A amizade social, da solidariedade à caridade cristã

dez 30, 2023Assinante, Igreja e Sociedade, Janeiro - Fevereiro 2024, Revistas0 Comentários

O papa Francisco (1936-), com a Carta Encíclica Fratelli tutti (FT)1, consagrou a expressão “amizade social”, que serve de tema à Campanha da Fraternidade de 2024 (Fraternidade e Amizade Social). Trata-se de um conceito amplo, que se vincula às ideias de solidariedade, fraternidade e caridade.
O papa Bento XVI (1927-2022) usou, com praticamente o mesmo sentido, a expressão “caridade social” em sua Carta Encíclica Deus caritas est (DCE, n. 29, 40)2. Já nos preparando para o período quaresmal, vale a pena procurar entender toda a riqueza dessa expressão.

A amizade social é uma relação que permeia o tecido da sociedade. Acontece à medida que, a partir do amor, passamos a perceber o outro como “precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais”, procurando “o melhor para a sua vida”, não excluindo ninguém e vivendo uma “fraternidade aberta a todos” (FT, n. 94). Podemos pensar essa ideia como equivalente à de solidariedade, mas, para muitos, apesar das óbvias semelhanças, talvez não sejam o mesmo conceito.

A solidariedade e a caridade

Duas bioeticistas da atualidade, Barbara Prainsack e Alena Buyx3, fazem uma distinção que pode parecer até estranha para muitos cristãos… Elas consideram que a solidariedade se refere a uma relação de compromissos, envolvendo custos (financeiros, sociais, emocionais ou outros), para ajudar outras pessoas com quem nos reconhecemos semelhantes ou associados em algum aspecto relevante. Ou seja, somos solidários com aqueles aos quais nos sentimos vinculados. Já a caridade consiste, para essas autoras, em um compromisso em ajudar aqueles que, sendo diferentes de nós, passam por uma necessidade que não temos.

Um cristão provavelmente terá dificuldade em distinguir solidariedade e caridade, pois em ambas subsiste o amor fraterno. Contudo, conhecer essa distinção pode nos levar a uma reflexão interessante para essa Campanha da Fraternidade. Muitas vezes nossa solidariedade se limita àqueles que nos parecem dignos de receber nosso apoio e nossa consideração… Mas até um não cristão pode perceber que o compromisso de amor ao qual Deus nos impele vai muito além disso. Deus amou-nos primeiro, Cristo sacrificou-se por nós, mesmo sendo pecadores (cf. Rm 5,8) e, assim como Jesus deu a Sua vida por nós, devemos dar a nossa vida por nossos irmãos (cf. 1Jo 3,15-16).

O amor gratuito de Deus por nós leva-nos a também querer amar gratuitamente nosso irmão. Não só aquele que tem vínculos afetivos conosco, mas também aquele que, de outro modo, consideraríamos indiferente ou até hostil. Essa é a caridade. Mas, para entendê-la corretamente, devemos saber que o amor cristão é mais que um sentimento subjetivo, que pode ir e vir conforme as consequências. Na perspectiva cristã, o amor é um discernimento objetivo, a consciência de que o bem do outro é desejável para nós, mesmo quando nossa instintividade nos diria o contrário.

Por isso, a caridade cristã transcende a solidariedade como virtude que se aplica apenas àqueles que fazem parte do nosso grupo social. Isso não impede que muitos não cristãos vivenciem uma verdadeira caridade. Fomos feitos para Ele, e as virtudes cristãs implicam comportamentos que, quando praticados por nós, nos tornam mais felizes. Mas, por nosso caráter sempre contraditório, muitas vezes não nos damos conta disso – e precisamos do anúncio e da vivência do amor cristão para compreendermos essas coisas.

A solidariedade cristã como princípio social

A solidariedade, vivida em sua forma mais profunda, é fraternidade. Somos todos membros da mesma família humana, filhos do mesmo Pai que está nos céus. Não à toa o pontífice, no título da Fratelli tutti, refere-se à fraternidade e à amizade social. Não deixa de ser uma razão de alegria e esperança constatar que, no mundo atual, apesar de todas as mazelas e de todo o individualismo, cresce uma consciência fraterna nas sociedades. A percepção da necessidade compartilhada por todos de enfrentar as crises ambientais, pois somos todos “parte da mesma Terra”, a empatia e o compromisso que geram tantos movimentos e organizações que defendem migrantes e refugiados são sinais cristalinos que, em meio às contradições típicas de todos os seres humanos, vamos nos dando conta de que um espírito fraterno será bom tanto para os necessitados quanto para aqueles em condições de ajudá-los. É uma pena que muitos cristãos, movidos por ressentimentos e juízos polarizados (algumas vezes até corretos do ponto de vista racional), perdem essa oportunidade de testemunhar a caridade cristã – e até de ajudar os demais a encontrarem a Deus e terem um discernimento mais adequado sobre os problemas do mundo.

Vaticano

Evidentemente, existe um olhar cristão para com a solidariedade, no qual ele perde esse particularismo, esse caráter meramente grupal. São João Paulo II (1920-2005), por exemplo, dedicou toda uma encíclica ao tema da solidariedade, a Sollicitudo rei socialis4 (título que pode ser traduzido por ‘O cuidado com as questões sociais’). Nela, ele escreve: “À luz da fé, a solidariedade tende a superar-se a si mesma, a revestir as dimensões especificamente cristãs da gratuidade total, do perdão e da reconciliação. O próximo, então, não é só um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais; mas torna-se a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objeto da ação permanente do Espírito Santo. Por isso, ele deve ser amado, ainda que seja inimigo, com o mesmo amor com que o ama o Senhor; e é preciso estarmos dispostos ao sacrifício por ele […]” (SRS, n. 40).

