Milenarismo, Juízo Final e o fim do mundo

São Miguel na Queda dos Anjos Rebeldes, c. 1660- -1665, Luca Giordano

São Miguel na Queda dos Anjos Rebeldes, c. 1660- -1665, Luca Giordano

Neste artigo, vamos refletir sobre o capítulo do Apocalipse que trata do milenarismo e do Juízo Final (cf. Ap 20,1-4.11−21,2). O Apocalipse é um livro repleto de símbolos, os quais aguçam a nossa imaginação. Sem identificar o sentido de cada um deles, corremos o risco de fazer interpretações fundamentalistas, isto é, fora do contexto do texto, o que acarreta sérias consequências para a nossa fé. Foi o que aconteceu com a Igreja Católica, na Baixa Idade Média (séculos X a XV), quando interpretou Apocalipse 20,1-4.11−21,2. Mas, o que é milenarismo? Qual é o significado de Juízo Final?

Segundo essa passagem bíblica, o anjo agarrou o Dragão, a antiga Serpente, que é o Diabo (ou Satanás), acorrentou-o por mil anos e lançou-o no Abismo. Depois, trancou e lacrou o Abismo, para que a fera não seduzisse mais as nações da terra, até que terminassem os mil anos. Depois dos mil anos, esse monstro seria solto para seduzir, novamente, as nações (cf. Ap 20,1-3). O fim desse período seria marcado por um grande julgamento, o Juízo Final daqueles que estavam nos Infernos (Hades ou Sheol), a mansão dos mortos. Os que estavam inscritos no “Livro da Vida” ressuscitariam, pois esses não haviam sido marcados com o sinal da besta (imperador romano). Os não inscritos, porém, seriam lançados em um lago de fogo, o qual, na Baixa Idade Média (séculos X e XV), passou a ser chamado de Inferno, um lugar temível, onde mora o Diabo, entidade retratada com rabo, chifres, orelhas pontudas e fedor de enxofre. Desde então, Satanás, o Opositor, foi transformado em Capeta.1

A era milenarista é a época dos santos libertos do poder de Satanás, pois este estaria aprisionado por mil anos. Haveria, portanto, a era dos mil anos de paz, na qual já estaria realizado o primeiro juízo de Deus. Passado esse tempo estabelecido, ocorreria o Juízo Final de Deus, quando, então, a Jerusalém Celeste desceria sobre a terra, como profetiza o Apocalipse. O Juízo é final porque já teria acontecido um antes dele.

Quando chegou o ano 1000, vendo que Cristo não voltou para reinar por mil anos, a Igreja, imaginando que os demônios estavam soltos, instituiu a “Pastoral do medo do Capeta e da morte”. Uma nova visão cristã da morte e do futuro de cada cristão, no pós-morte, foi anunciada aos quatro-cantos. Com isso, a instituição fortaleceu seu poder de domínio sobre a sociedade.

O Juízo Final, c. 1466-1473, Hans Memling

O Juízo Final, c. 1466-1473, Hans Memling

Unidas ao milenarismo, estão a vinda de um messias para os judeus e a volta de Jesus para os cristãos. Vários textos do Antigo Testamento
(cf. Dn 2. 7; Ez 40–48; Is 54–55;) citam a vinda de um messias que inauguraria um tempo de fartura e de paz. Esse pensamento judaico influenciou o conteúdo de Apocalipse 20,1-4.11−21,2, o qual diz que os mortos que deram suas vidas por causa de Cristo participam da primeira ressurreição e reinarão com Ele por um período de mil anos. Já os outros mortos deveriam esperar o final dos mil anos (milenarismo).

Ao longo dos mil anos, houve várias interpretações da profecia de Apocalipse 20 (cf. Is 24–27; Dn 2.7; Mt 24−25; Mc 12–13). Seria o fim do Império Romano? Seria um tempo, de fato, historicamente cronometrado? Santo Agostinho de Hipona (354-430) combateu o milenarismo e interpretou-o como um período de duração não definida, o tempo de salvação pela Igreja.2

O monge francês Rodulfus Glaber (990-1046) relatou fatos extraordinários ocorridos durante três meses no ano 1000: cometa brilhante, tremores de terra, incêndios, heresias e depravação do clero. Esses sinais, segundo a narrativa, evidenciavam a chegada do Anticristo.3
A Primeira Cruzada, proclamada em 1096 pelo papa Urbano II (1042-1099), é um exemplo de movimentos de inspiração milenarista. Formada por pobres, movidos por motivos espirituais, eles almejavam reconquistar Jerusalém, terra da paixão de Cristo e do perdão de todos os pecados e lugar de felicidade eterna. A Segunda Cruzada (1147-1149), proclamada pelo papa beato Eugênio III (1088-1153), teve mais acentuada a esperança milenarista: um Imperador que salvaria os pobres e instauraria a era da felicidade, derrotando o Anticristo.

