Irmãos Menores, uma identidade a ser constantemente construída

Escrito por omensageiro_master

Quando São Francisco de Assis estava escrevendo a Regra:
“e sejam menores”, ao pronunciar estas palavras, disse:
“Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos Frades Menores”.
Deste modo, São Francisco exprimiu-se, dirigindo-se ao Bispo de Óstia:
“Senhor, meus frades têm o nome de menores para não desejarem ser maiores.
Sua vocação fica embaixo, seguindo os passos de Cristo”.
Certa ocasião, determinado grupo de jovens procurava compreender
o que poderia querer dizer a expressão “Deus Todo-Poderoso”.
Encontraram rapidamente muitas palavras que podiam descrever a onipotência divina com justeza. Quando entraram em contato com o Evangelho do lava-pés,
um deles declarou enfaticamente:
“Um Deus assim? Nunca teríamos podido inventar!” (René Aucourt)

    Irmãos Menores, Frades Menores, minorismo. Tema vasto e complexo! Tem tudo a ver com humildade, não prepotência, postura de verdade diante de Deus, desejo de não chamar atenção sobre si, colocar-se a serviço, convidados a um banquete não desejar os primeiros lugares, não atribuir a si aquilo que deve ser devolvido a Deus, restituir ao Senhor o que é do Senhor. No tempo de São Francisco de Assis (1182-1226), é bem verdade, “minores” era, antes de tudo, uma classificação social. “Para compreender todo o alcance da designação dada por Francisco aos irmãos é preciso fazer uma observação importante. Embora inspirada no Evangelho, a denominação “minores”, tinha na época, conotação de distinção de classes […]. Com ela designava-se o povo simples das oficinas e dos porões, cujas fileiras eram engrossadas pelos que fugiam dos campos e da escravidão. O termo “minores” englobava todos os que, na nova sociedade, não ocupavam os primeiros lugares e que, algumas vezes, não tinham nenhum lugar”.

 

 

Eis as passagens-chave das Fontes para a reta compreensão de nosso tema: São Francisco vincula o tema do minorismo ao serviço: “Igualmente nenhum irmão exerça uma posição ou cargo no mundo, e muito menos entre os próprios irmãos. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: ‘Os príncipes das nações as subjugam e os grandes imperam sobre elas’ (Mt 20,25), assim não deve ser entre os irmãos, mas antes: ‘Aquele que quiser ser o maior entre eles seja o ministro (cf. Mt 20,26-27) e servo deles, e quem for o maior entre eles faça-se o menor (cf. Lc 22,26)’”.
São Francisco une minorismo à cena do lava-pés. “E neste gênero de vida ninguém seja intitulado “prior”, mas todos sejam designados de “frades menores”. E um lave os pés ao outro!”. O mesmo acontece com uma de suas Admoestações: “Não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor. Os que estão constituídos sobre os outros não se vangloriem desta superioridade mais do que se estivessem encarregados de lavar os pés aos irmãos. E se a privação do cargo de superior os perturba mais do que a privação do encargo de lavar os pés, amontoam para si muitas riqueza, com perigo para sua alma” (Admoestação IV).

O minorismo franciscano enraíza-se, pois, na contemplação do Cristo servo. É fascinante ver um Deus que se ajoelha diante de suas criaturas para servi-las. Um amor desinteressado que serve é a grande revelação do Evangelho, no dizer de Michel Hubaut. Trata-se de uma hierarquia invertida em que será preciso servir não aos grandes, mas aos menores. O lava-pés vira tudo às avessas.

Detenhamo-nos, por pouco que seja, no que relata o evangelista João (cf. Jo 13). Tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até o fim. O Mestre dispõe-se a participar da ceia com os seus. Há, no entanto, uma interrupção. A mesa estava posta e a refeição podia ter lugar. Plasticamente Jesus quer deixar aos Seus um tópico importante no Testamento, de um amor que vai até o fim. Talvez o verdadeiro segredo de Jesus esteja nesse gesto que agora colocava. Deixando o manto e dobrando-se ao chão, faz-se empregado, servo. Há quem se pergunta se não seria isto o anúncio da morte como um dom. O evangelista diz que, depois, Ele retomou o manto. Esta retomada não significaria a ressurreição? Não se tratava, em todo caso, de uma mera encenação. Jesus se levanta, deixa o ordinário, o “normal”, a roupa solene. Adota a condição de servo. Não quer causar impacto, mas a totalidade de sua pessoa se revela neste gesto. Deus está de joelhos diante do homem, lavando-lhe os pés. São Francisco não poderia deixar de se impressionar com esta passagem de João. Os seus, tocados pelos gestos de Jesus, não poderiam ser outra coisa, senão “lavadores de pés”. Não é preciso ser oficialmente franciscano para que alguém sinta-se discípulo de Cristo à maneira franciscana. Basta cuidar de alimentar o minorismo.