O papa Francisco escreve, na Fratelli tutti: “[…] A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros. O serviço é, em grande parte, ‘cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo’. Nesta tarefa, cada um é capaz de pôr de lado as suas exigências, expectativas, desejos de onipotência, à vista concreta dos mais frágeis […]. O serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até ‘padece’ com ela e procura a promoção do irmão. Por isso, o serviço nunca é ideológico, dado que não servimos ideias, mas pessoas” (FT, n. 115).

Desse modo, como observa o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI 193ss)5, a solidariedade deve ser entendida como uma virtude moral e como princípio social, isto é, forma de organização da sociedade.

A solidariedade nos diferentes níveis da ordem social cartaz CF 2024JanFEv24

A forma mais básica de solidariedade manifesta-se no nível interpessoal. Trata-se daquela que prestamos pessoalmente para com nosso(s) irmão(s) que sofre(m). Todos praticamos, cotidianamente, essa solidariedade em nossas famílias e comunidades. Ela muitas vezes se desdobra em gestos de auxílio para com os pobres e necessitados. Apesar de muitas vezes criticada por seu caráter assistencialista, não pode ser subestimada. É o primeiro passo em uma educação para o amor fraterno. Quem não viu, na própria família, o testemunho dessa solidariedade interpessoal, terá muito mais dificuldade até mesmo para se relacionar de forma justa com as pessoas que ama.

Além disso, a maioria das obras sociais, tanto cristãs quanto não cristãs, depende de contribuições pessoais para sobreviver – e, nesse quesito, o Brasil não vai bem… Em 2022, quando foram tabulados os dados referentes ao período da pandemia de Covid-19, o País ocupava a 18a posição no ranking dos países com maiores doações e contribuições voluntárias no mundo, com um aumento significativo no número de doações financeiras e trabalhos voluntários, segundo o World Giving Index. Foi um resultado histórico: em anos anteriores, estava na 54a posição. Mas, em 2023, o Brasil caiu 71 posições nesse ranking mundial, ocupando atualmente o 89a lugar.

À medida que nos organizamos em associamos e movimentos para prestar nossa solidariedade, nossa ação pode ganhar um impacto maior na sociedade, ajudar com mais eficácia aqueles que passam por necessidades e ter um impacto maior de transformação da sociedade. O crescimento do Terceiro Setor mostrou que esse é um dos caminhos mais promissores na atualidade. A Doutrina Social da Igreja (CDSI 185ss), com o princípio da subsidiariedade, defende justamente o trabalho das organizações sociais. Trata-se da ideia de que as pessoas devem se organizar para resolver os problemas da sociedade com os quais se defrontam. Cabe ao Estado apoiar (subsidiar) as respostas dadas pela sociedade organizada. É uma visão que se afasta tanto de um Estado centralizador e potencialmente autoritário quanto de um Estado mínimo sem responsabilidade para com a população.
O Estado é, naturalmente, o nível mais geral da ação solidária em uma nação. Nenhum país conseguiu se desenvolver, no último século, sem governos que desenvolveram políticas sociais eficazes em prol da sua população. Podemos e devemos nos questionar sobre a melhor forma de desempenhar sua função, condenar um Estado inchado, que suga os recursos da sociedade sem lhe dar o retorno devido; mas não podemos negar que as práticas solidárias e o cuidado com o bem comum são indispensáveis se queremos um Estado realmente a serviço do desenvolvimento integral da nação.

Convertemo-nos à amizade social

A Quaresma, todos sabemos, é tempo de conversão. A Igreja do Brasil, ao propor a amizade social como tema da Campanha da Fraternidade, apresenta-nos uma indicação concreta de caminho de conversão: crescermos na dimensão social do amor, que implica um compromisso com os mais pobres e excluídos. Não se trata de um chavão ideológico, como muitos querem nos fazer acreditar. É o mais puro espírito cristão. Como diz Jesus no Evangelho segundo São Mateus, “Em verdade eu vos digo, todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

Para muitos de nós, a percepção dos três níveis da solidariedade (interpessoal, grupal e estatal) pode ser uma ajuda nesse caminho de conversão. Alguns são muito bondosos nas relações interpessoais, mas se revoltam quando veem o Estado realizar políticas públicas solidárias. A maioria da população brasileira faz pouco em termos de doações e voluntariado. Talvez não seja o nosso caso, mas podemos nos perguntar como propor essas práticas a nossos amigos. E há aqueles entre nós que aplaudem todo discurso social do governante que elegeu, sem se perguntar se é real ou demagógico, se está sendo efetivo ou apenas consumindo dinheiro público…

O amor ao próximo é sempre exigente e pede de nós um pouco mais.

 

Notas

1 FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Assis, 3 out. 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em: dez. 2023.
2 BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Deus Caritas Est: sobre o amor cristão. Roma, 25 dez. 2005. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est.html. Acesso em: dez. 2023.
3 PRAINSACK, Barbara; BUYX, Alena. Solidarity in Medicine and Beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 2017.
4 JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis: pelo vigésimo aniversário da Encíclica Populorum Progressio. Roma, 30 dez. 1987. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis.htmltutti.html. Acesso em: dez. 2023.
5 PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Cidade do Vaticano, 2 abr. 2004. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html#a)%20Significado%20e%20valor. Acesso em: dez. 2023.

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