As diaconisas da Igreja Ortodoxa − e as da Igreja Católica?

dez 2, 2023Assinante, Dezembro 2023, Igreja em renovação, Revistas0 Comentários

Em 12 de maio de 2019, o papa Francisco (1936-), ao desfazer a primeira comissão de estudos sobre o diaconato feminino, foi enfático ao afirmar: “Se o Senhor não quis o ministério sacerdotal às mulheres, não adianta”. E completou dizendo que, sem um fundamento teológico ou histórico, não poderia levar a proposta adiante.

Nessa mesma ocasião, diante de 850 religiosas de todo o mundo, que participavam da Assembleia Geral da União das Superioras Religiosas (UISG), o pontífice admitiu não ser um perito na matéria, mas confiava no dossiê apresentado pelos pesquisadores. Eles concluíram que, na Igreja primitiva, as diaconisas, de fato, existiram, mas não eram ordenadas como os homens.

Após o Sínodo para a Amazônia, realizado em outubro de 2019, o papa Francisco optou por reativar a comissão, contando com outro grupo de especialistas. Atualmente, enquanto na Igreja Romana os estudiosos ainda quebram a cabeça em busca de respostas para a questão, os ortodoxos estão há tempos se debruçando sobre as fontes históricas e patrísticas que tratam da atuação das diaconisas na Igreja primitiva.
Em 1907, a Igreja Ortodoxa Russa foi a primeira instituição a solicitar que o ministério das diaconisas fosse reativado, alegando que, na verdade, elas nunca deixaram de existir no Oriente cristão. Foram citados o caso da Geórgia e de outros países que continuaram concedendo esse título às mulheres em épocas distintas.

Oficialmente, o ministério das diaconisas caiu em desuso no seio da cristandade a partir do século X. Porém, o rito de consagração das diaconisas, de fato, nunca foi extinto do Rito Bizantino.

Um santo popular do século XX, chamado Nectário de Aegina (1846-1920), chegou a ordenar duas diaconisas nos idos de 1911. Nas décadas de 1940 e 1950, o teólogo Evangelos Theodorou, da Universidade de Atenas, lançou dois livros intitulados Heroines of love: deaconesses through the ages (1949) e The “ordination” or “appointment” of deaconesses (1954), nos quais defende, com base em uma vasta documentação, que as mulheres eram consagradas diaconisas diante da iconostasis, a divisória que separa o santuário da assembleia nos templos orientais.

Nas décadas de 1970 e 1980, também aconteceram outras aberturas em âmbito ortodoxo. Em 2004, sob a direção do então Arcebispo de Atenas, Christodoulos (1939-2008), a Igreja Autocéfala da Grécia aprovou, por meio de um sínodo que contou com a participação de 125 bispos e metropolitas, a restauração do diaconato feminino aos moldes da Igreja primitiva. Após uma série de embates entre os participantes da assembleia, os gregos decidiram conceder o diaconato às monjas anciãs. O documento de aprovação da prática não utiliza a palavra ordenação, mas adota o termo grego kathosiosi, que significa ‘ungir/abençoar’.

O que ocorria em Constantinopla no século VI (a então capital do Império Romano do Oriente) e na Síria, principalmente, saltou aos olhos dos pesquisadores da comissão católica. À época do imperador romano Justiniano (482-565), por exemplo, registros históricos apontam que, na Catedral de Santa Sofia, “cem diáconos e quarenta diaconisas exerciam os mais variados serviços”. Elas eram responsáveis pela catequese das mulheres pagãs, levavam a Eucaristia aos doentes, assistiam as pessoas em situação de vulnerabilidade e serviam como intermediárias entre o bispo e as demais mulheres da comunidade.

Contudo, é importante salientar que, no passado, qualquer ministério da Igreja (leitor, cantor, porteiro, entre outros) era abençoado pelo bispo a partir de um gesto solene chamado quirotesia (do grego, ‘o ato de impor as mãos’) realizado pela autoridade eclesiástica. O momento não era considerado, em todos os casos, uma fórmula sacramental, mas uma espécie de “unção” para a missão que aquele(a) leigo(a), em particular, deveria
desempenhar. Tanto os estudiosos católicos quanto os ortodoxos acreditam que era justamente isso que ocorria durante a nomeação das diaconisas, embora a questão siga em aberto. A própria Comissão Teológica Internacional, ligada ao Vaticano, em documento publicado em 2003, não lançou nenhum veredito sobre a questão.

Ao contrário do alarde feito por grupos conservadores católicos que, pelo jeito, são avessos até ao estudo em questão, ninguém, por enquanto, ao menos na Igreja Católica, contra-argumenta que as mulheres não eram ordenadas sacramentalmente. A questão é saber se é possível reintroduzir o diaconato feminino, criando uma espécie de instituto, em conformidade com a práxis da igreja primitiva, diferenciando-o, justamente, do diaconato masculino. É o que defende, inclusive, o cardeal alemão Walter Kasper (1933-).

O caso da Igreja Apostólica Armênia (também ortodoxa) é ainda mais curioso. Enquanto os gregos foram mais cautelosos ao escolher, a dedo, quais mulheres poderiam se candidatar ao diaconato, os ortodoxos armênios resolveram aplicá-lo às leigas comuns, justificando que se respaldam na mais antiga tradição da Igreja. Em 2018, na cidade de Teerã, capital do Irã, a anestesista Ani-Kristi Manvelian, de 24 anos, foi consagrada diaconisa em cerimônia solene na Catedral de São Gregório. Além disso, em 2006, o Patriarca da Igreja Greco-Ortodoxa de Alexandria, Theodoros II (1954-), consagrou como “diaconisa das missões” a catequista Theano, da República Democrática do Congo.

Autor

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *