Oscar Romero: bispo dos pobres, mártir da fé

Escrito por omensageiro_master

Publicado na edição de Maio/2015

“Querría dirigir una llamada especial a los hombres del Ejército, y especialmente a las bases de la guardia nacional, de la policía, de los cuarteles: ‘Hermanos, sois de nuestro mismo pueblo, matáis a vuestros hermanos campesinos y ante la orden de asesinato que da un hombre debe prevalecer la ley de Dios que dice: No matarás… […]. La Iglesia, defensora de los derechos de Dios, de la dignidade humana, de la persona, no puede quedarse calada ante tanta abominación […]. En el nombre de Dios, por lo tanto, y en nombre de nuestro pueblo que sufre, cuyos lamentos llegan al cielo cada día más tumultuosos, les suplico, les ruego, les ordeno en nombre de Dios: ¡Cese la represión…!’”1

Com a força dessas palavras, na arriscadíssima atitude de pronunciá-las contra as forças repressivas de uma ditadura sanguinária, dom Óscar Romero dava mais um passo rumo ao coração do Deus dos sofridos e em direção ao coração do povo salvadorenho, que padecia os horrores de uma ditadura civil-militar, retrato de tantas ditaduras que padeceram os povos latino-americanos. Palavras pronunciadas durante a homilia da missa dominical celebrada na Basílica do Sagrado Coração, pois a Catedral de San Salvador estava ocupada por movimentos populares que lutavam contra a ditadura, naquele 23 de março de 1980. Tudo concorreu para aquele evento inesquecível: a Rádio YSAX, que transmitia as missas dominicais presididas por dom Romero, estava novamente pronta para suas transmissões, após os atentados que haviam destruído seus estúdios. A voz do bispo, em suas tão necessariamente longas homílias, era uma das únicas que se levantavam em condições de serem ouvidas em defesa do povo salvadorenho. Além disso, as transmissões da Rádio YSAX eram atenciosamente acompanhadas por todos, tanto opressores quanto oprimidos; por isso, dom Romero apelava com palavras tão veementes às bases das forças militares (ele sabia que os mandatários também estavam ouvindo!).


Óscar Arnulfo Galdaméz Romero nasceu em 15 de agosto de 1917, em uma família de algumas posses e de condição econômica razoável. Era o terceiro dos oito filhos do senhor Santos Romero, um operador de telégrafos, e de dona Guadalupe de Jésus Galdaméz, filha do proprietário do posto telegráfico da localidade de Ciudad Barrios, em El Salvador (país da América Central). Foi educado, tanto pelo pai quanto pela mãe, a guardar a devoção e a tradição católicas. A vocação sacerdotal de Romero o conduziu à ordenação presbiteral, ocorrida em 4 de abril de 1942, em Roma. Sua estrita obediência à pessoa do pontífice, fruto de sua fascinação pelo papa Pio IX (1792-1878), marcaria para sempre seu ministério, a ponto de se poder dizer dele que era ‘bom salvadorenho, verdadeiro romano’. Em tempos de Segunda Guerra Mundial (1939-1945), procurou sair da difícil vida em Roma para voltar a El Salvador (1943), mas acabou pior do que estava: foi preso por estadunidenses em um campo de concentração em Cuba, pois era suspeito de espionagem por ter saído da Itália (país aliado da Alemanha e inimigo dos Estados Unidos nesse conflito). Ele só foi liberado três meses depois, após ter sido casualmente reconhecido como sacerdote por religiosos redentoristas.
Foi somente em 11 de janeiro de 1944 que pôde, finalmente, rezar a primeira missa na terra natal, com conterrâneos e familiares. Desse dia em diante, sua ascensão na hierarquia da Igreja salvadorenha e regional foi sempre crescente: pároco, secretário pessoal do bispo da diocese de San Miguel, secretário da Conferência Episcopal Salvadorenha, secretário do Secretariado Episcopal da América Central, nomeação episcopal para auxiliar do arcebispo dom Chávez y González (1970), diretor do jornal diocesano, reitor do seminário interdiocesano, bispo da diocese de Santiago de Maria (1974), arcebispo da diocese de San Salvador (1977).


