Evangelhos Dominicais – Julho – Agosto 2024

por jul 1, 2024Assinante, Evangelhos Dominicais, Julho-Agosto 2024, Revistas0 Comentários

7 de julho

14º Domingo do Tempo Comum

Mc 6,1-6

Um profeta só não é estimado em sua pátria.

Jesus havia ido a Nazaré com Seus discípulos. “Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos dos que o escutavam ficavam admirados e diziam: ‘De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? […]’. E ficaram escandalizados por causa dele […]. E ali não pode fazer milagre algum” (Mc 6,2-3).
Estando em Sua terra, Jesus ensina, e chegam a Seus conterrâneos notícias de Suas ações. Eles ficam escandalizados diante do que acontece em torno a Jesus. De onde vinham o conhecimento e o poder com o qual realizava Suas ações?

Por que os conterrâneos de Jesus se escandalizaram? Porque conheciam Jesus na Sua simplicidade e Sua humildade. Por trinta anos, até iniciar Seu ministério público, Jesus vivia de modo comum: certamente participava da sinagoga com o povo, trabalhava e realizava as atividades cotidianas normalmente. Deveria ser estimado por todos como um homem piedoso, bom, entre outros atributos, mas como um homem simples do povo. Ele certamente soube viver bem o cotidiano da vida, essa dimensão da existência sem grandes alardes, sem ‘grandes coisas’, pois a maior parte da vida humana acontece no ‘silêncio’, nas pequenas coisas, entre outros exemplos. Como poderia Deus agir a partir daquele homem tão simples? Deus não iria agir entre os grandes, no Templo de Jerusalém, por exemplo? Muitas pessoas tinham dificuldade em compreender que Deus agia na pessoa de Jesus, a partir da simplicidade e da humildade daquele homem de Nazaré. Para muitos, isso soava como um escândalo!
“Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” (Mc 6,3). As pessoas de Nazaré conhecem os familiares de Jesus. São pessoas simples, do povo. Deus está agindo em alguém originário de uma família assim? Exatamente! Deus manifesta-se como Aquele que, sendo o Altíssimo, age na simplicidade e a partir dos pequenos, em vista dos pequenos e daqueles que sabem se reconhecer como tais, da mesma forma que Maria, mãe de Jesus: “Viu a pequenez de sua serva” (Lc 1,48a).

O Evangelho cita os irmãos e as irmãs de Jesus. Mas a fé católica não diz que Maria é ‘virgem’ e que não teve outros filhos? Quem são esses irmãos de Jesus? É importante notar que a Escritura se refere aos irmãos de Jesus, mas nunca diz que eles são filhos de Maria. O Evangelho diz que Jesus é “o” filho de Maria, e não “um dos” filhos dela. Provavelmente, os irmãos de Jesus são filhos de José de um primeiro matrimônio, já que há uma tradição que afirma que José era viúvo quando desposou Maria (esse seria o motivo de José não aparecer durante a vida pública de Jesus, pois provavelmente era mais velho e já devia ser falecido quando Ele iniciou o Seu ministério); ou ‘os irmãos de Jesus’ seriam seus primos, já que, na cultura de Jesus, muitas vezes os primos eram chamados de irmãos. De qualquer forma, é claro que a Escritura nunca menciona os outros filhos de Maria. “Jesus escandalizou-se pela falta de fé deles” (Mc 6,6a). A fé deve alimentar-se do reconhecimento de um Deus que age a partir das pequenas coisas, no cotidiano e nas coisas simples.

 

14 de julho

15º Domingo do Tempo Comum

Mc 6,7-13

Começou a enviá-los.

Naquele tempo, Jesus chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (Mc 6,7). Jesus constituiu um grupo de ‘Doze’, chamados posteriormente de ‘apóstolos’, ou seja, ‘enviados’. Eles representam as doze tribos de Israel. Jesus escolhe de modo particular ‘Doze’, para indicar uma renovação de Israel a partir desses que Ele chama para segui-Lo e que, a partir de então, ‘envia’ a anunciar o Reino. Jesus dá a Seus discípulos “poder sobre os espíritos impuros”.