O Juízo Final, realizado por Jesus, no último dia, com a separação de eleitos e condenados, conforme narra o Evangelho segundo São Mateus foi associado ao Apocalipse. O texto de Mateus 25,34 diz: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo”. Seguido deste versículo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o Diabo e para os seus anjos” (Mt 25,41b).

O Juízo Final, Cúpula interna do Batistério de São João, Florença (Itália)

O Juízo Final, Cúpula interna do Batistério de São João, Florença (Itália)

Nas abóbodas de igrejas, foram retratadas cenas desse julgamento. No século XIII, a visão mateana sobrepôs-se a do Apocalipse nas iconografias.4 A segunda vinda de Jesus foi entendida como um grande julgamento, um Juízo Final. Entre as visões milenaristas da época, destaca-se a que considera a era da felicidade realizada no tempo da Igreja, como ensinara Santo Agostinho, e que o momento era de realização do Juízo Final. Essa visão contribuiu para instaurar o medo na Baixa Idade Média.5

O século XIV foi marcado por uma angústia escatológica, no fim dos tempos. Um pregador, Francesco, em Florença, no ano 1513, dizia a respeito do fim do mundo: “Haverá sangue por toda parte. Haverá sangue nas ruas, sangue no rio; as pessoas navegarão em ondas de sangue, lagos de sangue, rios de sangue… dois milhões de demônios estão soltos… porque mais mal foi cometido ao longo destes dezoito anos do que no decorrer dos cinco mil anteriores”.6

No século XVI, a Reforma Protestante (que teve como um dos principais expoentes o monge agostiniano Martinho Lutero [1483-1546]), estava impregnada da ideia de fim do mundo, um Juízo Final iminente. Os séculos seguintes seguiram essa cartilha. As dominações portuguesas e espanholas eram vistas como algo nobre, verdadeiras conquistas para a Igreja e glória para Portugal e Espanha no dia do Juízo Final, diante do soberano Juiz, Jesus, que acolheria os novos convertidos. Essas duas nações ofereceriam a Jesus, quando Ele voltasse, milhões de convertidos. Em contrapartida, o frade dominicano Bartolomeu de Las Casas (1484-1566), protetor dos indígenas, acreditava que a Espanha seria castigada por tamanhas atrocidades cometidas no Novo Mundo em nome da cruz e da espada.7

O milenarismo continuou com outras roupagens em Portugal, no século XVI. Um novo império português que reinaria sobre o mundo, a ser iniciado em 1670, 1679 e 1700, para o bem da Igreja e da nação portuguesa, foi prometido pelo padre António Vieira (1608-1697) ao rei de Portugal.8

Com essa visão, Portugal chegou ao Brasil para colonizá-lo. A chegada dos colonizadores ao Brasil, na América Latina indígena, provocou uma dominação cultural. A cosmovisão autóctone não permitia o dualismo da evangelização portuguesa. Para o indígena, a terra é mãe, a natureza é um espírito acolhedor no pós-vida. Quando morre, seu espírito volta para a natureza. Por isso, não conseguia entender o discurso dicotômico de um Inferno ou Purgatório que o esperaria no pós-morte. Natureza é acolhimento, é mãe que possibilita o bem-viver. No mundo criado pelas divindades dos povos originários, muitas delas ligadas à própria natureza, não havia espaço para algo ruim para o ser humano. Lamentável, no entanto, é que, em nossos tempos, esse discurso de medo e de domínio a partir da religião tem sido retomado por muitos pregadores. Que Deus tenha piedade de nós!

Notas

1 FARIA, Jacir de Freitas. O medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção a Nossa Senhora da Boa Morte às irmandades Negras de Nossa Senhora da Boa Morte. Petrópolis: Vozes, 2019. p. 150.
2 AGOSTINHO, Santo. De Civitate Dei, livro XX, c.7. In: MIGNE, Jacques-Paul. PL, Paris: Bibliotheca Universalis, v. XLI, col. 667-668.
3 ANTONIAZZI, Alberto. Milenarismo não é só Idade Média. Vida Pastoral, São Paulo, n. 30, p. 28, maio-jun. 1999.
4 ARIÈS, Philippe. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981. p. 109-110. v. I.
5 ANTONIAZZI, op. cit., p. 23.
6 Ibidem, p. 222.
7 Ibidem, p. 213.
8 CANTEL, Raymond. Prophétisme et messianisme dans l’oeuvre d’Antonio Vieira. Paris: Édiciones Hispano-Americanas, 1960. Citado por: DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 210-211.

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1 Comentário

  1. clemoco48

    Frei Jacir, por favor, fiquei com dúvidas de entendimento no final: “No mundo criado…………tem sido retomados por muitos pregadores.”

    Não existe Juízo Final? Em algum tempo?

    Responder

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