção pela Mãe de Jesus, nossa mãe. “[…] Porque, sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto” […] (EG, n. 288), ensinou, no texto.

Papa Francisco, Vatican Media
Ainda na esteira de seu legado, observamos os ensinamentos da Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum2, publicada em 2015. Nela, o pontífice deixa reflexões sobre os impactos ambientais à humanidade e todas as questões sociais interligadas que fragilizam ainda mais aqueles que vivem nas periferias geográficas do mundo. “[…] hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, n. 49), escreveu na referida encíclica, sobre a desigualdade planetária.
Ao longo de seu pontificado, o papa Francisco destacou a interconexão entre a dignidade humana e o cuidado com a criação, e mais, como os pobres são frequentemente os mais afetados pelas crises ecológicas, econômicas e políticas. Sem falar nas guerras e nos conflitos mundiais que vitimam mulheres e crianças, como na Faixa de Gaza.
Último gesto concreto – que até aqui se sabe – foi destinar um de seus carros à Cáritas de Jerusalém. Segundo o portal de notícias Vatican News, o pontífice pediu que seu papamóvel fosse transformado em uma clínica para as crianças da Faixa de Gaza, respondendo à devastadora guerra que provocou uma crise humanitária, na região, deixando infraestruturas em colapso e um sistema de saúde debilitado.
A posição do papa contra conflitos e guerras, como mediador da paz, como um líder mundial, sempre foi respeitada e, ainda hoje, se faz necessária. Colocou-se como ponte de diálogo em diversas e complexas situações diplomáticas, tentando construir a paz em guerras entre Israel e o Hamas, no Conflito entre o Azerbaijão e a Armênia, em Nagorno-Karabakh, na Guerra entre a Rússia e a Ucrânia, na Guerra da Síria, na Guerra Civil no Iêmen e no Tigre. “Exorto, mais uma vez, todos os parceiros que continuem a dar ajuda humanitária às pessoas afetadas pela guerra no Tigré (Tigray), de modo a responder conjuntamente à imensa necessidade do povo tigrínio”.
A voz do papa ao denunciar tais conflitos trouxe luz à realidade alarmante de que, das 1,1 bilhão de pessoas que vivem na pobreza, 455 milhões residem em países afetados por guerras ou em situações de paz frágil. Esses dados são de outubro de 2024, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Além da pobreza extrema, causada pela guerra, a população enfrenta deslocamentos em massa, insegurança alimentar crônica e uma constante ameaça de violência. Não por acaso, o papa Francisco realizou, ao longo de seus doze anos de pontificado, 47 viagens apostólicas, percorrendo 65 países, sendo ponte de acolhida e afeto.
“Francisco nunca deixou de lembrar-nos sobre nossos irmãos e irmãs em deslocamento forçado. Como uma teia delicada e resistente, suas incansáveis recomendações foram tecendo um manto de proteção – defendendo a acolhida incondicional, a abertura das fronteiras nacionais, a criação de leis mais humanas para regularização migratória, o direito fundamental de migrar e, ao mesmo tempo, o direito a não ser forçado a deixar sua terra. Seu apelo às paróquias e instituições religiosas para que abrissem suas portas às famílias migrantes e refugiadas não foi apenas palavra – foi testemunho vivido quando ele próprio levou para a Itália, sob a proteção do Vaticano, famílias sírias refugiadas”, ressaltou a Irmã Rosita Milesi (1946-), missionária scalabriana, referência do tema de migração e refugiados no país, em homenagem ao papa.
O papa Francisco faleceu em 22 de abril, aos 88 anos, deixando-nos um legado de humildade, misericórdia e compromisso com os mais pobres, e também muita saudade.
Notas
1 Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html. Acesso em: maio 2025.
2 Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf. Acesso em: maio 2025.


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