Lembramos que, no tempo de Jesus, havia regras muito rígidas sobre ‘pureza e impureza’, e aqueles que eram considerados ‘impuros’ ficavam à margem do culto. Jesus agora tem o poder sobre os ‘espíritos impuros’, é Aquele que expulsa todo espírito impuro, que traz o perdão da parte de Deus e, assim, convida a todos a se aproximarem d’Ele. Ninguém é excluído, e todos podem, n’Ele e por Ele, ser purificados. Jesus envia Seus discípulos com este ‘poder’; que é o poder do amor, do perdão da acolhida que purifica e transforma.

Ao enviar Seus discípulos com poder sobre os espíritos impuros Jesus “recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (Mc 6,8-9). Sua admoestação quer indicar que, ao ir pelo caminho para anunciar o Reino, o discípulo não deve colocar a força de sua missão naquilo que possa possuir. Antes, é preciso se despojar e confiar que a missão deve ter como força o próprio Senhor, a força da Sua Palavra!

“Quando entrardes numa casa, ficai ali até a vossa partida. Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles” (Mc 6,10-11). Os discípulos de Jesus devem sentir-se em casa onde quer que os acolham; porém, se em algum lugar não forem acolhidos, devem ‘sacudir a poeira dos pés’ quando saírem. Isso significa que eles não devem levar consigo nada que seja um ‘espírito de não acolhida’, nem a incapacidade de escutar!

“Os discípulos partiram e pregaram que todos se convertessem” (Mc 6,12), e assim continuavam a missão de Jesus, cuja pregação era: “[…] o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos […]” (Mc 1,15). No anúncio da conversão, está o poder dos discípulos sobre os ‘espíritos impuros’, pois, por meio dele, onde se proclama a proximidade do Reino de Deus, e dessa forma a proximidade de Deus para com todos, manifesta-se a presença d’Aquele que quer nos purificar e trazer salvação. Basta acolher esse anúncio e converter-se. O sinal dessa realidade de salvação se manifestava por meio de algumas curas que aconteciam, as quais, dessa forma, assinalavam que de fato Deus se aproxima daqueles considerados impuros pelas enfermidades segundo o pensamento da época, purificando-os. A cura expressava essa purificação. Assim, todos aqueles (enfermos ou não) que acolhiam a Palavra dos discípulos buscando a conversão poderiam fazer a experiência de purificação, da proximidade de Deus mesmo diante de nossas impurezas. Eis a missão dos discípulos: manifestar e anunciar a proximidade do Senhor, e assim, a conversão!

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Começou a enviá-los, 1886-94, James Tissot

21 de julho

16º Domingo do Tempo Comum

Mc 6,30-34

Eram como ovelhas sem pastor.

Naquele tempo, os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado” (Mc 6,30). Jesus havia enviado Seus discípulos em missão. Quando retornam, eles se põem a contar ao Senhor tudo o que haviam feito e ensinado. O texto não nos narra as situações concretas que eles encontraram e como agiram em cada uma delas. Certamente, devem ter se deparado com dificuldades, como também situações positivas. O texto também não informa todo conteúdo do que ensinavam, mas certamente tinha como centro o anúncio do ‘Reino de Deus’, tal como Jesus o fazia. Quando retornam, contam tudo a Jesus. Como é importante, em nossas orações ‘contarmos a Jesus’ o que temos feito e ensinado, e, dessa forma, colocar diante d’Ele a nossa vida, medindo-a a partir d’Ele, para que Ele molde nossa vida!

“Jesus então diz aos discípulos: ‘Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco’. Havia de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer” (Mc 6,31). Jesus reconhece a importância do descanso!

Segundo o filósofo contemporâneo sul-coreano Byung Chul Han (1959-), vivemos em uma sociedade denominada “Sociedade do Cansaço”. De fato, por vezes, pelo ritmo de vida que se nos impõe, fazemos a experiência de que nunca temos tempo suficiente. Hoje há sempre ‘tanta gente chegando e saindo’ de nosso convívio, não fisicamente, mas pelas redes sociais, com tantas informações que mesmo psicologicamente nossa mente não para. Esse fato também foi constatado por Álvaro de Campos (1890-1935) (um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa [1888-1935]), como se pode perceber nestes versos: “Estou cansado, é claro,/ Porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado./ De que estou cansado, não sei:/ De nada me serviria sabê-lo/ Pois o cansaço fica na mesma” […]1. Nosso cansaço nem é tão somente por causa da missão, mas pela própria estrutura da vida em nosso tempo. Como é importante saber parar! O descanso apresenta-se como um exercício espiritual, em que podemos estar a sós conosco mesmos e com próprio Senhor. Por este motivo, Ele estabelece na Escritura um ‘dia de descanso’.

