Liturgia e salvação

Escrito por Pe. Valeriano dos Santos Costa

O pe. Valeriano dos Santos Costa foi ordenado em 7 de junho de 1980, por dom Paulo Evaristo Arns. Exerceu diversos trabalhos pastorais, entre eles atuou como missionário por cinco anos na Prelazia de Itacoatiara, no Amazonas, na época Igreja-irmã da Arquidiocese de São Paulo. Em 1992, a pedido de dom Paulo Evaristo Arns, foi estudar liturgia em Roma, onde obteve o doutorado pelo Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo. De volta, desde 1998 leciona liturgia e sacramentos na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, desenvolvendo pesquisa sobre a sacramentalidade da liturgia. É também reitor do Seminário de Filosofia São Cura d Ars, da Arquidiocese de São

Para fazermos uma verdadeira catequese sobre a liturgia, é necessário iniciarmos com a relação entre liturgia e salvação, pois celebrarmos a fé, por meio da oração ritual da Igreja, para expressarmos nossos louvores a Deus, não acrescenta nada a Deus, mas sim a nós. Isso acontece porque a liturgia está no eixo da salvação, situando-se na parte  final do  arco com que a teologia desenha todo o percurso do projeto de Deus na história da salvação, que é a grande história que Ele faz com seu povo, desde a criação do mundo até a consumação de toda obra que desemboca na Parusia (segunda vinda de Jesus Cristo). No ponto mais alto desse arco, ocorre a encarnação do Verbo, quando Deus enviou o próprio Filho, que nasceu de mãe humana, isto é, sujeito à lei, para salvar os que estavam debaixo da lei, a fim de que pudéssemos nos tornar filhos adotivos pela graça (cf. Gl 4,4-5). Então a história da salvação é uma história de amor. Deus é o protagonista, porque Ele é amor (cf. 1Jo 4,8). Porém o mais importante é ter consciência de que a liturgia está estreitamente vinculada à obra da salvação que o amor de Deus realiza no mundo. Estamos falando não do amor humano, que, brotando da natureza criada, está vinculado à sobrevivência da criatura. Isso faz que o amor humano seja um movimento cujo eixo é o eu, não o outro. Em nossa catequese litúrgica, que conta com oito temas, incluindo este, vamos abordar o assunto com mais precisão, tentando mostrar que a liturgia, sendo um ato do amor de Deus, só pode ser celebrada no amor divino. Então o arco da história da salvação teve seu ponto mais alto no mistério pascal de Cristo, iniciado  com a concepção de Jesus, no seio virginal de Maria, e concluído com o Pentecostes, agora caminha para sua fase final de descida. Por isso, estamos nos últimos tempos da salvação, pois nada mais de novo acontecerá; tudo o ainda houver não será senão para prolongar ou ilustrar o mistério de Jesus Cristo, do qual a liturgia é parte importante.

Por que Deus deseja, como diz a Oração Eucarística III, que, nos últimos tempos da salvação, a Igreja reúna-se em toda parte, do nascer ao pôr do sol, para oferecer o, sacrifício perfeito? Não é senão para que todas as criaturas, encabeçadas pelo homem, proclamem o devido louvor a Deus, por meio de Jesus Cristo e pela força do Espírito Santo, em vista da santificação do universo. É parecido com o que Paulo escreveu a Timóteo: Deus quer que todos os homens sejam salvos e alcancem o conhecimento da verdade (cf. 1Tm 2,4). Essa é a razão de todas as motivações que levam a Igreja a crer, celebrar e testemunhar a fé. Então todo ministro litúrgico deve saber que o esmero com que se dedica em busca do melhor desempenho em seu ministério é para contribuir com o plano da salvação. O jeito de celebrar, o ritmo do cerimonial, a atenção orante e adorante não se fundamentam no que Deus gosta ou deixa de gostar, mas no que facilita a salvação que os sacramentos e sacramentais da Igreja proporcionam pela graça.