Dom Romero sempre teve livre trânsito entre as famílias da oligarquia, sendo amigo de presidentes ditatoriais. Ele considerava que a situação do país era delicada, mas não concordava com aqueles que queriam mudanças; por isso, colecionava conflitos e confrontos com os setores populares, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), com religiosos que viviam entre o povo e que se compadeciam das dores dos oprimidos. Quando foi empossado arcebispo de San Salvador, os ricos e poderosos fizeram festa, pois tinham um importante aliado dentro da hierarquia eclesial; em contrapartida, os empobrecidos choraram, pois ele não era exatamente um pastor com cheiro de ovelhas. Mas, desde que assumira a diocese de Santiago de Maria, uma mudança gradual, lenta, sofrida, vinha-se operando no coração do prelado.
Entre 1975 e 1980, o amigo dos oligarcas percebeu o descaso desses diante das denúncias que fazia ao testemunhar a dor dos familiares de jovens e lideranças assassinadas pelas forças da repressão; também viveu dolorosamente o assassinato dos sacerdotes que aprendeu a compreender e apoiar, entre os quais o padre Rutílio Grande (1928-1977). Assim, de um catolicismo de gabinete e ultramontano, passou a respeitar e admirar a liderança e a sabedoria dos cristãos da periferia. Ainda que sempre estivesse ligado aos sacerdotes da Prelazia do Opus Dei, pedindo pela canonização de São Josemaría Escrivá (1902-1975), fundador da instituição, soube aproximar-se, na outra ponta do espectro católico, dos Teólogos da Libertação de seu país – particularmente Ignácio Elacuría
(1930-1989) e Jon Sobrino (1938-) –, marcando sua trajetória episcopal. De um bispo que acusava de comunistas os padres que lutavam entre os perseguidos, colocando a vida desses sacerdotes em risco diante de tais acusações, passou a ser um bispo que a uma mãe que lhe pedia que rezasse missa em memória do filho jornalista assassinado, mas precavendo dom Romero de que o falecido era comunista, respondeu-lhe: “Não me importa que seja comunista; importa-me que é filho de Deus!”
A dor do povo foi tornando dom Romero aquele pastor que se compadece de suas ovelhas, que as conhece pelo nome, que as defende dos lobos que as querem devorar. Mas ser um pastor assim, diante de lobos tão ferozes, possui um custo: o bispo passou a ser ameaçado continuamente de morte. Como confessava aos amigos, ele temia morrer, não sentia propensão nenhuma ao martírio, mas não recuou, nem abandonou o povo; em vez disso, ergueu sua voz e assumiu atitudes tão desafiadoras quanto quando celebrou a famosa “Missa Única”. Acolhendo o clamor dos cristãos das Comunidades Eclesiais de Base, ele determinou que nenhuma paróquia celebrasse naquele domingo, 20 de março de 1977; então uma única missa foi celebrada na Catedral de San Salvador, reunindo o maior número de fiéis, como denúncia a toda opressão sofrida pelo povo que aprendera a amar. Desse modo, angariava desafetos em todos os setores e também na Igreja de El Salvador; alguns irmãos no episcopado o afrontavam e o denunciavam secretamente às autoridades de Roma como conivente com o comunismo e com os grupos da esquerda armada que lutavam contra a ditadura das oligarquias. Sendo assim, não era bem-visto por muitos na cúria romana e até São João Paulo II (1920-2005) nutria desconfianças em relação a sua postura; o pontífice era reticente, exigindo-lhe prudência e cuidado em suas atitudes e palavras.

Voltemos à homilia do início deste artigo. Foi a gota-d’água para os poderosos! No dia seguinte (24 de março de 1980), dom Romero iria rezar uma missa em sufrágio da alma de uma senhora sua amiga, na Capela do Hospital da Divina Providência. As freiras estavam preocupadíssimas, pois novamente se ameaçava na imprensa que o bispo seria assassinado. Quiseram demovê-lo de celebrar, mas ele as acalmou, dizendo-lhes que seria rápido. Iniciou pontualmente às 18 horas, com os familiares da senhora falecida, religiosas e alguns pacientes do hospital. Terminada a homilia, o prelado dirigiu-se ao centro do altar para o ofertório; nesse momento, percebeu que, na porta da capela, chegavam alguns suspeitos. Então, inclinou-se brevemente sobre o altar; foi quando um tiro fatal lhe cravou o coração, e ele tombou entre o altar e o sacrário, imolado!
Outra vez, os ricos e os poderosos fizeram festa, enquanto os empobrecidos e perseguidos choraram e sofreram muito, mas haviam se invertido os motivos: dessa vez, os primeiros haviam matado aquele que se tornara seu mais ferrenho inimigo, e os últimos haviam perdido o pastor que se deixara impregnar do cheiro de ovelhas, o bispo de coração compassivo e fé corajosa. Seu funeral foi realizado em meio a tumultos, repressão e mais assassinatos – sinal doído em um país cada vez mais mergulhado em uma guerra civil.
Em 1997, dom Romero foi declarado servo de Deus pelo papa São João Paulo II. Em fevereiro de 2015, o papa Francisco (1936-) aprovou seu decreto de beatificação, cuja data oficial será 23 de maio. Ficou claro que o bispo foi assassinado por ódio a sua fé cristã, ainda que tenha sido vítima do ódio de pessoas que se diziam católicas em um país católico. Ele foi uma vítima imolada no altar pagão de uma ditadura oligárquica; sua morte significa, como tantas outras, um clamor para que nunca mais, em nenhum canto do planeta, independentemente dos motivos, se apoie, se deseje, se peça que ditadores intervenham para supostas e ilusórias soluções de problemas políticos, sociais, econômicos. Seu assassinato representa um brado para que, acima de qualquer ideologia, estejam a fé cristã autêntica e o amor aos sofredores; além disso, é um clamor contra toda e qualquer ditadura de qualquer matiz ou grupo, em favor da defesa incondicional da dignidade da pessoa humana e da justiça social!
A vida de dom Romero – toda ela – e sua beatificação simbolizam um apelo para que, também nós, sejamos plenos de um coração puro e de intenção sagrada como ele sempre foi, repletos de amor à Igreja-Povo de Deus e fiéis Àquele que disse de Si: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10b).

Nota

  1. “Queria dirigir um apelo especial aos homens do Exército, e especialmente às bases da guarda nacional, da polícia, dos quartéis: ‘Irmãos, sois de nosso mesmo povo, matais aos vossos irmãos camponeses, mas diante da ordem de assassinato que lhes dá um homem deve prevalecer a lei de Deus que diz: Não matarás… […]. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação […]. Em nome de Deus, portanto, e em nome de nosso povo que sofre, cujos lamentos chegam ao céu cada dia mais tumultuosos, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno em nome de Deus: Cessem a repressão…!’” (tradução minha). Citado à página 274 do livro Óscar Romero: pastor de corderos y lobos, de Alberto Vitali (Ediciones San Pablo, 2012). nossa referida obra serviu de base para as principais informações deste artigo, além de consultas em sites da internet referentes às notícias do anúncio da beatificação de dom Óscar Romero.

José Ricardo Baptista

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