Ainda assim, muitas pessoas foram atrás de Jesus e de Seus discípulos. Segundo o Evangelho, ao observar tantas pessoas indo a Seu encontro, Jesus viu e “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). A necessidade do descanso, do recobrar as energias, de ficar a sós consigo mesmo(a) e com o Senhor, e mesmo a necessidade da descontração e do lazer, não podem estar desconectadas da compaixão! Antes, o contrário: embora o descanso, o lazer, o momento de estar a sós consigo mesmo(a) e com o Senhor deve nos tornar capazes da compaixão;

pois, ao tocar nossa pequenez pelo fato de que tal atitude nos permite reconhecer nossos cansaços e nossas fragilidades, isso deve nos fazer reconhecer toda a fragilidade humana.
Jesus, que também sabia descansar junto ao Pai, tem compaixão, e, como bom pastor, começa a ensinar, ‘apontar sinais’, para que esse povo possa caminhar seguindo o bom pastor que sabe conduzir as ovelhas a verdes prados, onde podem contar-Lhe as coisas que tem feito, bem como os cansaços, as conquistas e os fracassos… e, mais do que tudo, tendo a oportunidade de descansar perto d’Ele!

 

28 de julho

17º Domingo do Tempo Comum

Jo 6,1-15

Distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam.

Naquele tempo, Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado Tiberíades. Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes” (Jo 6,1-2). Que sinais Jesus operava, fazendo que uma multidão O seguisse? Ele olhava e se compadecia dos doentes e dos pecadores, manifestando-lhes a proximidade de Deus! Também curava alguns. O modo como Jesus agia para com os sofredores, manifestando a misericórdia de Deus, atraía uma multidão!

“Jesus subiu ao monte e sentou-se aí com os seus discípulos” (Jo 6,3) e uma grande multidão vinha ao seu encontro. Jesus perguntou a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6,5). Filipe reconhece ser impossível alimentar a todos. Pedro então diz: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” (Jo 6,9). O menino, que não pensa a partir da lógica humana, simplesmente oferece o que tem. É pouco, é verdade, mas não podemos mensurar aquilo que Deus pode realizar quando nos dispomos a oferecer o pouco que temos e somos! “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados” (Jo 6,11). Tomar o pão e dar graças remetem-nos à Eucaristia. Assim como o pão alimentou a todos os que lá estavam, a Eucaristia ‘multiplica-se’ para alimentar todos quantos têm fome e sede de Deus! “Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com a sobra dos cinco pães” (Jo 6,13). O número doze expressa as doze tribos e também os doze apóstolos, representando também o povo de Deus e a Igreja, pois nela sempre haverá o pão do céu!

Distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam, 1886-94, James Tissot

Distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam, 1886-94, James Tissot

“Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: ‘Este é verdadeiramente o profeta, aquele que deve vir ao mundo’” (Jo 6,14). Os judeus esperavam a vinda do Messias como um novo profeta tal como Moisés, já que este era considerado o profeta por excelência. No livro de Deuteronômio, Moisés diz: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir” (Dt 18,15). E, tal como Moisés deu ao povo o maná, agora Jesus também misteriosamente dá pão ao povo! Ele deve ser o profeta que deveria vir! No entanto, em Seu tempo, também imaginavam o Messias como um rei político; por isso, “quando (Jesus) notou que estavam querendo leva-lo pra proclamá-lo rei, retirou-se de novo sozinho, para o monte” (Jo 6,15). Não compreenderam o sinal da multiplicação dos pães. Queriam fazer Jesus rei por que Ele deu pão ao povo. Também não entenderam o sinal em sua profundidade. Intuíram que Jesus, de fato, era o profeta que deveria vir, como um novo Moisés, mas não perceberam que Ele falava de uma libertação mais profunda do que o simples pão material, sinal de uma realidade maior, que se realiza a partir ‘do pouco’ que o menino compartilhou e que, como pão multiplicado, apontará para o verdadeiro pão do Céu, o próprio Cristo, Aquele em quem encontramos alimento de vida eterna (cf. Jo 6,68).

 

4 de agosto

18º Domingo do Tempo Comum

Jo 6,24-35

Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede.

