A Revelação de Deus na caminhada do povo!

nov 17, 2022A Sagrada Escritura e a experiência de Deus hoje, Novembro 2022, Revistas0 Comentários

O tema da “Revelação” é fundamental para a compreensão da Economia da Salvação. Só podemos falar de Deus, porque Ele se revelou, falou “algo” de Si. O termo revelação vem do latim revelare, que significa tirar o véu. Deus é aquele que tira o véu, Se “re-vela”, se dá e se esconde (sempre há algo a mostrar), para que o busquemos ao longo da vida. É importante acentuar que a Revelação se dá na história humana, através de fatos, pessoas e acontecimentos. Esses eventos, trazem no seu bojo, o Plano de Deus, que é vida e liberdade para todas e todos.[1]

O Concílio Vaticano II (62-65) na Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Revelação de Deus, assegura que a iniciativa é sempre de Deus, é Ele que vem ao nosso encontro. A Igreja diz também que, a Revelação não é ditado, mas autocomunicação.[2] Desde que a aventura da criação começou, e isso já faz quase 13,7 bilhões de anos[3], segundo o consenso científico, “aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-SE a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade…”  Deus está em tudo e todos, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos…” (At 17,28). Existem quatro lugares fundamentais de encontro, onde a Revelação como Auto-comunicação de Deus acontece.

O primeiro lugar onde Deus se “re-vela” é na criação, ela traz em si uma mensagem. O Catecismo da Igreja Católica e também o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, apresenta a criação, ou seja, todo o universo como o primeiro lugar de encontro com Deus, é como se fosse um livro aberto com uma mensagem para toda a humanidade.[4] São Francisco de Assis dizia que as criaturas são nossas irmãs e irmãos, e ao seu modo louvam o Criador. A teologia da Revelação denomina essa etapa como “Revelação indireta”, ou “Natural”. Através da criação, captamos uma mensagem e porque não dizer, uma “Presença escondida”, que tudo sustenta na existência. Deus, cria as leis naturais e lhes dá autonomia!

O segundo lugar onde Deus fala é na consciência humana, todas e todos são capacitados a acolher a Revelação, e ouvir uma voz que lhes fala ao coração, caso contrário, isso seria impossível.[5] É claro que a nossa consciência precisa ser cada vez mais formada, aquilatada, para ter mais clareza sobre o Projeto Divino. Nessa hora cabe muito bem falar do critério de discernimento vindo dos monges do deserto, eles diziam, “quando é de Deus, traz paz, vida e liberdade”. Importante lembrar também que o ser humano é imagem e semelhança de Deus (Gn 1,1-11), por isso, tem uma dignidade em si mesmo, e direito à “terra, teto e trabalho” digno (Papa Francisco). O sistema em que vivemos, nos últimos trezentos anos, tem produzido devastação ecológica e degradação humana. Precisamos reforçar os laços de solidariedade e cuidado com o ser humano e o planeta Terra, nossa casa comum. É preciso assegurar o biocentrismo, colocar a vida no centro das nossas atenções e cuidados, pois ela é dom de Deus e somos chamados a ser os cuidadores e defensores da vida em todos os níveis. É preciso escutar o grito da Terra, grito dos pobres e excluídos! (cf. Laudato Si’)[6]

O terceiro lugar de Revelação, nos povos com suas culturas, dentre eles, Isra-El tem um chamado especial e uma vocação a realizar, ser “Luz das nações”, Desde Abraão, passando pelos patriarcas, até Moisés e os profetas e profetizas de Deus, a Revelação vai emergindo na história e caminhada do Povo Hebreu. Aqui, já podemos falar em Revelação Religiosa, pois agora, Deus vai entrando em diálogo com as pessoas. Os fatos e acontecimentos, ao logo dos tempos, ganham uma interpretação teológica, ou seja, “Deus caminha com o povo”. No Primeiro Testamento, o Êxodo do Egito, é sem dúvida nenhuma o acontecimento fundante do Povo de Isra-El (cf.Ex 3,1ss). Foi tão impactante, que é narrado por pessoas diferentes, épocas diferentes e lugares diferentes. A gesta libertadora de Deus e a condução do povo será prefiguração do fato revelador por excelência que será narrado no Segundo Testamento.

O quarto lugar de Revelação é na pessoa, vida e missão de Jesus o Nazareno. Nele temos a Plenitude da Revelação! A Carta aos Hebreus começa de forma bonita afirmando que “Deus (Pai) falou no passado de diversas formas pelos profetas, mas nos últimos dias nos falou através de seu filho…” (Hb 1,1ss).  Não existe apenas uma forma de Deus falar. Porém, em Jesus o Nazareno, temos a autocomunicação de Deus por excelência. No jovem galileu, “Deus se humaniza para que o homem se divinize” (São Leão Magno). Sua prática libertadora demonstra que, o Deus distante se faz presente, e mais, torna-se um de nós, nosso irmão! Jesus tem uma história humana, essa história é revelação (Mt 1,1-17). É uma história que não deixa de lado o conflito, ele nasceu fora da cidade, como um excluído e morreu fora da cidade, de forma injusta, ressuscitou e penetrou no coração da história e também, em nosso coração. Já não estamos mais sozinhos em nosso caminhar e tropeçar, Jesus o Cristo, caminha conosco e comunica o Espírito Santo a todas e todos, para que no seu seguimento, possamos viver o Malkuta (reino no aramaico), já aqui em nossa história, e ainda não, pois a Segunda Vinda de Jesus (Parusia) ainda está por acontecer! Paz e Bem.

[1] HAUGHT, John F. Mistério e promessa: teologia da revelação. São Paulo-SP: Paulus, 1998

[2] DV cap. I, n.2

[3] BOFF, Leonardo. De onde vem? uma nova visão do universo, da Terra, da vida, do ser humano. Rio de Janeiro-RJ: Mar de Ideias Navegação Cultural, 2016.

[4] CIC n.27-35; PAPA FRANCISCO. Laudato Si’. Carta Encíclica, 2015, n.84-88.

[5] LIBÂNIO, João Batista. Teologia da Revelação a partir da modernidade. São Paulo-SP: Loyola, 1992.

[6] LS, n.49

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