Lava-pés, gesto de humildade de proximidade da terra, do humus. Gesto prenhe de verdade. A Igreja declarou que os sacramentos são sete. O lava-pés se não pode ser alçado a tal categoria, poderia, no entanto, ser um sacramental. Em nossas reuniões cristãs, franciscanas e clarianas, esse gesto tem seu valor imenso em eventuais celebrações. Gostamos muito de colocar o distintivo do tau em nossa veste. Por vezes, imagino que seria bom que tivéssemos um bottom representando uma bacia com uma toalha. Cristãos e franciscanos, somos lavadores dos pés uns dos outros, somos Irmãos Menores. Por isso, e somente por isso, poderemos ser felizes, vivendo assim em perfeita alegria. Importante dizer que não somos apenas menores, mas Irmãos Menores. Não nos esqueçamos de que se trata de nossa identidade.
Não posso me privar de transcrever belíssimas palavras de Hubaut para meditação: “O Frade Menor é o homem do lava-pés. Pressente que o verdadeiro poder é o do amor que serve. O Frade Menor procura, apesar de suas eventuais e covardias e fraquezas, encanar o hoje, à suja maneira, a ternura do Cristo servo que liberta os homens e os reabilita em sua dignidade de filhos de Deus. Possa esse Testamento de Cristo estar bem fundamente presente em nosso coração. Lembremo-nos que Francisco, antes de dar o último suspiro, pediu que uma última vez que fosse lido o capítulo 13 de João, esse do Lava-pés”. Minoridade, serviço, fraternismo se entrelaçam. Eis alguns pontos práticos que podem merecer nossa atenção. A denominação “frades menores” não é apenas um título bonito, algo vazio, mas um programa de vida, um empenho permanente, um dinamismo profundo para fazer que tal ideal evangélico, essa utopia, possa ser vivida. Ser “menores” é o coração do carisma de São Francisco e dos franciscanos.

Cristãos, franciscanos seculares, amigos de São Francisco adotarão uma postura de simplicidade e de singeleza no contato com as pessoas, no modo de vestir, no uso dos bens materiais, na maneira como trabalham, em suas reivindicações. Postura de pessoas “menores” (entendamos bem a palavra!), que não querem se impor…

Lutarão para extirpar aqueles conflitos pessoais que nascem, via de regra, do espírito de superioridade. Carregarão os fardos uns dos outros: diaconia fraterna, o irmão não é um peso a ser carregado, mas alguém a ser ajudado.
Há o serviço do bom exemplo: os irmãos crescem quando alimentados com o bom exemplo dos irmãos. A fraternidade não se constrói com discursos, nem é fruto de uma apologia da vivência em comum, mas se funda no exemplo.
Os seguidores do Evangelho e de São Francisco são pessoas “menores” que gostam de conviver com os simples, de dedicar-se de modo particular aos que não têm carinho e atenção de ninguém. Não é nessa direção que vai nosso desejo de sermos cristãos franciscanos?
Certos pensamentos do papa Francisco (1936-) ressoam e devem sempre ressoar em nossa consciência: compreende-se a realidade somente quando se olha da periferia; jamais um religioso deve renunciar à profecia; não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno; desejo uma Igreja pobre para os pobres. No livro de visitas da Porciúncula, o pontífice escreveu: “Caros irmãos, por favor, não esqueçam o minorismo”.

Fraternidades franciscanas da I e da III Ordens haverão de cuidar da formação para uma vida de “menores”: simplicidade bonita, fala carinhosa aos que mais sofrem, acolhida de todos os mais “arruinados” pela vida afora. minorismo franciscano, uma identidade que sempre precisa ser construída!

Pontos de reflexão

Para São Francisco o minorismo é um modo de seguir os vestígios do Cristo-Servo. Se a vontade humilde de servir possui raízes na pessoa de Cristo, necessariamente haverá de se encarnar na realidade cotidiana. Seria trair São Francisco dissociar uma leitura espiritualista de uma leitura sociológica quando se fala de minorismo. Seu enraizamento é certamente cristológico. Sua aplicação é sociológica.
São Francisco sempre insistiu na pedagogia do “fazer”. Ele repete muitas vezes que só se compreende bem aquilo que se chegou a experimentar. Nossos atos nos convertem mais de mil piedosos pensamentos. O Cristo não conclui a cena do lava-pés precisamente dizendo: “Sereis felizes se assim o fizerdes”.
Ele próprio, assim como a tradição franciscana, haverão de descobrir múltiplas aplicações do princípio do minorismo/serviço: nos relacionamentos interpessoais, no modo de exercer a autoridade, de servir ou de trabalhar fora de casa, de conceber a missão, de situar-se perante a Igreja e a toda criatura.
Sabemos como São Francisco sempre se colocou à escuta do Evangelho em situação, na encruzilhada de seu tempo e a Palavra de Deus. Em sua época, os minores eram também, no sentido sociológico do termo, esse “povinho”, desprezado, excluído pelos maiores, a nova classe dirigente dos burgueses que confiscaram o poder graças às suas riquezas. Na lógica do lava-pés, São Francisco e os companheiros fizeram a opção por esses marginais aos o movimento comunal nada vez do fazer com que eles trocassem de mestres. Os Frades Menores espontaneamente haveria de sentir solidários dessas pessoas de baixa condição social e desprezados. E devem estar satisfeitos quando estão no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos, leprosos e mendigos de rua (Regra não bulada 9,2).

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Setembro/2018

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