Jesus, diante de uma multidão que o havia procurado, a partir de cinco pães e dois peixes, deu de comer a todo aquele povo. Diante de tal fato, as pessoas intuíram que Ele era ‘o profeta que deveria vir’ tal como um novo Moisés (Dt 18,15). No entanto, queriam fazer d’Ele um ‘rei’. Jesus retira-se, mas muitos daquela multidão vão novamente procurá-lo; quando O encontram, Ele diz: “Em verdade, em verdade eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com o seu selo” (Jo 6,26-27). Por que procuramos a Jesus? O que buscamos n’Ele? Somente nossa satisfação pessoal e a resolução de nossos problemas? Ou procuramos o alimento de vida eterna? Buscar esse alimento exige ‘esforço’ pessoal. A fé não é somente uma ‘crença’, mas o acolher a Palavra de Jesus como alimento, e o viver a partir dela é pratica de vida! Realizar a obra de Deus é crer em Jesus e, portanto, viver a partir d’Ele.

Então eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obras fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’” (Jo 6,30). Pedem um sinal, mas Jesus já havia realizado a multiplicação dos pães! No fundo, não querem ver e crer, buscando sempre tão somente ‘sinais’ ou melhor, prodígios para si mesmos! Mas essa indagação também traz uma esperança do povo daquele tempo, pois o profeta que deveria vir tal como um novo Moisés deveria trazer um ‘novo maná’. Jesus então vai dizer: “Em verdade, em verdade eu os digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6,32-33). Com isso, faz compreender que foi Deus quem deu ao povo o maná por meio de Moisés, e, naquele momento, dá o verdadeiro pão do céu naquele que ‘desce do céu e dá vida ao mundo’. Está aí um sinal maior do que o maná do Antigo Testamento, pois nesse momento o ‘pão do céu’ não é ‘uma coisa’ tão somente, mas é ‘aquele que desce do céu’, é um ‘alguém’. Este ‘alguém’, o profeta que deveria vir como um novo Moisés, multiplicou o pão no deserto, o qual era sinal de um pão do céu infinitamente maior. Jesus, como sinal, promete um novo maná, um novo pão do céu. Pediram então: “Senhor, dá-nos sempre desse pão” (Jo 6,34), e Jesus afirma: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35).

Jesus é o “pão vivo descido do céu”. Sua Palavra e Sua vida são para nós alimento de vida eterna! Nós nos alimentamos de Jesus ao ouvirmos sua Palavra, e, sobretudo, ao ‘tomarmos e comermos’ Seu corpo e Seu sangue no pão que vem do céu. Que possamos dizer: “Dá-nos sempre desse pão!” e, dessa forma, esforçarmo-nos para buscá-Lo na Palavra, na Eucaristia, alimentando-nos do pão do céu, vivenciando Sua Palavra experimentando a vida eterna, com sentido, salvação.

 

11 de agosto

19º Domingo do Tempo Comum

Jo 6,41-51

Eu sou o pão que desceu do céu.

Naquele tempo, os judeus começaram a murmurar a respeito de Jesus, porque Ele havia dito: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’. Eles comentavam: ‘Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?’” (Jo 6,41-42). Alguns judeus manifestaram a dificuldade de crer que Jesus é o pão que desceu do céu. Afinal de contas, conhecem seu pai e sua mãe, sabem que vive em uma família humilde e simples. Como Ele pode ser o “pão que vem do céu”? Por vezes, esperamos ‘as coisas do alto’ de forma ‘grandiosa’. No entanto, Jesus revela-nos um Deus que age na simplicidade e humildade, a partir da realidade simples da família de Nazaré, assim como se manifesta na simplicidade e na realidade cotidiana de nossas vidas.

Diante da murmuração e da dificuldade de crer dos judeus, Jesus diz: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,44). O caminho para crer em Jesus não se situa por primeiro na razão que procura compreender como Ele pode ser o pão que vem do céu, mas sim nos chega até nós por ‘atração’. A vida de Jesus atrai, encanta, questiona! Sentir-se atraído pela vida d’Ele, Suas palavras e Seus gestos. Esse é o caminho para confiar-se a Ele, que se apresenta como Aquele que viu o Pai e veio d’Ele, pois estava junto ao Pai. As palavras e a vida de Jesus revelam-nos e conduzem ao Pai.