Nesse sentido, como expressão primeira da obra de Deus nos tempos finais da história da salvação, a liturgia não é uma ação moral, de tal forma que se paute pelo certo ou errado, mas uma ação salvífica que pode funcionar ou não. Da parte de Deus, já está garantida a eficácia ex opere operato (‘por efeito da própria obra’) dos Sete Sacramentos, pois, quando se celebra como a Igreja determina, de acordo com os livros litúrgicos, a eficácia é garantida na validade operada pela graça sacramental e não pelo status de fé do ministro celebrante. No entanto, isso não é o suficiente para que a pessoa experimente a salvação que a liturgia proporciona; é preciso que acolha a salvação com as disposições corretas do coração. Por isso, precisamos tomar maior cuidado com a qualidade litúrgica. Isso não despreza a validade, já que não se espera do ministro fazer  algo diferente do que está previsto nos livros litúrgicos, o que seria gritante e inaceitável. A questão é perguntar:  com que disposição de coração o próprio ministro deve atuar e que qualidade a liturgia deve ter, para ajudar toda a assembleia a mergulhar no mistério celebrado, a fim de beber a salvação nas águas límpidas do mistério de Jesus Cristo? Nesse aspecto, são trabalhadas quatro dimensões que garantem que a sacramentalidade da liturgia seja de boa qualidade e, como tal, facilite a obra da graça de Deus, que é a salvação e o conhecimento da verdade para todos os homens (cf. 1Tm 2,4). Portanto, nosso estudo não se pautará pela preocupação sobre o que está certo ou errado, mas pelo que facilita ou dificulta a experiência de Deus na  liturgia; em outras palavras, significa o que abre ou fecha a porta que ajuda a pessoa humana a acolher a salvação que nos é dada graciosamente em nossos ritos sacramentais. Aliás, fazer desse ou daquele modo está certo ou errado para Deus ou para o homem que celebra? Parece-me que Deus, em Seu infinito amor,  não usa a liturgia como critério moral para justificar a salvação. Isso será feito pelas normas do amor traduzido em obras de caridade, conforme São Mateus (cf. Mt 25). Deus deseja que a liturgia seja o meio eficaz de salvação para toda a humanidade, com as consequências cósmicas preconizadas por Teilhard de Chardin (1881-1955), jesuíta, teólogo e palenteólogo francês.

Por isso, nos próximos tópicos, trabalharei as quatro dimensões sacramentais da liturgia: a beleza, a ordem, o amor e o êxtase. Para mim, esses são os quatro pilares que garantem que a liturgia seja realmente um derramamento da salvação, possibilitando que a pessoa venha para a oração comunitária da Igreja, trazendo seus problemas e seus fragmentos psíquicos e culturais e saia restaurada para as lutas diárias, até a próxima semana. Darei indicações de ordem prática ou técnica, mas frisando sempre que dois passos para cá ou dois passos para lá não têm nenhuma importância, senão como  critério de facilitação da salvação. A pergunta que se deve fazer para planejar, celebrar e avaliação qualquer celebração litúrgica não é o que está certo ou errado, pois aí se embrenharia na senda complicada da moral, mas o que ajuda ou atrapalha o encontro com Deus. É o questionamento sobre se a celebração possui a beleza, a ordem, o amor e o êxtase suficientes para garantir um encontro com Deus; se com tais gestos e com tal forma de celebrar, as pessoas são atraídas a Deus e ajudadas a se encantarem com o mistério pascal, que a liturgia celebra com tanta eficácia. Com isso, quero reafirmar minha fé no mistério pascal e a certeza de que liturgias bem celebradas contribuem de forma única para o bem da Igreja e a salvação de todos os cristãos, os quais, pelo batismo, receberam o sacerdócio real, comum a todos os que passam pelas águas batismais. Assim espero contribuir com os leitores de O Mensageiro de Santo Antônio e com os que tiverem acesso aos oito encontros de catequese litúrgica que iniciamos hoje.

Pe. Valeriano dos Santos Costa

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