História do cristianismo: entre manipulação e verdade

jun 29, 2024Assinante, Igreja em renovação, Julho-Agosto 2024, Revistas0 Comentários

Como a história do cristianismo é transmitida para o público em geral? O que está por trás de uma seleção criteriosa dos fatos? Por que alguns eventos históricos e determinados personagens receberam tanto destaque e outros não? Se formos analisar a fundo esses questionamentos, chegaremos à conclusão de que uma interpretação maniqueísta da história do cristianismo é algo que perdura há séculos.
Nós nos deparamos sempre com aquele antagonismo radical entre cristãos e pagãos, povos germânicos e romanos, cruzados e invasores. É como se, no caso dos cristãos, seja um sacrilégio constatar que a história da religião com maior número de adeptos do mundo também é feita de sombras. É quase um pecado dizer que a maioria das campanhas militares das Cruzadas medievais visavam muito mais a expansão dos territórios que a propagação da fé ou a defesa dos territórios sagrados, por exemplo. Negar fatos históricos, reproduzidos após anos de pesquisa criteriosa, é mais um indicativo dessa imaturidade na fé revestida de “zelo” que caracteriza muitos católicos da atualidade.

Por outro lado, há quem, em vez de contribuir com a reflexão, acaba fazendo o contrário. Muitos ataques gratuitos contra a Igreja Católica também são desprovidos de qualquer fundamento científico. Se, por um lado, o iluminismo gerou um primeiro impulso na busca dessas respostas, no século XVIII, esse mesmo movimento também foi uma verdadeira fábrica de análises incompletas sobre o catolicismo.
Ainda hoje, muitos desses conceitos iluministas compõem as principais cartilhas da disciplina de História. Um deles foi a afirmação de que a Igreja teria propagado “o mito da terra plana”. A instituição, ao contrário, praticamente desconsiderava essa teoria, a qual foi desenvolvida por Cosme Indicopleustes, um monge grego do século VI. Só para citar um exemplo.

Porém, a Igreja acabou respondendo mal a esses ataques. E assim ela passou a produzir uma narrativa paralela caracterizada majoritariamente por triunfos. Observamos essa tendência se repetir entre os religiosos que fazem sucesso nas redes sociais atualmente − o areópago virtual em que cada qual se sente no direito de antepor a ideologia à pesquisa científica. Absolutismo historiográfico: as redes sociais têm sido um antro daqueles que o praticam.

É difícil questionar um popstar da fé sem, no mínimo, ser tachado de herege. Desse forma, coloca-se em descrédito o trabalho sério de historiadores de carreira que simplesmente identificam que a história do cristianismo é composta por uma trajetória tão humana como a de qualquer outra religião ou instituição. Uma trajetória feita de luzes e sombras, disputas e conquistas, erros e acertos.

Já nos primeiros séculos, os escritos hagiográficos eram alguns dos meios mais eficazes de propagação da religião nascente. Muitas dessas histórias, reunidas em uma espécie de coletânea, elencavam os feitos corajosos de alguns personagens. Tal narrativa criou a consciência coletiva de que a perfeição e o heroísmo seriam as principais características de uma história protagonizada por cristãos.
Com o tempo, passou-se a reproduzir a história do cristianismo sem aquela interdisciplinaridade proposta pela Nouvelle Histoire (‘Nova História”), a qual combate justamente esse positivismo praticado por inúmeros escritores católicos na atualidade. Confiamos à Teologia a tarefa de produzir veredictos por causa do medo que ainda temos de chegar às faíscas de verdade que nos deixaram muitos fragmentos. A resposta imediata de que “foi a providência divina” é muito mais cômoda que os porquês salutares que perturbam, mas enriquecem a existência.

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