Jesus então completa: “Eis aqui o pão descido do céu: quem dele comer nunca morrerá. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,41.48-51). Quem se alimenta do pão do céu nunca morrerá, pois, este pão é vida. É óbvio que o texto não fala sobre a vida biológica, mas sim sobre a vida eterna. Quem se alimenta de Jesus não morre porque não se afasta da comunhão com Deus e, dessa forma, vive a vida de Deus, que é eterna. A morte é o afastamento d’Ele. A vida plena é comunhão com Ele.

Esse pão que dá a vida é “a minha carne dada para a vida do mundo”, diz Jesus. Aqui, nota-se uma referência à cruz, à Paixão e Morte do Senhor, que entrega a Sua vida. Mas toda a vida d’Ele foi uma entrega à humanidade no amor e, dessa forma, uma entrega de Sua vida ao Pai (o fazer a vontade do Pai). É esse amor manifestado em Sua vida como ‘vida doada, entregue’ que dá vida ao mundo. O ato de nos alimentarmos desse pão é provarmos desse amor infinito, para podermos viver por ele. Isto é vida eterna, vida em comunhão com Deus, que é amor mais forte do que a morte (manifestada na ressurreição), que já somos chamados a viver aqui, à medida que nos alimentamos desse pão do céu. O amor tudo suporta, transforma e redime. Nele encontramos salvação. Alimentemo-nos desse pão do céu, para vivermos por este amor, louvando e agradecendo ao Senhor por doar-se a nós em tão grande Mistério, que se manifesta na simplicidade e na humildade em cada Eucaristia que celebramos. Aí se multiplica o pão para nós, e comemos do novo maná que vem do céu. Alimento de vida eterna.

 

18 de agosto

Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor: elevou os humildes.

A Igreja crê e proclama como dogma de fé que a Virgem Maria foi assunta ao céu, e essa verdade de fé é comemorada em 15 de agosto. No Brasil, para que os fiéis possam celebrá-la, essa solenidade é transferida para o domingo. Trata-se da “assunção” de Maria, diferentemente de Jesus, sobre o qual afirmamos Sua “ascensão”;

pois Jesus, sendo Deus, sobe ao céu, enquanto Maria, criatura de Deus, é elevada ao céu. E aqui se mostra o quanto é claro para a Igreja que Maria de modo algum é colocada no lugar de Deus! A Igreja, ao celebrar a Virgem Maria, celebra aquilo que Deus realizou nela!

O centro do culto católico nunca é Maria, mas o próprio Deus, que nela realiza maravilhas! “O Senhor fez em mim maravilhas!” (Lc 1,49).

A Escritura não narra a Assunção de Maria; pois o Novo Testamento tem como centro a figura do Cristo, e também porque não foi intenção de os apóstolos escreverem sobre tudo. Jesus nunca pediu que
se escrevesse nada. A fé foi transmitida e vivenciada oralmente e, passo a passo, algumas coisas foram sendo escritas. Com isso, as cartas de São Paulo, os Evangelhos, as cartas pastorais e o Apocalipse passaram a compor o Novo Testamento, mas posteriormente, na medida do possível e de acordo com a época (já que escrever era algo difícil), foram surgindo testemunhos daquilo que a Tradição foi transmitindo, como também a interpretação da Escritura.

Embora não haja na Escritura uma narração da assunção de Maria, a Igreja sempre contemplou o conteúdo de Apocalipse: “Surgiu um grande sinal no céu, uma mulher vestida de sol, a lua debaixo de seus pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1) como uma expressão da verdade de fé de que Maria já está na glória do céu (envolvida de sol). Totalmente associada e unida a seu Filho Jesus, desde o nascimento por seu sim, até a cruz (uma “espada de dor transpassava sua alma” [Lc 2,35], tal como Jesus era transpassado pelos cravos); Maria também foi associada a Ele ao término de sua vida, sendo elevada ao céu.

O Evangelho desta solenidade narra a ida de Maria à casa de sua prima Isabel para estar com ela. “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41). Essa saudação comunica a Isabel o Espírito Santo! Maria expressa aquilo que a Igreja deve realizar: comunicar o Espírito! Então, Isabel exclama: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar!” (Lc 1,42).

Maria é bendita, e Isabel sente-se honrada em ter Maria em sua casa, já que ela é ‘Mãe do meu Senhor’; ou seja, para nós, é Mãe de Deus, porque Deus é o Senhor! Por esse motivo, Maria é bendita! Isabel afirma isso inspirada pelo Espírito! Maria então canta seu Magnificat: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em deus meu salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,46-48).

Maria é bendita, e todos devem reconhecê-la bem-aventurada! E isso não significa colocá-la no lugar de Deus, pois ela mesma se reconhece pequena e necessitada
de um Salvador! Sua humildade é reconhecida pelo Senhor, que a tornou ‘plena de graça’ (Lc 1, 28). Por essa graça, realiza-se nela o que diz a Escritura: “elevou os humildes” (Lc 1,52). Em Maria assunta ao céu, aprendemos o caminho para sermos ‘elevados’: reconhecer-nos pequenos, vivendo a humildade. Maria é exemplo para a Igreja, é a Virgem feita Igreja, segundo São Francisco de Assis (1182-1226). Ela deve gerar Jesus no mundo, sendo-Lhe fiel pelo ‘sim’, estando unida a Ele na glória e vestida de sol.

 

25 de agosto

21º Domingo do Tempo Comum

Jo 6,60-69

 

A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna.

Depois de Jesus prenunciar o grande discurso no qual se apresenta como o verdadeiro pão do céu, e que esse pão é Sua “carne, dada para a vida do mundo” (Jo 6,51), muitos discípulos que o escutam dizem: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60). Jesus, diante da murmuração dos discípulos, então diz: “isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do homem subindo para onde estava antes? O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são Espírito e vida” (Jo 6,61-63).

Os discípulos esperavam um Messias forte e glorioso que expulsaria os romanos de Israel, restaurando assim a glória de Israel, segundo a lógica deste mundo. Porém, Jesus apresenta um ‘novo maná’ que vem do céu, como o Messias deveria vir, cujo pão do céu é Sua carne entregue ao mundo. Mas o Messias entregará Sua vida como verdadeiro pão? Temos de nos alimentar desse pão que se doa? Essa palavra é dura, dizem muitos discípulos! E Jesus questiona: “e quando virem o Filho do Homem que subir para onde estava antes?” (Jo 6,62). A glória d’Ele não está em agir com força segundo a lógica deste mundo, mas sim no amor que se entrega e doa a vida. É por esse caminho que o Filho do Homem será elevado! Isso escandaliza aqueles que esperam um Messias forte segundo a lógica e os interesses deste mundo! Por isso, Jesus diz: ‘a carne não adianta nada’, ou seja, de nada vale viver a partir de si mesmo e apenas pelos próprios interesses que passam. É o espírito que dá a vida!

O Messias não vem para solucionar as coisas ‘deste mundo’ que cabem a nós. Ele vem para trazer uma perspectiva eterna de salvação: o amor que sempre permanece. Por isso, Jesus vai dizer: “Ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai” (Jo 6,65), pois somente quando nos abrimos à graça de Deus podemos reconhecer que o fundamento de nossa vida não está em nós mesmos e em nossos interesses (a carne), mas em Deus, no Seu amor que se entrega, para que também nós, alimentados por esse amor, possamos viver a vida como entrega, na dimensão do amor – isso é viver pelo Espírito.

Diante das palavras de Jesus, muitos discípulos manifestaram dificuldade em crer e foram embora, pois estavam fechados em si mesmos e em seus interesses, e não podiam admitir um Messias que se entrega, um Deus que se manifesta dessa forma; por isso, não queriam se alimentar desse pão do céu que deve nos fazer viver por tal amor. Jesus, vendo que muitos iam embora, diz aos Doze: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6,67). Ele é duro em Sua fala. O caminho que nos apresenta é o caminho do amor capaz de entregar-se, de doar a vida, de se abrir ao outro no bem. Não há meio-termo. Ele não suaviza Sua palavra para convencer alguém a ficar, e pergunta: ‘Quereis ir embora?’ Tal questionamento deve ressoar em nosso coração. Por que permanecemos com Jesus? Pedro vai dizer: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). As palavras e a vida de Jesus expressam a vida eterna, o sentido mais profundo da vida situada no amor que se doa no bem. Aí está a ‘vida eterna’, a comunhão com Deus que é sumo bem, a plenitude do bem, e que é bom. Celebramos essa comunhão e somos chamados a viver nos alimentando do pão que vem do céu, a carne de Jesus entregue a nós, expressão de Seu Amor!

Nota

1 Disponível em: https://www.contioutra.com/estou-cansado-um-poema-de-alvaro-de-campos/. Acesso em: jun. 2024.

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